‘Cidadãs cientistas’: mãe e filha descobrem maior colônia de corais do planeta

Descoberta feita por voluntárias ajuda a explicar como algumas áreas do oceano conseguem preservar corais por décadas

Entenda por que o tamanho e a localização do coral chamaram a atenção de especialistas e o que isso revela sobre a saúde dos oceanos

Entenda por que o tamanho e a localização do coral chamaram a atenção de especialistas e o que isso revela sobre a saúde dos oceanos | Divulgação/Citizens of the Reef

O que começou como uma atividade comum de monitoramento marinho terminou com um registro inédito. 

Durante uma expedição na Grande Barreira de Corais, na costa da Austrália, uma equipe encontrou a maior colônia de coral já documentada no planeta.

A estrutura tem cerca de 111 metros de comprimento, dimensão semelhante à de um campo de futebol, e ocupa aproximadamente 3.973 metros quadrados. 

As informações foram divulgadas em comunicado da organização de conservação Citizens of the Reef em 24 de fevereiro deste ano. Segundo o grupo, trata-se de uma das formações mais importantes já registradas na região.

Registro inédito foi feito por ‘cientistas cidadãos’

A descoberta foi feita por Sophie Kalkowski-Pope, coordenadora de operações marinhas da Citizens of the Reef, e por sua mãe, Jan Pope, mergulhadora experiente e fotógrafa subaquática. 

No final do ano passado, as duas participavam de um levantamento da área quando perceberam uma formação incomum no fundo do mar.

Elas fazem parte de um grupo conhecido como cientistas cidadãos. Conforme a Citizens of the Reef, o termo descreve pessoas que contribuem com pesquisas mesmo sem trabalhar formalmente como cientistas. 

Isso pode incluir fotografar animais, registrar mudanças no ambiente ou coletar e analisar dados para projetos de monitoramento.

Momento de emoção

Maior colônia de coral já documentada no planeta, na Grande Barreira de Corais, na costa da Austrália (Foto: Richard Fitzpatrick/Citizens of the Reef)

Jan Pope havia mergulhado no mesmo ponto alguns dias antes e desconfiou que havia encontrado algo fora do padrão. 

Por isso, a dupla decidiu retornar com equipamentos adequados para medir e documentar a estrutura.

“Quando entramos na água, imediatamente reconheci a importância do que estávamos vendo”, relatou Kalkowski-Pope em comunicado. 

Durante o mergulho, elas registraram imagens da formação, que se assemelha à letra J. “Levei três minutos de vídeo só para nadar de um lado para o outro”, contou Kalkowski-Pope.

Tecnologia usada na análise da estrutura

A colônia pertence à espécie Pavona clavus. Para verificar as dimensões, foram feitas medições manuais subaquáticas e captadas imagens de alta resolução a partir da superfície.

Os dados coletados serviram para criar um modelo 3D da estrutura, de acordo com a organização Citizens of the Reef. 

Esse recurso permite observar mudanças ao longo dos anos e acompanhar possíveis impactos ambientais.

Ambiente pode ter ajudado o coral a crescer

Os pesquisadores identificaram características específicas no local onde a colônia foi encontrada.

A área apresenta correntes de maré intensas e menor exposição a ciclones tropicais em comparação com outras partes do recife.

Agora, cientistas investigam se essas condições ajudaram a preservar a estrutura por tanto tempo. Entender esse processo pode orientar estratégias de proteção em regiões vulneráveis.

Cenário é preocupante para os recifes no mundo

Branqueamento de corais, na Grande Barreira de Corais, na Austrália (Foto: Oregon State University/Wikimedia Commons)

A descoberta ocorre em um período de alerta para os oceanos. 

A Grande Barreira de Corais é uma região da Austrália que abriga milhares de espécies e forma a maior estrutura viva do planeta, mas tem enfrentado episódios repetidos de branqueamento.

Esse fenômeno acontece quando o coral perde as algas que vivem em seu interior e fornecem nutrientes. 

Sem essa fonte de energia, o organismo enfraquece e pode morrer. Segundo a NOAA Coral Reef Watch (CRW), 84,4% dos recifes oceânicos do mundo já foram afetados por um evento de branqueamento iniciado em 2023, provocado por temperaturas marinhas recordes.

Esforço para acompanhar a saúde do oceano

A descoberta ocorreu durante uma missão do Great Reef Census, iniciativa que reúne embarcações e voluntários para registrar imagens da região.

Mais de 100 barcos participam do trabalho, ampliando a quantidade de dados disponíveis para pesquisa.

“O Grande Censo dos Recifes nos ajuda a localizar as fontes mais importantes de recuperação dos recifes, auxiliando cientistas e gestores a direcionar melhor sua proteção”, disse Pete Mumby, do Laboratório de Ecologia Espacial Marinha da Universidade de Queensland, em comunicado.

A proposta é incentivar a participação de pessoas que já frequentam o mar, como mergulhadores e pescadores. 

Segundo Andy Ridley, CEO da Citizens of the Reef, a mobilização busca ampliar a coleta de informações e fortalecer os esforços de conservação.