Dormir no trabalho, prática que em muitos países seria vista como desleixo, no Japão pode ser interpretada como sinal de dedicação extrema. O hábito reflete uma cultura corporativa marcada por longas jornadas e alto comprometimento profissional.
No Brasil, de acordo com o artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), dormir durante o expediente pode, em determinadas situações, ser enquadrado como motivo para demissão por justa causa.
A prática é vista como quebra das normas de conduta no ambiente profissional, sendo geralmente associada à falta de comprometimento e incompetência com as funções exercidas.
O conceito de Inemuri
A prática do inemuri (dormir estando presente), é bastante comum no Japão, consiste em cochilos breves durante o expediente e carrega um significado bem diferente do que em outras culturas.
O hábito japonês costuma ser associado a esforço excessivo e dedicação ao trabalho, já que indica que o profissional está tão envolvido em suas funções que chega ao limite do cansaço. Em muitos ambientes corporativos japoneses, dormir por alguns minutos na mesa não gera repreensão.
Espera-se que o funcionário mantenha uma postura que indique que estava trabalhando até o momento em que o cansaço o venceu, como permanecer sentado à mesa ou com documentos à frente, evitando posições que sugiram relaxamento.
A hierarquia também influencia a aceitação da prática: é socialmente mais comum que subordinados durmam diante de superiores, como sinal de esforço excessivo, ou que chefes cochilem na presença da equipe, exercendo um privilégio associado ao cargo.
Problema estrutural japonês
Apesar de parecer um benefício curioso, especialistas apontam que o inemuri é o reflexo de um problema estrutural ligado à privação crônica de sono. O país está entre os países onde as pessoas menos dormem.
Esse cenário é agravado pela forte pressão social por jornadas prolongadas, que valoriza o excesso de dedicação e reduz o tempo de descanso dos trabalhadores.
Essa realidade extrema deu origem ao termo “karoshi”, expressão usada no Japão para definir mortes causadas pelo excesso de trabalho, um fenômeno que evidencia os impactos graves desse modelo laboral na saúde física e mental da população.
No entanto, algumas empresas de tecnologia em Tóquio estão tentando mudar essa cultura, substituindo o cochilo improvisado na mesa por “salas de sono” equipadas e horários de descanso regulamentados, focando na saúde mental em vez de apenas na aparência de esforço.


