“Duas vaginas”: muitas mulheres descobrem condição rara apenas na adolescência ou na vida adulta; entenda

A condição, chamada oficialmente de útero didelfo, é uma anomalia congênita em que o aparelho reprodutor feminino se desenvolve de forma duplicada.

Foto: Instagram/@mayaxbraga

Influenciadora falou da condição em seu perfil/ Foto: Instagram/@mayaxbraga

Uma condição congênita rara voltou a despertar curiosidade após a influenciadora e criadora de conteúdo Maya Braga, de 20 anos, compartilhar que possui “duas vaginas”.

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A condição, chamada oficialmente de útero didelfo, é uma anomalia congênita em que o aparelho reprodutor feminino se desenvolve de forma duplicada. Durante a formação do feto, as estruturas chamadas ductos de Müller, que deveriam se fundir para formar um único útero e uma única vagina, não se unem completamente. 

Como resultado, a mulher nasce com dois úteros (que costumam ser menores do que o tamanho padrão) e dois colos uterinos.

Afinal, está certo dizer que a mulher tem “duas vaginas”?

Do ponto de vista anatômico e médico, o termo não é o mais preciso, mas é aceito do ponto de vista funcional e popular.

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A mulher não possui dois órgãos genitais externos completamente separados (como duas vulvas). O que acontece é a presença de um septo vaginal longitudinal, uma parede de tecido espesso que divide o canal vaginal de cima a baixo em duas cavidades distintas.

Como essa divisão cria duas entradas e dois canais independentes que levam, cada um, a um colo do útero diferente, o termo popular “duas vaginas” acabou se consagrando para facilitar a compreensão do público geral.

Como é feito o diagnóstico?

Embora a Ressonância Magnética (RM) de pelve seja o exame de referência (padrão-ouro) para detalhar os tecidos e confirmar a anatomia completa, ela não é o único meio de diagnóstico.

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O médico pode visualizar o septo e as duas entradas vaginais no próprio consultório com o uso do espéculo, através de um exame físico ginecológico. Também é possível identificar a condição por uma ultrassonografia pélvica e transvaginal (especialmente em 3D), que é frequentemente o primeiro exame de imagem a identificar a presença de duas cavidades uterinas.

Confirmada a suspeita, a uma ressonância magnética é solicitada para mapear com precisão a espessura do septo, a anatomia dos dois úteros e checar se há malformações renais associadas (que ocorrem em até 30% dos casos).

E por que acontece?

Essa malformação ocorre ainda durante o desenvolvimento do bebê, quando os ductos responsáveis pela formação do aparelho reprodutor feminino não se unem completamente.

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Embora muitas mulheres descubram essa condição apenas na adolescência ou na vida adulta, outras convivem durante anos sem qualquer sintoma e só recebem o diagnóstico durante exames ginecológicos de rotina, na investigação de dificuldade para engravidar ou até durante a gestação.

Segundo a ginecologista e obstetra Dra. Larissa Pires, especializada em fertilidade e Reprodução Assistida pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, apesar de chamar atenção por ser incomum, a condição não significa, por si só, que a mulher terá problemas de saúde.

“Quando falamos em duplicidade vaginal ou útero didelfo, estamos falando de uma alteração congênita, ou seja, que se forma ainda durante o desenvolvimento fetal. Cada mulher pode apresentar características diferentes, por isso é fundamental uma avaliação individualizada. Muitas vivem normalmente e só descobrem essa condição por acaso, durante um exame ginecológico ou de imagem.”

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Quem tem duas vaginas faz xixi pelas duas?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes, mas a resposta é não.

“A uretra, por onde a urina é eliminada, faz parte do sistema urinário e normalmente permanece única. Portanto, a mulher continua urinando por um único canal. A duplicidade vaginal envolve o aparelho reprodutor e não significa, necessariamente, alteração na forma como ocorre a micção.”

A vida sexual pode ser normal?

Na maioria dos casos, sim. Algumas mulheres podem sentir desconforto durante a relação sexual, especialmente quando existe um septo vaginal mais espesso, mas isso depende da anatomia de cada paciente.

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“Muitas mulheres têm uma vida sexual completamente satisfatória. Quando há dor ou dificuldade durante a relação, é importante procurar avaliação ginecológica para definir se existe necessidade de algum tratamento.”

É possível engravidar?

Sim. A presença de dois úteros ou de duplicidade vaginal não impede, necessariamente, a gravidez.

“Muitas mulheres com essa condição conseguem engravidar espontaneamente. Dependendo da anatomia e das características de cada caso, a gestação pode exigir um acompanhamento obstétrico mais cuidadoso, mas isso não significa que uma gravidez saudável não seja possível.”

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A médica explica que algumas pacientes podem apresentar maior risco de intercorrências obstétricas, como parto prematuro ou alterações na posição do bebê, motivo pelo qual o pré-natal individualizado é fundamental.

Quando é necessário tratamento?

Nem toda mulher precisa ser submetida a cirurgia. “O tratamento depende dos sintomas e da anatomia. Quando a paciente não apresenta dor, dificuldade nas relações sexuais ou outras complicações, muitas vezes apenas o acompanhamento ginecológico é suficiente. A indicação cirúrgica existe em situações específicas e deve ser cuidadosamente avaliada.”

Quando procurar um ginecologista?

Alterações menstruais importantes, dor durante a relação sexual, dificuldade para introduzir absorventes internos ou repetidas perdas gestacionais são situações que merecem investigação.

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“Mais importante do que a raridade da condição é lembrar que o acompanhamento ginecológico regular permite identificar alterações precocemente e orientar cada mulher de acordo com sua realidade. Informação de qualidade ajuda a reduzir o medo e evita que diagnósticos incomuns sejam cercados por mitos.”

Embora rara, a duplicidade vaginal mostra como cada organismo possui características únicas. O mais importante é que o diagnóstico seja acompanhado por um especialista, permitindo que a mulher compreenda sua anatomia, esclareça dúvidas e receba orientações individualizadas para sua saúde e seu planejamento reprodutivo.