A aposentadoria costuma ser tratada como um período de descanso e liberdade. No entanto, para muitos homens, a transição traz um desconforto que nem sempre é percebido pela família.
Em casa, o comportamento muda de forma sutil. Ele passa mais tempo calado, responde que está tudo bem e evita aprofundar conversas.
À primeira vista, pode parecer apenas adaptação à nova rotina. Para a psicologia, porém, esse silêncio pode indicar uma ruptura na forma como ele construiu a própria identidade ao longo da vida.
Trabalho definia identidade
Durante grande parte da vida, muitos homens associaram valor pessoal à produtividade. Desde jovens, aprenderam que reconhecimento vinha de sustentar a família, cumprir metas e resolver problemas.
Pesquisas sobre papéis de gênero chamam isso de autoestima contingente à masculinidade. O conceito indica que a percepção de valor depende do desempenho e das expectativas sociais ligadas ao papel masculino.
Ao responder “sou engenheiro” ou “sou gerente”, havia uma identidade clara. Com a aposentadoria, essa referência deixa de existir de forma repentina.
Transição e seus efeitos
Um estudo da Universidade de Gotemburgo identificou três pilares na adaptação à aposentadoria: reconstrução da identidade, interação social e independência. Entre eles, a redefinição de quem se é mostrou maior peso.
Muitos participantes relataram sentir-se incompletos após sair do mercado de trabalho. O emprego não representava apenas salário. Ele organizava o dia e oferecia propósito.
Em 2024, uma pesquisa publicada na revista BMC Geriatrics indicou que o significado atribuído ao trabalho foi forte preditor de sintomas depressivos em homens aposentados.
Quanto maior o vínculo emocional com a carreira, maior o impacto da perda. Felizmente, há maneiras de combater ansiedade e depressão em idosos naturalmente.
Silêncio aprendido
Além da mudança interna, existe uma barreira cultural. Muitos homens cresceram ouvindo que demonstrar fragilidade era inadequado. Falar sobre tristeza podia ser visto como fraqueza.
Estudos sobre masculinidade mostram que redes de apoio masculinas costumam ser menores e conversas profundas sobre emoções nem sempre fazem parte da rotina.
Segundo o psiquiatra Igor Galynker, em entrevista ao portal norte-americano Geediting, os homens passam a vida focados em metas e deixam conexões sociais em segundo plano.
Ao se aposentarem, podem perder o trabalho e o sentido da vida ao mesmo tempo.
Dados acendem o alerta
O impacto não é apenas subjetivo. No Brasil, especialistas indicam que a taxa de suicídio entre homens idosos é significativamente maior do que entre mulheres da mesma faixa etária.
Pesquisadores como Yeates Conwell observam que depressão, doenças crônicas, isolamento e perda de autonomia frequentemente se somam nessa fase. A aposentadoria aparece como ponto de inflexão em muitos casos.
Uma meta-análise publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health estimou prevalência média de 28% de depressão entre aposentados. O risco cresce quando a saída do trabalho não foi planejada.
Como ajudar homens aposentados
Durante décadas, a questão mais comum dirigida a esses homens foi “O que você faz?”. Raramente a conversa avançava para além do cargo ou da função exercida.
Quando a carreira chega ao fim, abre-se um vazio que não se resolve apenas com tempo livre. É preciso redescobrir interesses, fortalecer relações e construir novas referências de propósito.
Por isso, especialistas defendem uma mudança na forma de abordar o tema. Em vez de focar na ocupação, vale perguntar o que faz sentido agora, o que desperta interesse ou quem ele deseja ser nesta etapa da vida.


