Recentemente fui conhecer a exposição internacional “A Mente de um Serial Killer: Uma Experiência Imersiva”, da Fever, que acaba de chegar no shopping Eldorado em São Paulo.
A experiência te permite entrar em recriações de cena de crime, simular uma investigação com VR, observar evidências, conhecer detalhes de casos e mergulhar na história de alguns dos assassinos em série mais conhecidos do mundo.
O evento foi um sucesso por todos os lugares por onde passou, como Estados Unidos (em cidades como Nova York e Seattle) e Irlanda (em Dublin). Mas por que tantas pessoas querem saber mais sobre crimes reais?
True Crime é um sucesso mundial
Documentários, séries, livros, filmes, podcasts e vídeos sobre assassinatos, desaparecimentos e investigações policiais se multiplicaram nos últimos anos. O chamado true crime, gênero que transforma crimes reais em narrativas jornalísticas ou audiovisuais, deixou de ser um nicho e se consolidou como um dos fenômenos culturais mais populares da atualidade.
Nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pelo instituto YouGov em 2024 mostrou que 57% dos adultos consomem conteúdos de true crime. Entre as mulheres, o percentual chegou a 61%, contra 52% entre os homens.
Mercado também cresce no Brasil
No Brasil, embora não exista um levantamento nacional oficial capaz de apontar quantas pessoas são fãs do gênero, produções sobre crimes reais, podcasts especializados e conteúdos digitais também fazem sucesso aqui.
O país lidera o consumo do gênero em toda a América Latina. Essa forte demanda impulsionou os serviços de streaming a investir pesado em superproduções focadas na reconstituição e nos bastidores de crimes de grande repercussão. Plataformas como Netflix, Prime Video e Max perceberam que o público brasileiro não quer apenas consumir o formato tradicional de documentário jornalístico, mas busca imersões profundas na psicologia dos criminosos e no funcionamento do próprio sistema prisional e de justiça do país.
O maior exemplo dessa nova era de produções é a série de ficção dramática Tremembé, lançada pelo Amazon Prime Video. Inspirada nas obras de investigação jornalística do escritor Ullisses Campbell, a série se tornou a melhor estreia da história da plataforma no Brasil e quebrou recordes ao registrar um salto de mais de 50% em novas assinaturas na semana de lançamento.
Em vez de focar apenas no momento da execução das tragédias, a narrativa atrai o público ao retratar a convivência e as disputas de poder dentro da famosa Penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, apelidada de “o presídio dos famosos”. A obra reúne na tela as trajetórias de figuras amplamente conhecidas pela opinião pública, como Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga, Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni.
Esse estrondoso sucesso nas telas também gera um “efeito cascata” no comportamento de consumo dos usuários, que passam a maratonar produções antigas e paralelas para complementar as informações. O lançamento de Tremembé, por exemplo, fez com que o documentário original Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime voltasse instantaneamente para a lista dos dez programas mais assistidos da Netflix.
O fascínio dos brasileiros por essas tramas está intimamente ligado à superexposição desses casos na televisão aberta ao longo das últimas décadas. Ao transformar crimes reais em séries roteirizadas ou documentários com acesso a materiais inéditos, a indústria do streaming resgata a memória coletiva do país sob uma ótica mais madura e focada na complexidade psicológica dos envolvidos.
Mas o fascínio pela violência não significa, necessariamente, admiração pelos criminosos
A psicologia tem tentado entender justamente o que leva alguém a escolher, voluntariamente, passar horas ouvindo histórias sobre assassinatos, serial killers e alguns dos episódios mais perturbadores da história, e a resposta não é tão simples.
À primeira vista, parece contraditório procurar deliberadamente conteúdos que podem provocar medo, desconforto ou repulsa, mas a ciência tem algumas explicações para isso.
Um estudo publicado recentemente no British Journal of Psychology investigou a relação das pessoas com o true crime e identificou diferentes motivações por trás desse consumo. Entre elas estão a curiosidade mórbida, a busca por excitação e uma motivação chamada de vigilância defensiva.
A curiosidade mórbida está relacionada ao interesse humano por situações negativas, perigosas ou perturbadoras. Pesquisadores apontam que, apesar de desagradáveis, informações sobre ameaças também podem ser consideradas relevantes para a sobrevivência. Conhecer o perigo pode ser desconfortável, mas também pode parecer útil.
É por isso que muitas pessoas não assistem a um documentário sobre um crime apenas para descobrir “quem foi o assassino”, elas querem entender como aquilo aconteceu, quais sinais foram ignorados, como a investigação chegou a uma conclusão e, principalmente, se uma situação semelhante poderia acontecer com elas.
“E se acontecesse comigo?”
A busca por segurança pode ser uma das explicações mais importantes para o sucesso do gênero. Uma pesquisa publicada em 2026 encontrou uma relação entre o consumo de true crime e o medo da criminalidade.
Entre as motivações identificadas está justamente a chamada vigilância defensiva, associada à busca por informações que possam ajudar uma pessoa a reconhecer e evitar possíveis situações de perigo.
Essa lógica pode explicar, por exemplo, por que conteúdos sobre golpes, perseguições, desaparecimentos e crimes cometidos por pessoas próximas costumam despertar tanto interesse.
Ao acompanhar um caso, o público procura padrões
O que a vítima fez antes do crime? Havia sinais de alerta? Como o criminoso se aproximou? Que erros foram cometidos durante a investigação? Como as autoridades chegaram ao suspeito?
O problema é que existe uma diferença importante entre buscar informação para compreender riscos reais e acreditar que o consumo de true crime torna uma pessoa capaz de prever ou impedir qualquer violência.
Conhecer determinados comportamentos e estratégias criminosas pode ampliar a percepção sobre riscos, mas não transfere para a vítima a responsabilidade por evitar um crime.
Por que as mulheres aparecem entre as maiores consumidoras?
O levantamento do YouGov mostrou maior consumo entre mulheres nos Estados Unidos. Já o estudo publicado no British Journal of Psychology também encontrou uma diferença consistente entre homens e mulheres, com maior consumo de true crime pelo público feminino.
Uma das hipóteses discutidas pelos pesquisadores está relacionada justamente à vigilância defensiva. Mulheres podem recorrer a histórias de crimes como uma forma de tentar compreender ameaças e reduzir incertezas sobre situações perigosas. Casos envolvendo violência sexual, perseguição, violência doméstica e assassinatos cometidos por parceiros ou desconhecidos, por exemplo, podem provocar uma identificação maior com riscos percebidos no cotidiano.
Isso não significa que mulheres consumam true crime apenas por medo. A curiosidade, a estrutura narrativa, o interesse pela investigação e a busca por compreender o comportamento humano também fazem parte da equação. O fascínio pelo gênero, afinal, não possui uma única explicação.
Afinal, o que é true crime?
Traduzido literalmente como “crime verdadeiro”, o true crime é um gênero dedicado a narrar e investigar acontecimentos criminais reais. Os conteúdos podem abordar assassinatos, desaparecimentos, sequestros, golpes, crimes sexuais, erros judiciais e outros casos que mobilizaram investigações e a opinião pública.
O formato, no entanto, não é novo. Histórias sobre crimes reais circulam há séculos em livros, jornais e publicações populares. O que mudou foi a maneira como essas narrativas passaram a ser consumidas.
Com o avanço das plataformas de streaming e dos podcasts, o público ganhou acesso a documentários extensos, entrevistas com investigadores, arquivos judiciais e reconstruções detalhadas de crimes. O espectador deixou de apenas receber uma notícia e passou a acompanhar uma investigação quase como se estivesse participando dela.
É justamente esse universo que inspira “A Mente de um Serial Killer: Uma Experiência Imersiva”.
A exposição reúne histórias de assassinos em série e apresenta documentos, recriações, conteúdos audiovisuais e elementos interativos relacionados às investigações.
O percurso também inclui uma experiência de realidade virtual, que coloca o visitante no centro de uma investigação criminal. Segundo a organização, a atração possui mais de 20 espaços e aborda casos de mais de 17 assassinos em série.
Esse tipo de exposição transforma assassinos em celebridades?
Quanto mais popular um criminoso se torna, maior é o risco de que sua história passe a ser consumida como entretenimento e sua identidade seja transformada em um produto.
Serial killers podem ganhar filmes, séries, livros, documentários, fantasias, objetos colecionáveis e até admiradores. A violência, nesse contexto, corre o risco de ficar em segundo plano.
Durante a visita à exposição em São Paulo, a reportagem da Gazeta questionou a organização sobre o cuidado de abordar crimes reais sem transformar assassinos em celebridades ou figuras de admiração.
Em nota, a Fever afirmou que essa preocupação esteve presente desde o desenvolvimento da experiência. Segundo a empresa, a proposta não é glorificar os criminosos, mas compreender os contextos psicológicos, históricos e investigativos por trás dos casos e destacar seus impactos sociais.
A organização afirmou ainda que o conteúdo foi desenvolvido com base em investigações oficiais, registros policiais, documentos judiciais e outras fontes verificadas.
“A intenção é transformar o interesse pelo true crime em uma experiência de conhecimento, reflexão e conscientização, e não de admiração pelos perpetradores”, afirmou a Fever em nota à Gazeta.
A empresa também informou que a exposição busca dar destaque ao trabalho de investigação e à busca por justiça. Ao final do percurso, há um espaço dedicado à memória das vítimas.
Cenas de crime podem virar cenário para fotos?
Outro questionamento levantado pela experiência envolve a própria natureza das exposições imersivas. Alguns ambientes possuem cenários que permitem a interação do visitante. Durante a visita, observei pessoas registrando fotografias em espaços que reproduzem contextos relacionados aos crimes.
A situação levanta uma questão delicada: até que ponto é ético transformar uma recriação de um local associado à morte de uma pessoa real em cenário para uma fotografia?
Questionada sobre o assunto, a Fever afirmou à Gazeta que os ambientes são recriações cenográficas desenvolvidas para contextualizar os casos e aproximar os visitantes dos elementos e processos envolvidos nas investigações.
Segundo a empresa, a intenção não é celebrar os crimes ou transformar a violência em um elemento de entretenimento. Ao mesmo tempo, a organização reconheceu que a maneira como cada visitante interage com os espaços pode gerar diferentes percepções e questionamentos.
“É justamente por isso que buscamos tratar o conteúdo com responsabilidade ao longo de todo o percurso, contextualizando os casos e encerrando a experiência com um espaço dedicado à memória das vítimas e ao impacto humano desses crimes”, afirmou.
Como diminuir o protagonismo desses assassinos
O fascínio por crimes não é necessariamente um fenômeno novo, nem significa que quem consome esse tipo de conteúdo admire a violência. A pesquisa psicológica mais recente sobre o tema sugere justamente que diferentes motivações coexistem.
Há pessoas movidas pela curiosidade, outras pelo interesse em investigações, pela emoção de acompanhar um mistério ou pela tentativa de compreender riscos e se sentir mais preparadas diante do perigo.
Mas o interesse também exige responsabilidade. Quando crimes reais se transformam em séries, podcasts, livros e exposições, existe sempre o risco de que o assassino se torne o protagonista absoluto da história, enquanto as vítimas são reduzidas a nomes ou detalhes de uma narrativa.
Fiz um trabalho de contramão durante meu TCC, pensando em reduzir essa espetacularização. Eu, como cidadã suzanense, registrei o massacre que aconteceu em uma das escolas da minha cidade por meio da ótica dos sobreviventes, reconstruindo aquele dia pelo protagonismo deles, e não dos assassinos.
Além disso, pude mostrar o desenrolar de superação e força que essas pessoas conquistaram, o que também é positivo, já que, segundo especialistas, pessoas propícias a cometerem crimes violentos querem, além do protagonismo, saber que suas vítimas sofrem e que as temerão para sempre. No caso de Suzano, os sobreviventes seguem prosperando apesar das sequelas.
Caso você goste da temática, independente do motivo, faça esse exercício sempre que possível: busque um pouco mais sobre aquela vítima e “divida” o foco do propagador dos crimes.
Serviço
“A Mente de um Serial Killer: Uma Experiência Imersiva”
Local: Shopping Eldorado, em São Paulo
Endereço: Avenida Rebouças, 3970, Pinheiros
Duração e valores: aproximadamente 90 minutos; a partir de 50 reais
Classificação: a partir de 16 anos; menores de 18 anos devem estar acompanhados por um adulto
Horários: das 10h às 22h, exceto às segundas-feiras
Ingressos: disponíveis pela Fever, com preços e horários sujeitos à disponibilidade.






