Essa fruta digere vespas, mas não é considerada como planta carnívora

Entenda a relação simbiótica e fatal entre figueiras e vespas, em uma dança de sobrevivência da natureza

O curioso caso da planta que não é fruta e nem planta carnívora

O curioso caso da planta que não é fruta e nem planta carnívora | Pexels

Que tomate e pepino são frutas, muita gente já sabe. Agora, o figo guarda uma curiosidade ainda maior: ele pode digerir vespas e, mesmo assim, não é considerado uma planta carnívora.

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O motivo está na forma como a figueira se reproduz. Segundo Paulo Minatel Gonella, professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em entrevista ao G1, a digestão do inseto faz parte de um mecanismo de defesa, não de alimentação.

Nas plantas carnívoras, a “caça” acontece para compensar a falta de nutrientes no ambiente. No figo, a história é outra: a relação com a vespa-do-figo é um ciclo de reprodução em que a planta e o inseto dependem um do outro.

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Vidas entrelaçadas

O figo não é uma fruta no sentido comum. Ele é uma flor “invertida”, com centenas de pequenas flores voltadas para dentro, protegidas por uma estrutura fechada, o que muda totalmente a forma de polinização.

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Como o pólen fica preso lá dentro, a figueira precisa de um polinizador capaz de entrar nessa “câmara”. É aí que entra a vespa-do-figo, um inseto adaptado para atravessar a pequena abertura do figo.

O figo tem uma pequena abertura por onde as vespas fêmeas, já carregadas de ovos, conseguem passar. Lá dentro, elas cumprem duas missões: se alimentam do pólen e depositam seus próprios ovos.

A planta como incubadora

A visitante deixa os ovos nas pequenas flores femininas e, ao mesmo tempo, acaba as fertilizando. Isso acontece porque, ao entrar no figo, ela esbarra no pólen masculino e o espalha ali dentro.

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Infelizmente para a vespa-mãe, o fim de sua missão também é o fim de seus dias. Pois, apesar de depender das vespas para se reproduzir, os figos têm mecanismos de defesa na forma de enzimas que matam insetos invasores, mesmo as vespas polinizadoras.

Apesar de sua morte, seus filhotes eclodem sem problemas dentro de algum tempo, primeiramente os machos. Ainda pequenos, sem antenas e nem asas, eles estão adentrando em sua própria missão suicida.

Os pequeninos, assim como a mãe, têm uma missão: fecundar as fêmeas que ainda não eclodiram, garantir a próxima geração da espécie e, por fim, começar a cavar os túneis para fora do figo.

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Assim como sua mãe, esses pequenos machos serão ceifados pelos mecanismos de defesa, mas com a missão cumprida, seus túneis servirão como rota de fuga para as fêmeas que carregam o material genético deles, garantindo assim o futuro da espécie.

Enquanto isso, o figo estará polinizado, suas sementes se desenvolverão com o tempo e estarão aptas a serem espalhadas por animais que comerão o vegetal, como os pássaros e macacos.

Figos comerciais

Depois de conhecer esse ciclo, muita gente se pergunta se pode comprar um figo com vespa dentro. Na prática, isso é improvável no consumo comum, porque a produção comercial costuma ser controlada para evitar contato com insetos.

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Além disso, o figo vendido no dia a dia vem geralmente de cultivo por estaquia, técnica de clonagem em que partes da planta adulta são fixadas no solo para criar novas mudas, mantendo as características do figueiral.

Outra medida comum é o ensacamento no pé, que reduz o contato com animais e insetos. Esse cuidado também aparece em orientações sobre convívio com vespas, como no alerta sobre por que nunca colocar fogo em um ninho de vespas, já que ações arriscadas podem piorar a situação.

Em regiões produtoras, como na cidade do interior de SP famosa pelas plantações de figo roxo, esse tipo de cultura chama atenção pelo sabor e pela tradição, mesmo com um ciclo natural pouco conhecido do público.

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No fim, o figo não é uma planta carnívora disfarçada. Ele apenas usa um mecanismo de defesa dentro de uma relação biológica antiga, que parece macabra, mas sustenta a reprodução de figueiras e vespas na natureza.