O Brasil já foi fundo do mar antes dos primeiros animais dominarem a Terra

Rochas de Mato Grosso do Sul revelam um antigo ambiente marinho dominado por bactérias e algas há cerca de 540 milhões de anos

As águas cristalinas de Bonito contrastam com o passado remoto da região, quando parte do atual território brasileiro estava ligada a ambientes marinhos rasos

As águas cristalinas de Bonito contrastam com o passado remoto da região, quando parte do atual território brasileiro estava ligada a ambientes marinhos rasos | Wikimedia Commons/Andrew Mercer

Muito antes de cidades, florestas e rios desenharem o mapa atual do Brasil, uma parte do território hoje ocupado por Mato Grosso do Sul estava coberta por um mar antigo. Ali, onde hoje ficam regiões como Corumbá e Bonito, rochas guardaram uma paisagem quase impossível de imaginar.

Continua após a publicidade

Esse cenário existiu há cerca de 540 milhões de anos, quando a vida na Terra ainda era muito diferente da atual. Em vez de peixes, conchas e grandes animais marinhos, os oceanos rasos eram ocupados principalmente por formas microscópicas de vida.

A descoberta ganhou força após uma nova análise de fósseis brasileiros que, durante décadas, foram interpretados como rastros deixados por pequenos animais. Agora, os sinais apontam para algo ainda mais antigo: comunidades fossilizadas de bactérias e algas.

Mar antigo no coração do Brasil

As amostras estudadas vêm de Corumbá e de um afloramento rochoso em Bonito, na Serra da Bodoquena. Hoje, a região é conhecida por águas cristalinas, turismo de natureza e paisagens de calcário.

Continua após a publicidade

No passado profundo, porém, essas rochas se formaram em um ambiente marinho de plataforma continental. Na prática, isso indica que aquela área fazia parte de um mar raso durante os momentos finais da formação de Gondwana.

Esse supercontinente reunia massas de terra que, muito tempo depois, dariam origem a partes da América do Sul e da África. Por isso, os fósseis encontrados no Brasil ajudam a contar uma história que vai muito além das fronteiras atuais.

Criaturas quase invisíveis dominavam os oceanos

A nova interpretação muda o personagem principal dessa paisagem. O que parecia ser rastro de vermes ou pequenos animais oceânicos era, na verdade, material formado por microrganismos.

Continua após a publicidade

Segundo Bruno Becker-Kerber, primeiro autor do estudo, os microfósseis apresentam estruturas celulares compatíveis com bactérias ou algas daquele período. “Não são rastros de animais que teriam passado por ali”, afirmou o pesquisador, para a Agencia FAPESP.

Além disso, as amostras revelaram filamentos, divisões celulares e matéria orgânica preservada. Esses detalhes reforçam que as marcas não surgiram apenas pela passagem de algum animal pelo sedimento.

A paisagem de Bonito ajuda a contextualizar a região onde afloramentos rochosos preservam pistas importantes sobre a história da vida na Terra (Foto: Pixabay)

Tecnologia enxergou o que a rocha escondia

A reanálise só foi possível porque os pesquisadores usaram técnicas avançadas de imagem, como microtomografia, nanotomografia e espectroscopia. Esses métodos permitem observar detalhes internos sem destruir o fóssil.

Continua após a publicidade

Com isso, a equipe conseguiu identificar estruturas muito pequenas, algumas na escala de micrômetros e nanômetros. Esse nível de detalhe mostrou que os fósseis tinham uma organização mais próxima de bactérias e algas do que de trilhas deixadas por animais.

Pista muda a origem da vida animal

A descoberta também ajuda a entender o período anterior à explosão Cambriana, fase em que a vida animal se diversificou de forma marcante nos oceanos. Antes disso, o planeta ainda reunia condições ambientais diferentes das atuais.

Os resultados sugerem que os níveis de oxigênio talvez ainda fossem baixos demais para sustentar certos invertebrados capazes de deixar rastros no fundo do mar. Assim, o Brasil preserva uma pista rara de uma Terra em transição.