STF prioriza julgamento que pode liberar Lira para disputa eleitoral deste ano

Ação decidirá se a nova Lei de Improbidade Administrativa deve ser aplicada de forma retroativa para livrar presidente da Câmara das acusações

Para Lira, a parte que for de comum acordo entre as casas pode até mesmo ser promulgada diretamente —ficando o restante para uma discussão mais prolongada

Arthur Lira é presidente da Câmara dos Deputados | Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Na semana em que regressará às atividades normais após o recesso, no início de agosto, o STF (Supremo Tribunal Federal) terá entre as suas pautas prioritárias uma ação que pode ajudar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a não ser barrado pela Lei da Ficha Limpa na sua tentativa de reeleição.

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A ação decidirá se a nova Lei de Improbidade Administrativa deve ser aplicada de forma retroativa. Ela entrou na pauta pouco depois de uma visita institucional do próprio Lira ao Supremo.

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Condenado em segunda instância por improbidade em Alagoas, ele deve se beneficiar de uma eventual mudança nas regras que incida sobre processos anteriores a 2021, quando a legislação foi sancionada. Com o reconhecimento da retroatividade, ele pode se livrar definitivamente das acusações.

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O julgamento foi pautado para 3 de agosto, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. O processo não trata especificamente do caso de Lira, mas terá repercussão em todas as ações que tramitam na Justiça em situação semelhante.

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Os ministros debaterão a respeito da retroatividade da nova Lei de Improbidade, em especial a mudança nos prazos de prescrição – agora mais curtos – e a necessidade de um elemento subjetivo, dolo (intenção), para a configuração da irregularidade.

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Na nova legislação, foi eliminada a possibilidade de sanção por irregularidades “culposas” – agora é preciso a acusação comprovar que houve dolo (quando há intenção ou se assume o risco de cometer o ilícito).

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Diferentemente do que ocorre na esfera penal, a Lei de Improbidade não prevê a possibilidade de prisão, mas sim o ressarcimento aos cofres públicos e a perda dos direitos políticos.

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Com isso, o julgamento no Supremo deve afetar dezenas de outros pré-candidatos com condenações expedidas sob as antigas regras.

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Moraes também relata outros processos pautados para o mesmo dia que tratam da possibilidade de procuradores dos estados (ou seja, os funcionários que fazem a advocacia dos estados, sem relação com os procuradores do Ministério Público) apresentarem ações de improbidade.

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Junto com outros líderes da Câmara, Lira tomou café da manhã no último dia 29 no Supremo, e fez pedidos a Fux a respeito da Lei de Improbidade.

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Lira afirmou a Fux, segundo nota do próprio STF, que é necessário o julgamento de ações que tratam sobre casos de improbidade e que já foram liberadas por Moraes para entrarem na pauta.

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De acordo com o presidente da Câmara, é necessário para o Parlamento que exista uma diferenciação de quando há dolo ou quando houve um erro de gestão. A corte vai declarar a validade ou não das mudanças.

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O STF afirmou que Lira foi genérico sobre o tema e não tratou de processos específicos ao pedir para pautar os casos. A corte também disse que o presidente da Câmara não pediu que o julgamento aconteça antes do fim do período de registro; e que não se discutiu no encontro possíveis beneficiários da ação.

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O relato foi referendado por outros líderes do Parlamento que estiveram no café da manhã.

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Antes do deputado, líderes do Senado fizeram a mesma solicitação a Fux.

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Lira foi condenado em dois processos relacionados à Operação Taturana, deflagrada em 2007 pela Polícia Federal para apurar suspeitas de desvios na Assembleia Legislativa de Alagoas, onde ele exerceu mandatos de 1999 a 2011.

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Em um dos processos, o presidente da Câmara teve condenação confirmada em segunda instância, o que gera a inelegibilidade prevista na Lei da Ficha Limpa. Em 2018, ele conseguiu liminar de efeito suspensivo para concorrer na eleição, na qual foi eleito para seu terceiro mandato no Congresso.

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Nessa condenação, o Tribunal de Justiça de Alagoas considerou que ele e outros deputados estaduais cometeram irregularidades na quitação, com dinheiro público da Assembleia, de empréstimos pessoais feitos no Banco Rural.

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O caso, que permanece sob sigilo, está agora no STJ (Superior Tribunal de Justiça).

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Questionado, Lira afirmou, por meio de sua assessoria, que a mudança legislativa foi aprovada por maioria na Câmara e no Senado, com o “objetivo de corrigir distorções e inadequações na lei que, nos últimos 30 anos, castigou o bom gestor, tornando réus vários prefeitos, principalmente pelo seu uso político indevido.”

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Foi Lira quem tomou a iniciativa, em junho de 2021, de tirar o projeto de modificações na Lei de Improbidade de uma comissão especial onde era discutido e levá-lo direto para votação em plenário, sob protestos de representantes do Ministério Público e de entidades anticorrupção.

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Neste ano, a Justiça de Alagoas já declarou prescrição, com base nas novas regras, de um outro processo contra o presidente da Câmara.

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Procurado, o ministro Luiz Fux disse, por meio de nota, que o tema foi tratado em reuniões com líderes do Senado e da Câmara em junho e que, nos encontros, não foi abordado quem poderia ser afetado com o julgamento.

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“Nas duas ocasiões, os parlamentares apresentaram pleito em nome da classe política pela definição do tema, que tem sido objeto de decisões conflitantes em todo o Brasil, principalmente na diferenciação entre dolo e culpa, o que gera insegurança jurídica.”

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O presidente do Supremo também afirmou que, segundo os parlamentares, candidatos eleitos temem vir a não tomar posse ou serem cassados no curso do mandato. “Não houve pleito específico de data para julgamento.”

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Um julgamento que se arraste até depois do prazo de registro de candidaturas, em 15 de agosto, pode gerar questionamentos para candidatos condenados em segundo grau por improbidade.

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Nesse caso, o mais provável é que esses políticos argumentem que seus casos estão congelados com a indefinição do Judiciário e que, portanto, devem ser liberados para a disputa.

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Com a discussão sobre o assunto no Supremo, recursos contra antigas condenações em instâncias inferiores foram paralisados, na espera de uma decisão definitiva sobre os critérios de prescrição estabelecidos na nova lei.

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“Um determinado político pode alegar, com fundamento, que, como os processos estão suspensos, ele está impedido de discutir essa causa de inelegibilidade; e que, portanto, não pode ser prejudicado”, diz o advogado eleitoral Francisco de Almeida Prado Filho.

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O presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, Ubiratan Cazetta, afirma que a decisão do Supremo pode anular a vasta maioria dos processos que tramitavam antes da vigência da atual lei, mas que é preciso encerrar uma situação de indefinição.

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“É importante que a gente saia desse limbo de agora, de insegurança, especialmente sobre a retroatividade ou não”.