A mensagem é clara e direta: “Proibido tirar de giro e chamar no grau. Sujeito a cacete”. Faixas com essas frases se multiplicaram por bairros e cidades periféricos. Há quem diga que são de autoria do PCC. Mas qual a origem da ameaça direcionada a motociclistas?
Em 2021 a Gazeta mostrou o caso de um homem que foi espancado após, supostamente, ter feito manobras com sua moto que desrespeitaram o aviso.
Para tentar desvendar a origem dessas faixas, a Gazeta fez uma levantamento dos casos em que essas faixas foram flagradas em diversas cidades.
As faixas “Proibido tirar de giro e chamar no grau. Sujeito a cacete”
Muitas certezas e incertezas estão em torno da origem desses avisos. Há quem diga que são traficantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) quem as pendura pelas ruas. Algumas notícias atribuem a cidadão comuns a atitude de espalhá-las em seus bairros.
As faixas também dividem opiniões. Nas redes sociais, alguns as defendem, dizendo que deveriam haver mais faixas como estas em todos os bairros. Os que criticam os avisos, dizem que a “regra” está cerceando o divertimento de quem realizou o sonho de ter moto.
Aprovadas ou não pelo público, as faixas com ameaça parecem ter surtido efeito em alguns casos. Há relatos de supostos motociclistas que pararam de fazer suas manobras perigosas e barulhentas com medo de represália.
O que significa “tirar de giro” e “chamar no grau”?
Para a maioria das pessoas as manobras com moto realizadas em muitas ruas de bairros periféricos são apenas barulho. Mas no mundo de quem quer chamar atenção com sua motocicleta, as acrobacias têm nome certo.
“Tirar de giro” é acionar a embreagem da moto a ponto de produzir um barulho muito alto com o motor e o escapamento. O estardalhaço chega a parecer uma sequência de tiros.
Já a expressão “chamar no grau” é mais conhecida. Se refere à prática de empinar a moto fazendo o veículo andar somente com uma das rodas.
Independente dos nomes, as manobras são inaceitáveis para o grupo que produz as faixas.
Por que as faixas proíbem manobras com moto?
O grande motivo por trás do surgimento das misteriosas faixas está na segurança. Um homem supostamente pego pelo PCC desobedecendo ao aviso da faixa explicou a finalidade da ameaça.
Em vídeo ele disse que as faixas surgiram “devido à molecada tirando giro, tirando um barato do pessoal, empinando. [Isso] coloca em risco a criançada e idosos [e incomoda] trabalhador que não consegue dormir”. Na gravação, ele é espancado pouco antes.
A autenticidade do vídeo é questionável, mas as estatísticas, não. Em 2023, o número de motociclistas internados pelo SUS após acidentes chegou a 141,7 mil.
Nos dois anos anteriores condutores de motos também lideraram entre os principais grupos de vítimas por acidentes no trânsito que resultaram em internações. Veja os dados abaixo.
Número de pessoas internadas pelo SUS a cada ano por acidentes de transporte. Imagem: Reprodução/AbrametO que acontece com quem desobedece ao aviso da faixa?
Grupos que supostamente seriam autores das faixas afirmam que a consequência para quem infringe à “regra” é violenta.
Um vídeo que, na internet, é atribuído a membros do PCC mostra um homem sendo espancado por desobedecer às ordens. Nas imagens ele aparece recebendo diversos golpes, como socos e chutes.
A voz de um suposto membro da facção é ouvida ao fundo, instruindo as frases que a vítima do espancamento deve pronunciar. Na gravação, fica claro o recado de que as pessoas pegas “dando grau” seriam também violentadas. Assista a seguir.
Os primeiros registros de faixas
Em São Paulo, as aparições mais antigas dessas faixas datam de 2021, de acordo com a apuração da Gazeta. As notícias mais antigas referem a faixas estendidas entre postes de luz nas cidades de Guarulhos e Osasco.
O modelo é o mesmo encontrado até hoje nas periferias de diversas cidades pelo Brasil. Até mesmo em municípios que, teoricamente, não têm atuação do PCC. Nelas, a frase “sujeito a cacete” está sempre em destaque.
A reportagem perguntou à Secretaria de Segurança Pública sobre o começo das aparições desses avisos pelas ruas paulistas e aguarda resposta da pasta.
O que os moradores acham das faixas?
Na internet os avisos misteriosos dividem opiniões. Quem defende, comemora a expectativa por mais segurança para crianças que brincam nas ruas e que estariam em risco com as manobras com motos.
“Nossa quem colocou esse cartaz deveria ser o governador do nosso país ,pois fala e cumpre. Parabéns”, comentou um internauta em uma das publicações que mostra a faixa.
“Todos os bairros deveria colocar uma faixa assim gostei da ideia”, escreveu outro na sessão de comentários.
Já quem critica a prática defende que pilotar a moto em apenas uma roda e fazendo barulho é um tipo de diversão que está sendo negada aos jovens, diz uma internauta.
“Os moleques querem, aos fins de semana, distrair a mente dando uns graus, fazendo um barulho, aí tá sujeito a cacete. [Isso] é quer tira a alegria da molecada. Por isso que a favela não vence. Roubar na quebrada pode, né?”, opinou.
Segundo a mulher, quem colocou a faixa, deveria também ameaçar com violência quem é pego roubando os moradores locais.
Internauta diz ser contra faixas que proíbem manobras perigosas com moto. Foto: Reprodução/FacebookAs faixas surtem efeito?
A matéria de 2022, a agência de jornalismo, Ponte, revelou que alguns moradores se sentiram aliviados com o surgimento das gravuras em tecido em seus bairros.
“A gente sempre tinha esse problema com os motoqueiros bagunceiros e nunca adiantava morador falar. Mas esse ano quase não vimos nada disso”, afirmou ao portal um comerciante, morador da região do Grajaú.
Ao mesmo jornal, um motociclista que costumava “tirar giro” admitiu que parou com a prática após saber da faixa.
“Mesmo curtindo fazer isso, a gente entendeu que é preciso respeitar os moradores mais velhos que só querem ficar tranquilos, então não podemos atropelar a ordem que foi passada”.
Já na Favela da Ilha, zona leste da Capital, sequer foi preciso observar faixas para que as práticas terminassem.
“Não tinha escrito em lugar nenhum, mas aqui não teve ninguém fazendo barulho com moto. O único que presenciei tirando de giro foi rapidamente interrompido por um rapaz que mora aqui, ouviu um monte, e saiu tremendo”, contou também à Ponte um local.
Afinal, quem coloca as faixas de “proibido dar grau”?
As primeiras notícias que relatam o surgimento das faixas que ameaçam quem costuma dar grau e tirar giro afirmam que os próprios moradores é que colocaram os avisos.
Posteriormente, vídeos nas redes sociais passaram a ser atribuídos a membros de facções criminosas, como o PCC. As gravações de violência explícita acabaram associadas aos grupos criminosos, sem comprovação.
A Gazeta perguntou à SSP sobre a autoria das faixas, mas recebeu resposta rasa por parte da pasta.
Policiais costumam retirar faixas deste tipo quanto as encontram, segundo mostrou matéria da Ponte Jornalismo em 2022.
A publicação mostrou que houve um aumento do número de avisos no fim do ano anterior e que as gravuras foram recolhidas pelos agentes após o período festivo.
O que diz a lei sobre “dar grau” e “tirar giro”
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, tanto fazer barulho alto com a moto, quanto empinar o veículo são práticas proibidas, na Lei 9.503/1997. Ambas as infrações são passíveis de multas e retenção do veículo. Veja detalhes:
Art. 230. Conduzir o veículo:
XI – com descarga livre ou silenciador de motor de explosão defeituoso, deficiente ou inoperante;
- Infração – grave;
- Penalidade – multa;
- Medida administrativa – retenção do veículo para regularização.
Art. 244. Conduzir motocicleta, motoneta ou ciclomotor:
III – fazendo malabarismo ou equilibrando-se apenas em uma roda;
- Infração – gravíssima;
- Penalidade – multa e suspensão do direito de dirigir;
- Medida administrativa – retenção do veículo até regularização e recolhimento do documento de habilitação.
O que diz a SSP
A Gazeta pediu posicionamento da SSP quanto às medidas tomadas pela polícia e pela Justiça quanto às manobras arriscadas com motos e também quanto à instalação das faixas.
Em nota, a pasta se negou a comentar as perguntas feitas pela reportagem. Solicitou apenas a citação dos endereços onde as faixas estão instaladas e, sobre um deles, informou que não há registro sobre a faixa em questão.
A autarquia não respondeu sobre o como a população pode pedir ajuda nos casos em que se sentir incomodada com barulhos de motocicletas. Tampouco informou como os cidadãos podem obter ajuda da polícia quando ameaçada por manobras perigosas com estes veículos.
Por fim, a SSP também não comentou sobre quando as faixas em questão passaram a ser identificadas pela polícia. Sequer elucidou se há investigação quanto à autoria da prática.
