A velha Terra de Araritaguaba – hoje a cidade de Porto Feliz – foi o palco vivo das Monções, um dos capítulos mais importantes da história do Brasil. Os encantos das suas noites salpicadas de estrelas cintilantes inspiravam os menestréis apaixonados que, madrugada adentro e sob os acordes plangentes de um violão, entoavam belas valsas nas saudosas e poéticas serenatas.
Paralelamente a esse apaixonante cenário a Vila de Porto Feliz também foi palco de inúmeros “causos” pitorescos, que as noites dos tempos não poderão apagar. Pois bem! Nos velhos e saudosos dias de outrora por aqui viveu um cidadão conhecido pelo apelido de “Dito Skipa”, homem elegante que marcava presença pelo seu traje fino, composto por fraque, cartola e bengala, bem como pela sensibilidade de ser um grande ator.
Via de regra, sob efusivos aplausos da plateia, era protagonista nas encenações levadas a efeito no antigo Teatro Municipal da Barra Funda. “Dito Skipa” era assíduo frequentador do Clube Recreativo Progresso, ponto de encontro da sociedade de outrora, e nos fins de semana ali permanecia até altas horas, conversando e degustando o seu whisky predileto.
Certa noite depois de haver ingerido várias doses e já acometido de um ligeiro “pileque”, “Dito Skipa” despediu-se dos amigos, empunhou a bengala, ajeitou a cartola, e partiu rumo ao merecido repouso. Dez minutos depois voltou ao local em desabalada carreira e, ofegante, alardeou que um leão e um burrinho estavam deitados em frente à fachada da sua residência! Obviamente incrédulos e julgando que “Dito Skipa” havia sido vítima de uma “miragem etílica”, os amigos encheram-se de curiosidade e foram até à residência do ator, a poucos metros do local.
Para estupefação geral, realmente, um leão e um burrinho tranquilamente acomodados, montavam uma assustadora “sentinela” em frente à porta de entrada da residência do ator! Ante a inusitada cena os soldados da Guarda Nacional foram chamados, pois a situação ensejava perigo! Pensando com rapidez os milicianos foram buscar os responsáveis por um circo que estava instalado na Barra Funda vez que, muito provavelmente, os animais teriam escapado daquela casa de espetáculos! Os homens do circo, também assustados com a notícia, efetivamente constataram a fuga dos animais e, imediatamente, dirigiram-se para o local do fato, levando a jaula do leão para resgatá-lo. Tanto o burrinho como principalmente o leão, eram adestrados, e tão logo deparou com sua jaula o perigoso felino se acomodou dentro dela, sem causar transtorno. O burrinho, por sua vez, caminhou calma e tranquilamente acompanhando o amigo e os homens do circo.
No dia seguinte a notícia se espalhou pela Vila de Porto Feliz e os comentários foram surgindo de norte a sul, de leste a oeste, com as mais absurdas versões. O imbróglio, porém, foi finalmente desvendado pela confissão de dois meninos peraltas da Barra Funda, que passando pelo circo no início da madrugada cometeram a travessura de abrir a jaula do leão e de soltar as amarras do burrinho! De resto, como já narrado, os dois animais caminharam pelas ruas desertas até o centro da histórica vila e, certamente encantados pela luz prateada do luar e pelo brilho cintilante das estrelas, encontraram um cantinho convidativo junto ao pórtico da bela casa do ator “Dito Skipa” onde, inocentemente, adormeceram e sonharam nos aconchegantes braços de Morfeu! Oh linda Terra de Araritaguaba / Das noites enluaradas / A reviver nas bandeiras / As tuas glórias passadas! (Ilustração do notável designer gráfico porto-felicense Nilson Araújo).
