Uma condição congênita rara voltou a despertar curiosidade após a influenciadora e criadora de conteúdo Maya Braga, de 20 anos, compartilhar que possui “duas vaginas”.
A condição, chamada oficialmente de útero didelfo, é uma anomalia congênita em que o aparelho reprodutor feminino se desenvolve de forma duplicada. Durante a formação do feto, as estruturas chamadas ductos de Müller, que deveriam se fundir para formar um único útero e uma única vagina, não se unem completamente.
Como resultado, a mulher nasce com dois úteros (que costumam ser menores do que o tamanho padrão) e dois colos uterinos.
Afinal, está certo dizer que a mulher tem “duas vaginas”?
Do ponto de vista anatômico e médico, o termo não é o mais preciso, mas é aceito do ponto de vista funcional e popular.
A mulher não possui dois órgãos genitais externos completamente separados (como duas vulvas). O que acontece é a presença de um septo vaginal longitudinal, uma parede de tecido espesso que divide o canal vaginal de cima a baixo em duas cavidades distintas.
Como essa divisão cria duas entradas e dois canais independentes que levam, cada um, a um colo do útero diferente, o termo popular “duas vaginas” acabou se consagrando para facilitar a compreensão do público geral.
Como é feito o diagnóstico?
Embora a Ressonância Magnética (RM) de pelve seja o exame de referência (padrão-ouro) para detalhar os tecidos e confirmar a anatomia completa, ela não é o único meio de diagnóstico.
O médico pode visualizar o septo e as duas entradas vaginais no próprio consultório com o uso do espéculo, através de um exame físico ginecológico. Também é possível identificar a condição por uma ultrassonografia pélvica e transvaginal (especialmente em 3D), que é frequentemente o primeiro exame de imagem a identificar a presença de duas cavidades uterinas.
Confirmada a suspeita, a uma ressonância magnética é solicitada para mapear com precisão a espessura do septo, a anatomia dos dois úteros e checar se há malformações renais associadas (que ocorrem em até 30% dos casos).
E por que acontece?
Essa malformação ocorre ainda durante o desenvolvimento do bebê, quando os ductos responsáveis pela formação do aparelho reprodutor feminino não se unem completamente.
Embora muitas mulheres descubram essa condição apenas na adolescência ou na vida adulta, outras convivem durante anos sem qualquer sintoma e só recebem o diagnóstico durante exames ginecológicos de rotina, na investigação de dificuldade para engravidar ou até durante a gestação.
Segundo a ginecologista e obstetra Dra. Larissa Pires, especializada em fertilidade e Reprodução Assistida pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, apesar de chamar atenção por ser incomum, a condição não significa, por si só, que a mulher terá problemas de saúde.
“Quando falamos em duplicidade vaginal ou útero didelfo, estamos falando de uma alteração congênita, ou seja, que se forma ainda durante o desenvolvimento fetal. Cada mulher pode apresentar características diferentes, por isso é fundamental uma avaliação individualizada. Muitas vivem normalmente e só descobrem essa condição por acaso, durante um exame ginecológico ou de imagem.”
Quem tem duas vaginas faz xixi pelas duas?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes, mas a resposta é não.
“A uretra, por onde a urina é eliminada, faz parte do sistema urinário e normalmente permanece única. Portanto, a mulher continua urinando por um único canal. A duplicidade vaginal envolve o aparelho reprodutor e não significa, necessariamente, alteração na forma como ocorre a micção.”
A vida sexual pode ser normal?
Na maioria dos casos, sim. Algumas mulheres podem sentir desconforto durante a relação sexual, especialmente quando existe um septo vaginal mais espesso, mas isso depende da anatomia de cada paciente.
“Muitas mulheres têm uma vida sexual completamente satisfatória. Quando há dor ou dificuldade durante a relação, é importante procurar avaliação ginecológica para definir se existe necessidade de algum tratamento.”
É possível engravidar?
Sim. A presença de dois úteros ou de duplicidade vaginal não impede, necessariamente, a gravidez.
“Muitas mulheres com essa condição conseguem engravidar espontaneamente. Dependendo da anatomia e das características de cada caso, a gestação pode exigir um acompanhamento obstétrico mais cuidadoso, mas isso não significa que uma gravidez saudável não seja possível.”
A médica explica que algumas pacientes podem apresentar maior risco de intercorrências obstétricas, como parto prematuro ou alterações na posição do bebê, motivo pelo qual o pré-natal individualizado é fundamental.
Quando é necessário tratamento?
Nem toda mulher precisa ser submetida a cirurgia. “O tratamento depende dos sintomas e da anatomia. Quando a paciente não apresenta dor, dificuldade nas relações sexuais ou outras complicações, muitas vezes apenas o acompanhamento ginecológico é suficiente. A indicação cirúrgica existe em situações específicas e deve ser cuidadosamente avaliada.”
Quando procurar um ginecologista?
Alterações menstruais importantes, dor durante a relação sexual, dificuldade para introduzir absorventes internos ou repetidas perdas gestacionais são situações que merecem investigação.
“Mais importante do que a raridade da condição é lembrar que o acompanhamento ginecológico regular permite identificar alterações precocemente e orientar cada mulher de acordo com sua realidade. Informação de qualidade ajuda a reduzir o medo e evita que diagnósticos incomuns sejam cercados por mitos.”
Embora rara, a duplicidade vaginal mostra como cada organismo possui características únicas. O mais importante é que o diagnóstico seja acompanhado por um especialista, permitindo que a mulher compreenda sua anatomia, esclareça dúvidas e receba orientações individualizadas para sua saúde e seu planejamento reprodutivo.
