Você conhece os hipopótamos selvagens da América do Sul deixados por Pablo Escobar?

Rebanho de quase duzentos animais é uma herança deixada pelo infame Cartel de Medellín, em especial de seu líder

Espécie invasora que pode pesar até três toneladas representa uma grande ameaça para o nicho ecológico das florestas sul-americanas

Espécie invasora que pode pesar até três toneladas representa uma grande ameaça para o nicho ecológico das florestas sul-americanas | Pexels

Os hipopótamos que Pablo Escobar levou para sua fazenda na Colômbia não ficaram presos ao passado. Décadas depois, os descendentes desses animais viraram uma população selvagem e colocaram um dilema ambiental na mesa.

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Sem predadores naturais e com alimento disponível, eles se multiplicaram e avançaram por rios e áreas úmidas. Hoje, autoridades e cientistas discutem como frear a expansão antes que o custo ecológico fique ainda maior.

O tema já chegou ao ponto mais sensível: a possibilidade de abate e castração. A lembrança de decisões antigas e de novas pressões judiciais ajuda a entender por que essa história volta e meia reaparece, mesmo longe dos holofotes.

De zoológico privado a espécie invasora

Na década de 1980, Escobar importou quatro hipopótamos para a Hacienda Nápoles, no interior da Colômbia. Após a morte do traficante, em 1993, o zoológico se desfez e os animais ficaram, na prática, sem controle efetivo.

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Com o tempo, parte do grupo saiu da fazenda e passou a usar lagos, várzeas e trechos de rios próximos. O núcleo mais conhecido se mantém na região do rio Magdalena, onde o clima e a paisagem favorecem a espécie.

Estimativas oficiais e levantamentos científicos variam, mas apontam um rebanho com mais de 160 indivíduos. A conta muda porque os animais se espalham, cruzam áreas alagadas e nem sempre ficam visíveis em censos tradicionais.

De forma oficial, parte do rebanho é considerada sob julgo do Hacienda Nápoles, parque temático construído na antiga mansão de Escobar. Porém, na prática, os espécimes conseguem transitar na natureza de forma livre.

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A área de circulação do rebanho inclui também uma rodovia, o que é uma ameaça tanto para os motoristas quanto para os animais. Em 2023 fopi registrado um óbito de hipópotamos por atropelamento na rodovia que liga Bogotá-MedellínA área de circulação do rebanho inclui também uma rodovia, o que é uma ameaça tanto para os motoristas quanto para os animais. Em 2023, foi registrado um óbito de hipopótamo por atropelamento na rodovia que liga Bogotá a Medellín (Foto: Pexels)

Por que eles crescem tão rápido

O hipopótamo amadurece cedo, se reproduz com frequência e vive muitos anos. Na Colômbia, o cenário ainda soma a ausência de grandes pressões naturais e uma paisagem com água e pasto em quantidade.

Um estudo publicado na revista Scientific Reports estimou crescimento anual próximo de 10% e projetou que, sem medidas fortes, o número pode passar de mil nas próximas décadas. O alerta central é o tempo curto para agir com eficiência.

Esse avanço não fica só no número. Modelos de distribuição usados por pesquisadores indicam grande área de habitat adequado no país, o que amplia o risco de dispersão por corredores fluviais e áreas úmidas, principalmente com mudanças climáticas.

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O que muda quando um hipopótamo entra no rio

Hipopótamos passam boa parte do dia dentro d’água e saem à noite para pastar. Esse vai e volta concentra fezes e urina em lagoas e trechos mais calmos, alterando nutrientes e a qualidade da água em períodos de estiagem.

Pesquisadores também alertam para efeitos em cadeia, como proliferação de algas e queda de oxigênio em ambientes fechados. Em rios tropicais, esse tipo de mudança pode afetar peixes, quelônios e mamíferos aquáticos que dependem de água estável.

Além disso, o animal é territorial e pesa toneladas. Em áreas com barcos pequenos e comunidades ribeirinhas, o risco de acidente e ataque também entra na conta, o que aumenta a pressão por medidas rápidas e claras.

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Por que a Amazônia entra na conversa

Os hipopótamos de Escobar não vivem na Amazônia. Mesmo assim, a palavra aparece porque a Amazônia simboliza um limite ambiental enorme, com rios sensíveis e uma fauna rica, e porque a dispersão por bacias vizinhas vira tema em cenários de risco.

Entre a bacia do Magdalena e a Amazônia existem barreiras naturais importantes, e não há evidência de migração até a Amazônia brasileira. O temor, porém, cresce quando se fala em dispersão gradual por áreas adequadas ou em deslocamentos humanos, legais ou ilegais.

Se a discussão parece distante, ela ajuda a visualizar o tamanho do problema. A Amazônia concentra segredos do rio Amazonas que dependem de equilíbrio fino entre cheias, secas e cadeias alimentares.

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O que estaria em jogo para a fauna amazônica

Num cenário hipotético de chegada a rios amazônicos, o impacto não seria só “mais um bicho grande”. Um hipopótamo muda margens, abre trilhas, revolve o fundo e concentra matéria orgânica, o que pode alterar a vida em áreas de água parada.

Em regiões onde já existe disputa por espaço e alimento, um megaherbívoro introduzido pode pressionar espécies nativas. Isso inclui peixes, tartarugas e mamíferos aquáticos, que dependem de vegetação ribeirinha e de água com bom nível de oxigênio.

Também entra o fator humano. Em rios com transporte cotidiano, pesca e turismo, a presença de um animal territorial adiciona risco direto. Em ambientes com pouca estrutura de manejo, a resposta costuma ser lenta, e o problema, cumulativo.

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Em termos práticos, especialistas apontam que um hipopótamo pode criar danos por três caminhos principais:

  • alterar a qualidade da água em lagoas e remansos
  • pressionar ninhos e áreas de reprodução de espécies aquáticas
  • competir por espaço em margens e áreas alagadas
  • aumentar conflitos com pessoas em rotas de barco

A Amazônia ainda abriga predadores e espécies grandes, mas isso não significa controle automático. O ecossistema tem suas próprias engrenagens e, quando algo novo entra, nem sempre há “encaixe” sem custo para a biodiversidade.

Controle: esterilização, transferência e abate

Depois do abate de um hipopótamo em 2009, que causou reação pública, o controle passou a buscar alternativas. Nos últimos anos, autoridades testaram métodos de esterilização e ampliaram o debate sobre remoção de animais do ambiente.

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O Ministério do Meio Ambiente da Colômbia informou que trabalha com um plano que combina esterilização, translocação e, como último recurso, eutanásia ética. A mesma estratégia prevê transferências para locais que se disponham a receber parte do grupo.

Em 2024, uma decisão judicial voltou a pressionar o governo por regras e metas mais duras. O recado foi direto: o Estado precisa apresentar medidas capazes de conter e reduzir a população, diante do impacto no equilíbrio ecológico local.

É nesse ponto que a história vira um cabo de guerra. De um lado, o risco ambiental e o custo crescente de não agir. Do outro, o peso simbólico desses animais, que viraram atração regional e, para parte do público, um caso “carismático”.

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Onde essa história está agora

Hoje, os hipopótamos seguem concentrados na Colômbia, com foco na região do Magdalena, e continuam no centro de um esforço caro e complexo. Capturar, anestesiar e transportar um animal desse porte exige equipe, segurança e logística rara.

A tendência, segundo cientistas, é que o controle dependa de várias medidas ao mesmo tempo. Isso inclui reduzir nascimentos, impedir deslocamentos e agir rápido quando surgirem novos grupos fora das áreas já mapeadas.

O caso de Escobar virou um lembrete incômodo de como decisões humanas deixam rastros na natureza por décadas. E, quando o animal se adapta, o debate deixa de ser sobre passado e passa a ser sobre o próximo rio que ele pode alcançar.

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Para a Amazônia, a lição é preventiva: em ambientes com biodiversidade enorme, o risco maior costuma começar pequeno. Às vezes, ele nasce de quatro animais e cresce, silenciosamente, até virar um problema que ninguém consegue ignorar.

Na floresta, a natureza já tem gigantes suficientes, e a ciência ainda descobre novos, como a nova espécie de sucuri. Introduzir mais um gigante, fora do lugar, tende a cobrar um preço alto.