Rã que muge como um boi tem tamanho que surpreende e pode ameaçar outras espécies nativas do Brasil

O coaxar grave que lembra o mugido de um boi ajuda a explicar por que a rã-touro é uma espécie invasora que preocupa pesquisadores

Anfíbio que chegou ao Brasil há quase um século ganhou o nome por causa de um barulho incomum e hoje exige controle rigoroso para não ameaçar espécies nativas (Foto: Divulgação/PxHere)

Anfíbio que chegou ao Brasil há quase um século ganhou o nome por causa de um barulho incomum e hoje exige controle rigoroso para não ameaçar espécies nativas (Foto: Divulgação/PxHere)

Se alguém pedisse para imaginar o som de uma rã, a maioria das pessoas pensaria em um coaxar agudo vindo de um lago. Mas existe uma espécie que foge completamente desse padrão. Em vez do barulho tradicional, ela emite um chamado tão grave que muita gente compara ao mugido de um boi.

Continua após a publicidade

Esse detalhe curioso deu origem ao nome “rã-touro”, usado para identificar um dos maiores anfíbios do mundo. O som é produzido principalmente pelos machos durante a época de reprodução e pode ser ouvido a grandes distâncias graças às bolsas vocais, que funcionam como verdadeiros amplificadores naturais.

No Brasil, a espécie é criada comercialmente para a produção de carne, mas chama atenção muito antes de chegar ao prato. Quem visita um ranário pela primeira vez costuma se surpreender justamente com o coro de sons graves, bem diferente do coaxar associado às rãs mais comuns.

O que faz a rã-touro produzir um som tão alto?

O responsável pelo “vozeirão” é um conjunto de bolsas vocais localizado nas laterais da cabeça. Quando o macho infla essas estruturas, o ar vibra e produz um chamado forte e de baixa frequência, capaz de percorrer centenas de metros em ambientes abertos.

Continua após a publicidade

Na natureza, esse barulho tem uma função importante. Ele serve para atrair as fêmeas e avisar outros machos que aquele território já tem dono. Quanto mais intenso o coaxar, maiores costumam ser as chances de conquistar uma parceira.

Não por acaso, pesquisadores consideram esse um dos sons mais marcantes produzidos por anfíbios. Em inglês, a espécie também recebeu o nome de bullfrog, exatamente pela semelhança com o mugido de um touro ou de um boi.

Curiosidade que também exige cuidados

A rã-touro é originária dos Estados Unidos e chegou ao Brasil em 1935 para abastecer a produção de carne de rã. Adaptou-se bem ao clima brasileiro e hoje faz parte da ranicultura em diferentes regiões do país.

Continua após a publicidade

Essa facilidade de adaptação, porém, trouxe um desafio inesperado. Se escapar da criação, a espécie pode ocupar áreas naturais, competir com anfíbios brasileiros e até interferir na comunicação deles. Isso acontece porque muitas rãs dependem dos sons para encontrar parceiros durante a reprodução.

Por causa desse conjunto de características, toda criação precisa seguir regras rígidas de contenção.

Coaxar vai além do barulho

O coaxar grave pode parecer apenas uma característica curiosa, mas ele também ajuda a explicar por que a rã-touro exige tanto cuidado. Como os anfíbios dependem dos sons para encontrar parceiros, um chamado muito mais alto pode dificultar essa comunicação em áreas onde a espécie invade o ambiente.

Continua após a publicidade

O barulho, porém, é apenas parte da preocupação. Por crescer rápido, comer praticamente tudo o que consegue capturar e se reproduzir com facilidade, a rã-touro pode competir por alimento e espaço com espécies brasileiras, alterando o equilíbrio de lagoas, brejos e outros ambientes aquáticos.

Outro ponto de atenção é o risco sanitário. Pesquisadores alertam que a espécie pode carregar fungos e outros patógenos capazes de atingir anfíbios nativos. Por isso, criadouros licenciados seguem regras rigorosas para impedir qualquer fuga.