O recente episódio envolvendo o senador Alexandre Giordano (Podemos-SP), interceptado em São Paulo ao volante de um veículo de luxo desprovido de placas e equipado com sinalização luminosa (giroflex) irregular, não deve ser lido como um fato isolado. Trata-se do capítulo mais atual de uma persistente cultura de “carteiraços” que teima em sobreviver nos Poderes.
Ao dirigir com a CNH vencida e ser acusado de intimidar policiais militares em serviço, Giordano ingressa em uma incômoda galeria de autoridades que confundem prerrogativas constitucionais com um salvo-conduto para ignorar o Código de Trânsito Brasileiro.
O efeito ‘pedágio’ da autoridade
O caso possui ecos recentes que evidenciam um padrão de conduta no estado. A lista de precedentes inclui o deputado estadual Paulo Mansur (PL-SP), cujas abordagens policiais já renderam polêmicas de teor semelhante, e o ex -prefeito de Pedreira, Lê Braga (PSD) — este último levado ao flagrante durante o Carnaval ao utilizar veículo oficial para fins estritamente particulares.
O fio condutor desses episódios é a erosão da barreira entre o cargo público e a vida privada, onde a estrutura estatal é tratada como extensão da garagem pessoal.
A zona cinzenta das frotas locadas
Um detalhe técnico que os bastidores de Brasília rotineiramente omitem é a regulamentação das frotas de gabinete. Tanto o Senado quanto a Câmara dos Deputados mantêm contratos vultosos de locação de veículos de luxo — majoritariamente modelos Toyota Corolla. Embora o uso de placas de representação seja previsto em lei para autoridades, essa condição não autoriza, sob hipótese alguma, a instalação de giroflex.
A legislação é taxativa: sinais luminosos e sonoros são restritos a veículos de emergência ou escolta oficial, como os da Polícia Legislativa ou do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e estritamente quando em missão de proteção. O uso desses dispositivos em carros de passeio, ainda que oficiais, configura infração gravíssima e, no contexto político, um simulacro de poder executivo que o Legislativo não detém.
Decoro e o custo político do abuso
No caso de Giordano, o agravante não reside apenas na irregularidade administrativa, mas no embate direto com a Polícia Militar. A tentativa de intimidação contra agentes no exercício da função é o combustível que pode levar o caso ao Conselho de Ética do Senado.
Enquanto o veículo de luxo permanece retido, a pressão interna aumenta sob o argumento de quebra de decoro parlamentar. Para o tabuleiro político de 2026, o histórico que une Giordano, Mansur e Lê Braga reforça uma urgência: a de regulamentar com rigor espartano o uso da máquina pública.
O episódio deixa claro que, sem uma separação nítida entre o exercício da função e o capricho pessoal, a estrutura do Estado continuará sendo usada como escudo para o abuso de poder.
