Autora imortal pela Academia Brasileira de Letras, Conceição Evaristo recebeu, em homenagem ao seu aniversário de 80 anos, completados em novembro próximo, um painel para falar sobre a importância e impacto de suas obras na Bienal do Livro de São Paulo.
No primeiro dia de evento, a escritora foi a principal estrela dos palcos, trazendo a expressão criada durante o doutorado realizado na PUC, o conceito de “escrevivência”, e a transcendência ao longo dos anos por meio da escrita.

Conceição Evaristo: 80 anos de escrevivência
Ao lado da mediadora, a também escritora Eliana Alves Cruz, a autora relembrou a trajetória percorrida até se tornar uma referência no cenário literário brasileiro e falou também sobre ancestralidade.
Conceição reforça que nunca se imaginou neste lugar, recebendo títulos, e afirma estar tentando pavimentar o espaço para que outras mulheres negras possam ocupar o mesmo lugar.
Antes de qualquer prêmio, quem te dá esse status é quem te lê.
Além disso, a escritora fala sobre o local que passou a ocupar socialmente. Conta que pensava em Carolina Maria de Jesus e outras tantas autoras que tiveram a mesma ascensão, mas não foram reconhecidas e requisitadas como ela, e afirma:
O que me trouxe aqui foram as mais velhas, foram, inclusive, muitas mulheres que não sabiam grafar o nome, mas que tinham uma sabedoria.
Com isso, Conceição agradeceu àqueles que leem seus livros, que estudam sua história e elevam o conhecimento do país a partir da perspectiva negra. Conta que a própria biografia é algo a ser, de fato, estudado, sem modéstia.
Como uma mulher que saiu da cidade natal em busca de estudo e crescimento social, hoje pode ser reconhecida em mais de três universidades como Doutora Honoris Causa. O título é concedido a figuras com impacto eminente e que tenham sido reconhecidas por contribuições extraordinárias à sociedade, à ciência, às artes, à cultura, à filosofia ou aos direitos humanos.
Quem te condecora é o público que te lê. Sou muito grata a quem me lê, a quem estuda esse texto em teses, TCCs, mestrados e doutorados.
Comemorações e novos projetos
Após contar que será tema de peça em comemoração aos 80 anos, Conceição Evaristo agradeceu pelo reconhecimento do aniversário e pelos espaços que ocupa.
A escritora falou também sobre a candidatura à Academia Brasileira de Letras em 2018, quando teve apenas um voto na eleição para ocupar a cadeira que fora do cineasta Nelson Pereira do Santos. O também diretor de cinema Cacá Diegues foi eleito com 22 votos.
Para Conceição, o incômodo gerado pela sua candiatura causou uma mudança no perfil dos eleitos. Em 2023, por exemplo, o escritor e ativista ambiental Ailton Krenak venceu a disputa para a cadeira que pertenceu a José Murilo de Carvalho, tornando-se o priemeiro indígena eleito para a ABL. Em 2025, foi a vez de Ana Maria Gonçalves, autora do aclamado “Um defeito de cor”, ser a primeira mulher negra a virar imortal.
A autora revelou que tem outras obras já sendo preparadas, em diferentes gêneros, para instigar o público e garantir que os 80 anos são só o começo.
Eu tenho ainda esse desejo de escrever; tenho contos e romances produzidos. Mas, talvez, em termos de contribuição para pensar na literatura brasileira, eu gostaria muito de me aprofundar em uma obra literária por uma perspectiva negra.
