Ouvir audio livros é uma boa leitura? Especialista responde

Ouvir um audiobook enquanto caminha, lava louça ou relaxa pode contar como leitura, e a indústria editorial defende que o valor está na história, não no formato

Audiobooks cresceram e viraram parte central do mercado, e educadores e editores dizem que ouvir também desenvolve compreensão e vocabulário, além de abrir porta para mais leitura.

Audiobooks cresceram e viraram parte central do mercado, e educadores e editores dizem que ouvir também desenvolve compreensão e vocabulário, além de abrir porta para mais leitura. | Banco de imagens

Ouvir um audiobook enquanto caminha, lava louça ou relaxa pode contar como leitura, e a indústria editorial defende que o valor está na história, não no formato.

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A pergunta voltou ao centro do debate depois que a rainha britânica Camilla, esposa de rei Charles, apareceu nos quadrinhos Beano, ao lado de Dennis the Menace e do cachorro Gnasher, em uma campanha de incentivo à leitura.

O destaque não ficou na participação em si, e sim no recado direto que ela deu ao personagem: “Histórias em quadrinhos e audiolivros também contam!”, ao incentivar o menino a se jogar na leitura.

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Audiobook virou rotina, e o mercado acompanhou

Nos últimos anos, os audiobooks cresceram em ritmo acelerado e passaram de alternativa para peça central no mercado editorial. No Reino Unido, a receita gerada para editoras subiu quase um terço em 2023-24.

Com isso, o áudio saiu do canto e virou prioridade. Hoje, muita gente escolhe um livro já pensando no impresso, no digital e no audiobook, tudo junto. Esse olhar em “formatos” ganhou força especialmente nos últimos cinco anos.

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Mesmo com esse avanço, a dúvida persiste. Ouvir um livro enquanto faz tarefas da casa, passeia com o cachorro ou pega no sono entrega o mesmo valor de sentar e ler página por página?

O que educadores e campanhas defendem

Para quem trabalha com incentivo à leitura e alfabetização, a resposta caminha cada vez mais para o sim. A discussão mudou de “qual formato é melhor” para “o que a pessoa faz com a história”.

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Debbie Hicks, diretora criativa da Reading Agency, resumiu a ideia com uma frase direta: “Ler tem a ver com o conteúdo, não com o meio”, ao falar sobre o papel do áudio em programas de leitura em escolas e comunidades.

Ela também disse que o áudio foi visto por muito tempo como um formato “menor”, mas que é hora de repensar o que significa ser leitor e abandonar hierarquias que colocam o impresso acima de tudo.

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Na prática, esse reposicionamento tem um objetivo claro: incluir mais gente. Em vez de excluir quem não lê em papel, a mensagem passa a ser “o que importa é o contato com a narrativa e com o texto”.

Para quem o audiobook faz diferença

O benefício mais óbvio aparece para pessoas com deficiência visual, dislexia ou falta de tempo. O áudio oferece acesso e reduz barreiras, especialmente quando a rotina não permite longos períodos de leitura silenciosa.

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Além disso, o audiobook pode servir como porta de entrada. Quem não se considera leitor, ou quem tem dificuldade de concentração, muitas vezes começa ouvindo e depois migra para outros formatos, no próprio ritmo.

Há também um dado curioso de hábito: mulheres ainda leem mais do que homens, mas mais homens do que mulheres escutam audiobooks semanalmente, segundo o recorte citado no texto.

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Compreensão e vocabulário entram na conversa

A discussão não ficou só no gosto pessoal. A Reading Agency afirma que a pesquisa da entidade aponta algo importante: no desenvolvimento de compreensão e aquisição de vocabulário, o áudio se mostra tão eficaz quanto o impresso.

Isso ajuda a explicar por que campanhas de leitura passaram a abraçar o formato. Se o objetivo é ampliar contato com histórias e linguagem, o caminho pode ser mais variado do que a regra antiga do “só vale no papel”.

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Para organizar o raciocínio, vale guardar três ideias simples, que aparecem com força quando o assunto é leitura no dia a dia.

  • O formato muda, mas a história continua sendo o centro
  • O áudio amplia acesso para quem tem barreiras no impresso
  • O hábito pode começar ouvindo e depois crescer para outras formas

Crianças e jovens, o áudio como empurrão

Jon Watt, presidente do Audio Publishers Group na Publishers Association, citou uma pesquisa da National Literacy Trust de 2024 sobre impacto entre crianças e jovens.

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Segundo o levantamento citado, 37,5% disseram que ouvir audiobooks incentivou mais leitura tradicional. Além disso, mais da metade, 52%, afirmou que o áudio ajudou quando se sentiam estressados.

Watt resumiu essa função com uma frase curta: “Ouvir é a porta de entrada para a leitura”. Para ele, o áudio desperta o amor por histórias, o que é decisivo para a criança querer ler, ouvir e se envolver com narrativas.

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Ele reforçou a ideia de que, na infância, o essencial é engajar com histórias. Assim, ouvir ou ler ajuda a construir letramento e interesse, em vez de criar uma disputa que afasta quem está começando.

Por que o áudio virou prioridade nas editoras

Watt também trabalha como diretor de áudio e desenvolvimento de negócios na Bonnier Books. Ele afirmou que, para o setor, o áudio é “absolutamente crítico agora”, com decisões de compra e aquisição já pensando no conjunto de formatos.

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Ele descreveu uma mudança grande: quando o leitor compra um livro, já considera o audiobook junto com impresso e digital. Isso alterou o planejamento editorial e o investimento em produção, elenco e distribuição.

Um sinal dessa virada aparece nas biografias e memórias. Hoje, celebridades narram suas próprias histórias com frequência, algo que, segundo Watt, era raro no passado, quando “você teria dificuldade para levar uma celebridade até um microfone”.

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Plataformas novas e produções estreladas

O texto também aponta a entrada de novos players. O Spotify lançou audiobooks em 2022, outras plataformas chegaram ao mercado, e o elenco de produções no Audible virou vitrine de como o formato ganhou status.

Uma adaptação em áudio de Pride and Prejudice, citada no texto, reúne nomes como Marisa Abela, Harris Dickinson, Glenn Close, Bill Nighy e Jessie Buckley, exemplo de produção com cara de evento.

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Quando o áudio vira o único caminho

Para alguns autores, o movimento pode ir além e deixar o impresso de lado. O crítico de cinema do Guardian, Peter Bradshaw, publicou três romances de forma tradicional, mas levou o mais recente, Mercy, direto para o áudio.

Ele descreveu a experiência de publicar em áudio apenas como “uma experiência incrivelmente libertadora e emocionante”. E lembrou que, cinco anos atrás, teria dito que a experiência física de leitura era a autêntica.

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Bradshaw contou um exemplo que mudou sua percepção. Um amigo disse que estava “lendo” Daniel Deronda, de George Eliot, e o que isso significava, na prática, era ouvir a narração do audiobook.

Ele relatou que, para o amigo, a atenção e o ganho foram os mesmos. A provocação final ficou no ar: “E quem sabe, este pode ser o caminho a seguir?”

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No fim, o que conta é o encontro com a história

O debate sobre audiobook costuma virar disputa de pureza, mas o recado que ganha força no mercado é outro. Se a pessoa acompanha a história, amplia repertório e cria vínculo com narrativas, ela está lendo, no sentido mais prático da palavra.

Com o crescimento do áudio, a conversa tende a ficar menos rígida e mais útil. Em vez de escolher um lado, o leitor escolhe o que cabe na rotina, sem perder o principal: o conteúdo.

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* Texto com informações do jornal The Guardian.