Tubarão que estava vivo durante a Revolução Francesa chama atenção por viver 400 anos

Espécie das águas profundas amadurece tarde, nada devagar e desafia os limites conhecidos da longevidade animal

Animal do Ártico passa séculos no fundo do mar, cresce lentamente e só se reproduz após mais de um século de vida

Animal do Ártico passa séculos no fundo do mar, cresce lentamente e só se reproduz após mais de um século de vida | Hemming1952/Wikimedia Commons

Poucos animais vivos hoje atravessaram tantos séculos quanto o tubarão-da-groenlândia.

Podendo viver até 400 anos, o animal teria atravessado até a época da Revolução Francesa (séc. 18) e, por isso, é considerado o vertebrado mais longevo do planeta. 

Além disso, pode levar mais de 100 anos para atingir a maturidade reprodutiva e está entre os tubarões mais lentos já registrados.

Forma e comportamento

Por habitar águas muito frias e profundas, essa espécie permanece menos observada do que a maioria das mais de 500 espécies de tubarões conhecidas.

O que se sabe até agora é que sua coloração varia entre cinza-escuro, marrom e preto, o que ajuda a camuflar o animal em regiões de baixa luminosidade.

Seu corpo cilíndrico, olhos pequenos, focinho arredondado e a ausência de nadadeira anal fazem o tubarão-da-groenlândia lembrar um submarino.

Ele pode atingir sete metros de comprimento e pesar cerca de 1,5 tonelada, valores próximos ao maior tubarão do planeta, que já foi avistado no litoral paulista.

Um predador lento

O tubarão-da-groenlândia também está entre as espécies mais lentas já registradas. O nome científico Somniosus microcephalus quer dizer “sonolento de cabeça pequena”.

A expressão faz referência direta ao modo como se desloca, com movimentos econômicos e pouca pressa.

Para poupar energia, ele nada a cerca de 34,14 centímetros por segundo. Ainda assim, consegue acelerar por curtos períodos para surpreender presas.

Como a idade é calculada

A idade de várias espécies de tubarões costuma ser estimada pela contagem dos anéis de crescimento nas vértebras.

No caso do tubarão-da-groenlândia, isso não funciona, já que suas vértebras são macias e não formam esses anéis visíveis.

Por isso, os cientistas recorrem às camadas do cristalino do olho, que se acumulam ao longo de toda a vida do animal. A datação por radiocarbono do tecido interno permite estimar há quanto tempo o tubarão existe.

Com esse método, concluiu-se que esses tubarões vivem pelo menos 272 anos e podem chegar a 392, com uma margem de erro de até 120 anos para mais ou para menos.

E o ritmo de vida é lento em tudo: eles demoram a se reproduzir, alcançando a maturidade apenas por volta dos 150 anos.

Vida em águas extremas

Embora o nome sugira um território restrito, essa espécie não vive apenas na Groenlândia. Há registros de sua presença até no oeste do Caribe.

Segundo a National Geographic, ele é o maior peixe do Oceano Ártico e também ocupa áreas do Atlântico Norte e do alto Ártico russo.

Ao contrário de outras espécies de tubarão, que costumam ser avistadas em praias, ele quase nunca é visto na superfície e pode viver a até 2,2 mil metros de profundidade, em temperaturas que variam de -2 °C a 7 °C.

Para lidar com esse ambiente, o organismo do tubarão-da-groenlândia contém altas concentrações de substâncias químicas que funcionam como anticongelante.

Esses compostos impedem a formação de cristais de gelo nos tecidos, ajudando o animal a sobreviver onde poucos vertebrados conseguem permanecer por tanto tempo.