Um tradicional no Vale do Rhône, na França, a uva Syrah encontrou um novo território de destaque.
Em Espírito Santo do Pinhal, no Vale da Mantiqueira, região localizada no encontro dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a variedade vem se consolidando como base para vinhos de qualidade e para a expansão do enoturismo.
A adaptação da Syrah ao clima da Mantiqueira foi viabilizada pela técnica da dupla poda, prática comum na viticultura tropical brasileira.
Também situada no interior de São Paulo, a pequena cidade de Caconde é um destino lotado de opções para quem ama natureza e aventura. Município esconde atrações imperdíveis em meio à natureza e carrega uma história local rica e com destaque para pizzas e vinhos.
Colheita de inverno
O método permite que a colheita ocorra no inverno, período mais seco e com temperaturas mais amenas, dando origem aos chamados vinhos de inverno, em contraste com o modelo tradicional de colheita no verão.
Especialistas apontam que a região apresenta características singulares em escala mundial, já que poucos territórios produzem vinho de inverno em clima tropical.
A expectativa é que, com o amadurecimento do setor, o Vale da Mantiqueira desenvolva uma identidade própria, mesmo com a predominância da uva Syrah, que hoje domina os vinhedos locais.
Produção regional
A produção regional é articulada por duas entidades. A Avvine, Associação dos Viticultores da Serra dos Encontros, reúne 27 produtores de quatro municípios.
Já a Anprovin, Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno, congrega vinícolas de São Paulo e Minas Gerais. Dados da Anprovin indicam que o Brasil ultrapassou, em 2024, a marca de 30 milhões de litros de vinhos finos produzidos, com crescimento médio anual de 15% no segmento de vinhos de inverno.
O avanço da vitivinicultura na região teve início com projetos pioneiros, como a Vinícola Guaspari, criada a partir de uma antiga fazenda de café.
A afinidade climática entre o café e a uva motivou testes com diferentes variedades, conduzidos em parceria com a Epamig, empresa de pesquisa agropecuária de Minas Gerais. As uvas Syrah e Sauvignon Blanc foram as que apresentaram melhor adaptação.
O primeiro plantio ocorreu em 2006, com a colheita inaugural em 2010 e a estreia comercial em 2014, com uma produção inicial de 10 mil garrafas.
Atualmente, a Guaspari cultiva cerca de 50 hectares de vinhedos e deve encerrar o ano com produção estimada em 150 mil garrafas. A vinícola recebe, em média, mais de mil visitantes por fim de semana, consolidando-se como um dos principais destinos de enoturismo da Mantiqueira.
Atualmente, aproximadamente 70% das vendas da Guaspari são feitas diretamente ao consumidor final, por meio da loja física, do comércio eletrônico e do clube de assinaturas.
O restante é destinado a restaurantes, hotéis e lojas especializadas. Os preços das garrafas variam entre R$ 158 e R$ 800, com destaque para os rótulos de Syrah, além de Sauvignon Blanc e os primeiros testes com Pinot Noir.
A técnica da dupla poda eleva os custos de produção, já que são realizadas duas safras ao ano, mas apenas uma é aproveitada. Esse processo pode aumentar o custo operacional em pelo menos 40%, fator que contribui para o maior valor agregado dos vinhos de inverno.
Outro projeto relevante na região é a Vinícola Amana, que cultiva 12 hectares de vinhedos e já contabiliza cinco safras. Em 2025, a produção alcançou cerca de 60 toneladas de uvas, o equivalente a até 55 mil garrafas, majoritariamente de Syrah, além de Chenin Blanc. Os rótulos são comercializados na faixa de R$ 160 a R$ 400.
A Amana projeta ampliar a produção para mais de 100 mil garrafas em até dez anos. A empresa é formada por 49 sócios, em sua maioria executivos ligados ao mercado corporativo de São Paulo, que apostam na vitivinicultura tanto como diversificação de investimentos quanto como projeto de longo prazo.
Crescimento do enoturismo
O crescimento da vitivinicultura impulsionou o enoturismo e fortaleceu a economia local. Espírito Santo do Pinhal integra o programa estadual Rotas do Vinho, que reúne 66 vinícolas em cinco regiões paulistas reconhecidas como destinos enoturísticos.
Levantamento da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo aponta que 82% das vinícolas participantes registraram aumento no número de visitantes, com crescimento médio de 27% no fluxo turístico.
Somente em Espírito Santo do Pinhal, os investimentos privados no setor somam cerca de R$ 2 bilhões nos últimos quatro anos. O município mapeou 28 projetos ligados à vitivinicultura e ao enoturismo, sendo nove abertos à visitação. Considerando um raio de 100 quilômetros, o número de empreendimentos chega a 81.
Com mais de 80 projetos em diferentes estágios de desenvolvimento, a região da Mantiqueira se consolida como um novo polo da vitivinicultura brasileira, combinando produção de vinhos de alto padrão, turismo de experiência e geração de emprego e renda.
