Abelhas brasileiras podem ser mais espertas do que parecem, indicam estudos

Espécies nativas do Brasil revelam comportamentos mais complexos do que muita gente imagina

Mesmo sem ferrão funcional, algumas espécies defendem a colônia com vigilância, mordidas e comportamento coletivo. (Foto: Wikimedia Commons)

As abelhas são insetos capazes de desempenhar outras funções além de voar, polinizar e produzir mel. Em um estudo realizado pela Universidade de Turku, na Finlândia, descobriu-se que esses animais aurinegros são capazes de usar a inteligência para manipular ferramentas e resolver enigmas.

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A fauna brasileira conta com diversas espécies de abelhas. Algumas delas, como jataí, mandaçaia, uruçu e jandaíra, diferenciam-se de outros tipos por não possuírem ferrão, mas ainda são essenciais para a conservação do meio ambiente.

A descoberta do estudo finlandês não prova que as espécies brasileiras façam a mesma coisa, mas ajuda a olhar para elas com outra pergunta: até onde vai a inteligência das abelhas nacionais?

Mais do que mel

No Brasil, esses insetos formam um grupo diverso de espécies nativas que vivem em colônias, visitam flores, ajudam na reprodução de plantas e sustentam uma parte importante da vida em quintais, lavouras e florestas.

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Segundo a Embrapa, o país abriga mais de 250 espécies conhecidas de abelhas nativas sem ferrão. Elas não usam o ferrão para defesa, mas isso não significa que sejam passivas: algumas mordem, usam resinas ou protegem a entrada do ninho de forma coletiva.

A função mais valiosa, porém, está fora da colmeia. Ao buscar alimento, essas abelhas transportam pólen entre flores e contribuem para a produção de frutos, sementes e alimentos consumidos todos os dias.

Culturas como café, caju, tomate, berinjela, abacate, cacau, maçã e maracujá aparecem entre as plantas dependentes ou beneficiadas pela ação de polinizadores.

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É por isso que a inteligência desses insetos chama tanta atenção. Se elas conseguem aprender cheiros, memorizar horários e ajustar rotas de busca por alimento, a vida das abelhas sem ferrão passa a ser vista não apenas como trabalho automático da natureza, mas como um conjunto de estratégias refinadas de sobrevivência.

O estudo que reacendeu a pergunta

A nova discussão ganhou força depois de um experimento com abelhas mamangavas publicado na revista Science. No teste, os insetos foram colocados diante de uma flor artificial azul com recompensa doce, mas o alimento estava fora do alcance direto.

Para chegar até ele, as mamangavas precisavam fazer algo pouco esperado para um inseto: mover uma bolinha até debaixo da flor, subir nela e usar o objeto como apoio. A sequência não havia sido ensinada pelos pesquisadores.

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Antes do desafio, as abelhas tinham aprendido apenas duas informações separadas. Sabiam que a flor azul indicava alimento e que a bolinha podia ser movida. A solução completa, porém, precisou ser montada durante o experimento.

Muitas abelhas levaram o objeto ao lugar certo, o que levou os pesquisadores a interpretar o comportamento como uma forma de resolução espontânea de problemas.

O estudo não prova que todas as abelhas fazem o mesmo, nem permite dizer que elas pensam como humanos. Mas ajuda a mudar o ponto de partida da pergunta.

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Se uma mamangava, espécie estrangeira, pode reorganizar objetos para alcançar comida, talvez ainda exista muito a descobrir sobre a memória, a aprendizagem e as decisões das abelhas nativas brasileiras.

Memória de cheiro

Para uma abelha, o cheiro de uma flor pode funcionar como um mapa invisível. Não se trata apenas de pousar ao acaso em uma planta colorida. 

Estudos com abelhas sem ferrão, publicados na Springer Nature, indicam que esses insetos conseguem associar aromas a recompensas, como néctar ou soluções açucaradas.

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Na jataí, uma das espécies mais conhecidas no Brasil, pesquisadores observaram que experiências anteriores com alimento perfumado podem influenciar escolhas futuras. Quando o odor era encontrado no local de alimentação, as abelhas tendiam a procurar novamente aquele cheiro.

A mandaçaia também aparece em pesquisas sobre memória olfativa. Em um experimento, abelhas que haviam tido contato com um cheiro ligado ao alimento dentro da colônia apresentaram melhor desempenho depois, em testes de aprendizagem.

Esse tipo de comportamento ajuda a explicar por que a busca por alimento não é totalmente automática. Ao encontrar uma fonte vantajosa, a abelha pode guardar pistas químicas do ambiente e usar essa informação em novas viagens.

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Relógio natural

Além de guardar cheiros, algumas abelhas sem ferrão também parecem ajustar a rotina ao tempo. Em vez de visitar uma fonte de alimento de forma aleatória, elas podem concentrar a busca nos horários em que o recurso costuma estar disponível.

Um estudo com a jandaíra, publicado na revista Sociobiology, observou justamente esse comportamento. As abelhas passaram a aparecer antes e durante o período em que o alimento era oferecido, mas quase não visitavam o local depois que a fonte deixava de estar disponível.

Para os pesquisadores, esse padrão sugere memória temporal. Em outras palavras, as abelhas não apenas reconheciam o alimento, mas ajustavam a viagem ao momento mais provável de encontrá-lo.

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Na natureza, essa habilidade pode fazer a diferença. Flores não oferecem néctar e pólen do mesmo jeito o dia inteiro. Temperatura, luz, umidade e horário interferem na atividade das plantas e também na capacidade de voo das abelhas.

Inteligência ou adaptação?

Chamar esse comportamento de inteligência exige cuidado. As abelhas não pensam como humanos, nem há prova de que tenham consciência. Ainda assim, a ciência já reconhece que esses insetos podem aprender, memorizar pistas e ajustar decisões conforme a experiência.

Uma revisão sobre cognição em abelhas sem ferrão, publicada em Behavioral Ecology and Sociobiology, aponta que o grupo ainda é pouco estudado, mas promissor para entender como o ambiente molda habilidades de aprendizagem.

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Estratégias de busca por alimento, defesa do ninho e uso de cheiros ou sinais visuais podem variar conforme a espécie e o lugar onde ela vive.

É aí que o estudo com as mamangavas entra como provocação. No experimento, elas usaram uma bola para alcançar uma flor artificial fora do alcance, sem receber treinamento direto para aquela solução.

O teste não foi feito com abelhas brasileiras, mas mostra que insetos podem surpreender quando colocados diante de um problema novo.

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O comportamento das abelhas mistura instinto, memória e adaptação. Não é inteligência humana em miniatura, mas também está longe de ser apenas um voo automático entre flores.