O governo federal confirmou para 10 de abril a publicação do edital de pavimentação do “trecho do meio” da BR-319, entre os quilômetros 250 e 590. Com investimento de R$678 milhões, a obra pretende asfaltar 339 km da rodovia que é a única ligação terrestre entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO).
A abertura das propostas ocorrerá em 30 de abril, com um prazo de execução de três anos. Além da pista, o DNIT prevê a construção de uma ponte sobre o Rio Igapó-Açu. O objetivo é garantir trafegabilidade em uma via que, há décadas, sofre com atoleiros e isola a capital amazonense do restante do país.
O trauma logístico na pandemia de COVID-19
A precariedade da BR-319 tornou-se um drama nacional em janeiro de 2021, durante o colapso de oxigênio em Manaus na pandemia de COVID-19. Um estudo publicado no Journal of Racial and Ethnic Health Disparities aponta que comboios com oxigênio levaram 96 horas para concluir o trajeto, o triplo do tempo esperado, devido à lama.
A escolha da rodovia como rota emergencial foi criticada por especialistas como a “pior escolha logística possível” naquelas condições. Outro estudo, da revista Nature Medicine, já alertava na época que a falta de infraestrutura e planejamento tornaria o transporte de insumos vitais por terra extremamente arriscado durante o período chuvoso.
O impasse entre desenvolvimento e preservação
Embora estratégica para baratear o frete de produtos, a obra enfrenta forte resistência ambiental. O traçado da rodovia corta áreas de floresta densa, unidades de conservação e terras indígenas, o que exige salvaguardas sociais e ambientais para proteger comunidades tradicionais e a biodiversidade.
O principal receio é o aumento do desmatamento ilegal, já que o asfalto facilita o acesso de grileiros e madeireiros a áreas preservadas da Amazônia profunda. O governo afirma que o edital segue normas de sustentabilidade, incluindo passagens de fauna e monitoramento por satélite para evitar que a estrada vire um corredor de destruição.
Contexto histórico e próximos passos
Inaugurada em 1976, a BR-319 foi abandonada ao longo das décadas, permitindo que a floresta retomasse parte da pista original. O novo investimento ocorre em um momento em que a Zona Franca de Manaus reafirma seu papel como pilar do desenvolvimento regional, demandando saídas logísticas mais eficientes para o país.
O sucesso do projeto depende agora do equilíbrio entre a integração econômica e a proteção efetiva da floresta. A recuperação da via promete maior previsibilidade no escoamento de produtos de alto valor agregado, como o setor de motocicletas produzidas no polo industrial, reduzindo a dependência histórica de balsas e voos de carga que encarecem o frete nacional.




