À beira do curso d’água, um senhor aproveita a tarde quente para pescar. A água transparente não lembra o líquido espesso e marrom dos córregos que cortam outras cidades de São Paulo.
É que o homem está em Franca (a 400 km de SP), local com o maior índice de saneamento do país em ranking do Instituto Trata Brasil com dados dos cem maiores municípios do país.
A cidade paira bem acima de problemas brasileiros como esgoto a céu aberto e pessoas bebendo água contaminada.
Sob a administração da Sabesp, a distribuição de água está universalizada e o índice de cobertura de esgoto é de 99,8% e o de tratamento, de 100%.
O percentual de perdas na distribuição é mais de 10 pontos abaixo da média de 35% do estado, e até a tarifa de esgoto é mais barata que a da capital.
“Esperamos estar completamente autossustentáveis em uns dois ou três anos. E além de arcar com os custos, também queremos gerar receitas”, diz Gilson Santos de Mendonça, superintendente responsável pela Sabesp de Franca.
Com partes dos resíduos, por exemplo, é produzido o biogás que alimenta a frota de 38 veículos das unidades da Sabesp. Há um pequeno posto lá dentro, onde, de tempos em tempos, carros da empresa param para abastecer.
Agora, a unidade local da Sabesp busca aproveitar os resíduos para se tornar autossustentável energeticamente, em projeto premiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Como há mais gás do que demanda, o excedente é queimado de maneira contínua. O potencial de produção de biometano equivale a 45 mil litros de gasolina por mês. Em um veículo que consome 1 litro a cada 14 km, seria possível rodar 630 mil km, ou 154 vezes a circunferência da Terra.
De acordo com Mendonça, a ideia é utilizar este excedente de combustível para outros fins. Um deles seria no preparo do lodo que sobra do tratamento para venda para uso na agricultura como fertilizante.
Olhando do alto, a estação de tratamento é formada por piscinas de esgoto de formas redondas e quadrangulares, que recebem um caldo que, a cada etapa, vai ficando menos espesso e marrom. O processo começa com duas grades, uma grossa e outra mais fina, que retiram resíduos maiores.
Depois disso, a água passa por dois processos de decantação e um tanque de aeração.”Essa água não é potável ainda. Mas a lei prevê que deve ter 80% de limpeza. A nossa tem 95%”, diz o chefe da unidade da Sabesp, mostrando uma queda d’água que termina no pequeno córrego.
Parte do líquido passa por uma miniestação de tratamento e, depois, é vendida para a construção civil ou vira água de reúso. No entanto, a maior parte é despejada no córrego dos Bagres, o mesmo onde a reportagem da Folha de S.Paulo encontrou o aposentado J.E., 68, pescando.
O córrego cruza a área urbana da cidade, como uma espécie de marginal. A diferença é que ali não há mal cheiro, mas águas transparentes.
“Já peguei muita tilápia aqui e uma vez uma traíra”, diz o aposentado. Ele costuma colocar os peixes em um aquário, mas não tem coragem de comer. “Acho que ainda tem um pouco de esgoto aí.”
Para chegar aos melhores resultados do país, a unidade da Sabesp de Franca reinvestiu muito de sua receita: de 2014 e 2018, foi o equivalente a 42% de toda a arrecadação.
Além de abrirem o caminho para produzir energia e tornar a operação mais barata ao longo do tempo, o investimento tem efeitos práticos nos gastos públicos com saúde.
O SUS gasta R$ 217 milhões por ano em internações e procedimentos ambulatoriais por doenças causadas pela falta de saneamento.
Estudo do Instituto Trata Brasil mostra que, enquanto Franca teve 460 internações por diarreia de 2007 a 2015. Ananindeua (PA), a última do ranking, teve 36.4473.