O túmulo de Tatsu Takayama é discreto, localizado no Templo Saishō-ji, na zona oeste de Tóquio. Cercado por lápides quase iguais, o memorial não revela a importância histórica de quem ali descansa. Sua história é marcada por coragem e devoção às montanhas.
Em 1832, Takayama tornou-se a primeira mulher a alcançar o cume do Monte Fuji, mesmo com a proibição que impedia a presença feminina. Para chegar ao topo, precisou se disfarçar com roupas masculinas, arriscando punições severas e até o exílio.
Momentos antes da conquista, ela disse aos acompanhantes que queria subir até o cume mesmo que morresse e que, se retornasse, desejava encorajar todas as mulheres a escalar, conforme registra a historiadora Fumiko Miyazaki em seu livro “Peregrinas Femininas e o Monte Fuji: Mudando Perspectivas sobre a Exclusão das Mulheres”.
Apesar da façanha, Takayama quase desapareceu da memória coletiva. Os registros do montanhismo japonês eram majoritariamente masculinos, e a história das peregrinações femininas era pouco preservada.
Barbara Ambros, professora de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, lembra que a escalada tinha caráter religioso, uma verdadeira peregrinação, e não esportivo, e que mulheres como Takayama frequentemente eram omitidas dos arquivos históricos.
O Monte Fuji e a religião
Para os Fuji-kō, confraria budista-xintoísta de Edo, atual Tóquio, o Monte Fuji não era apenas um destino: era uma divindade. Escalar a montanha significava enfrentar o ar rarefeito em ato de devoção, aproximando-se da purificação.
A doutrina nyonin kinsei, entretanto, impedia mulheres de subir, considerando-as ritualmente impuras pelo ciclo menstrual e pelo parto.
Guardas e postos de controle monitoravam as peregrinações, barrando mulheres que tentassem avançar além de certos pontos.
Algumas recorreram a escaladas simbólicas, construindo pequenas réplicas do Monte Fuji chamadas Fujizuka, mas outras, como Takayama, buscavam o cume real sempre que possível.
Ambros destaca que ela estava inserida em uma corrente religiosa que aceitava, em certa medida, a participação feminina, embora fosse uma exceção.
Durante a escalada, Takayama contava com três homens. Para não ser identificada, cortou os cabelos curtos e se vestiu com quimono masculino.
A escalada histórica
O Monte Fuji se ergue a 3.658 metros em Honshu, Japão, com florestas de cedro e pinheiro nas encostas inferiores e depósitos vulcânicos perto do cume. O ar rarefeito e a geada, mesmo no verão, tornam a ascensão desafiadora.
Caso você queira ter uma visão inusitada do Monte Fuji, você pode se divertir em uma das montanhas-russas mais radicais do mundo.
Takayama iniciou a jornada em outubro de 1832, acompanhada por cinco homens, entre discípulos, um carregador e o sacerdote Sanshi, líder da seita Fuji-kō.
Vestia quimono escuro, largo nos ombros e justo na cintura, com franja raspada, e carregava apenas o necessário: bolinhos de arroz, talismãs Fuji-kō e uma tira de sílex para fazer fogo.
Na quinta estação, Chūgū, passaram a noite sob neve acumulada. No dia seguinte, enfrentaram vento cortante e caminhos escorregadios.
Ao atingir o portal Torii, limiar sagrado da tradição xintoísta, Takayama completou a ascensão sem alarde, registrada nos documentos como “uma mulher nascida no Ano do Dragão escalou a montanha no Ano do Dragão”.
Sanshi documentou o feito em pergaminho, preservado pela família Takayama em Shinjuku, um dos poucos registros sobreviventes da ascensão pioneira.
Consequências e legado
Apesar de desrespeitar a proibição, Takayama não foi impedida. A notícia se espalhou lentamente, e alguns moradores atribuíram a ela desastres naturais posteriores, segundo Miyazaki.
Mulheres continuaram proibidas de subir, como mostram registros da compilação histórica Nihon Sangaku Fujin-shi.
Em 1867, a inglesa Fanny Parkes foi considerada a primeira mulher a alcançar o cume, abrindo caminho para alpinistas estrangeiras. Só em 1872, durante o governo Meiji, a proibição foi formalmente revogada, motivada pela modernização e não por questões morais.
Décadas depois, na década de 1980, os historiadores Kōichirō Iwashina e Hiroshi Okada reencontraram Takayama nos arquivos da família, confirmando a ascensão pioneira.
Hoje, seu túmulo no Saishō-ji permanece discreto, sem indicar sua ousadia ou importância histórica.
O Monte Fuji continua a atrair milhares de peregrinos, mas poucos sabem que a primeira mulher a conquistar seu cume precisou enfrentar neve, tradição e disfarce para marcar a história. O destino se tornou muito visado por brasileiros, que podem aproveitar a experiência para aumentar seu repertório cultural.


