O sonho do aluguel em dia está ficando mais difícil para milhares de brasileiros, e a inadimplência na locação voltou a subir no país. Após dar uma trégua e atingir o menor nível em um ano, o atraso no pagamento dos imóveis residenciais e comerciais avançou para mais de 3%, impulsionado pelos juros altos e pelo orçamento apertado das famílias.
O cenário acende um alerta vermelho no mercado imobiliário e reflete o sufoco de quem precisa escolher qual conta pagar no fim do mês.
De acordo com o Índice de Inadimplência Locatícia, elaborado pela Superlógica, os contratos com mais de 60 dias de atraso passaram a representar 3,22% do total monitorado pela plataforma, que acompanha locações residenciais e comerciais em todo o país.
O movimento ocorre em um contexto de recorde de inadimplência. Atualmente, mais de 83 milhões de brasileiros possuem alguma dívida em atraso, segundo dados dos órgãos de proteção ao crédito.
Na avaliação de especialistas do setor, o aumento dos atrasos no pagamento da moradia é um indicador importante da deterioração das finanças das famílias. Isso porque o aluguel costuma ser uma das últimas despesas a deixar de ser quitada.
Quando esse compromisso passa a registrar mais inadimplência, o cenário indica perda do poder de compra e maior dificuldade para equilibrar o orçamento.
Imóveis mais baratos concentram os maiores atrasos
Os imóveis de menor valor continuam sendo os mais afetados pelo avanço da inadimplência.
Nos contratos residenciais com aluguel de até R$ 1 mil, a taxa de atraso aumentou de 5,56% para 6,31%. Já entre os imóveis comerciais dessa mesma faixa de preço, o índice chegou a 7,6%.
O levantamento mostra que famílias de menor renda e pequenos empreendedores têm sentido de forma mais intensa os efeitos da inflação, do crédito caro e da desaceleração econômica. Isso dificulta a manutenção dos pagamentos em dia.
Alta da inadimplência também chega aos imóveis de luxo
O crescimento dos atrasos, no entanto, deixou de ser um fenômeno restrito aos imóveis populares.
Entre os contratos residenciais com aluguel acima de R$ 13 mil mensais, a inadimplência saltou de 4,52% para 6,16%. No segmento comercial de alto padrão, o índice também avançou e ficou próximo de 5%.
Para representantes do mercado imobiliário, esse comportamento reflete as dificuldades enfrentadas por empresários, comerciantes e profissionais liberais, que convivem com custos financeiros elevados, maior carga tributária e condições mais rigorosas para obtenção de crédito.
Nordeste lidera o ranking de atrasos no pagamento
O levantamento também evidencia diferenças importantes entre as regiões do país.
O Nordeste lidera o ranking nacional, com inadimplência de 5,39% nos contratos de locação. Em seguida aparecem o Norte, com 4,38%, e o Sudeste, com 3,15%. O Sul apresentou o menor percentual do país, com 2,67%.
Segundo especialistas, fatores como nível de emprego, renda média, informalidade e os diferentes modelos de garantia locatícia ajudam a explicar as variações entre os mercados regionais.
Imobiliárias e proprietários acompanham o cenário com cuidado
Além da alta nos atrasos, o estudo aponta que as casas registraram piora mais intensa do que os apartamentos, enquanto os imóveis comerciais seguem apresentando índices de inadimplência superiores aos do segmento residencial.
Para o setor imobiliário, os próximos meses dependerão da evolução do cenário macroeconômico. A trajetória dos juros, o comportamento da inflação, o acesso ao crédito e a recuperação do mercado de trabalho serão determinantes para definir se a inadimplência continuará avançando ou voltará a recuar.
A expectativa é de que uma melhora da renda das famílias e da atividade econômica seja fundamental para aliviar a pressão sobre o orçamento dos brasileiros e reduzir os atrasos no pagamento dos aluguéis.
