Entre marcas tradicionais da Europa e da China, uma montadora brasileira vem se destacando no Salão do Automóvel, que acontece até o próximo domingo (30/11), no Anhembi, em São Paulo: é a Lecar. Em entrevista exclusiva ao Gazeta, o CEO e fundador Flavio Figueiredo Assis conta sobre os projetos de motor “autorecarregável” e uma linha de produção 100% nacional.
A fabricante promete despertar nos brasileiros o orgulho e a confiança em dirigir uma marca genuinamente daqui.
“O Brasil tem engenharia de ponta, capacidade técnica e um ecossistema automotivo robusto. Entendemos que o país pode fomentar um novo ciclo industrial com tecnologia disponível localmente, produtividade sustentável e valorização da matriz limpa do etanol”, diz Flavio Figueiredo Assis.
Portfólio atual da Lecar
O portfólio atual da Lecar já inclui três modelos de carros: o coupê 459, a picape Lecar Campo e o SUV Lecar Tático. No entanto, apenas os mock-ups de dois veículos estão expostos no Salão do Automóvel, acompanhados do projeto de chassi dos modelos da Lecar.
“Trouxemos um projeto de chassi que demostra na prática toda a arquitetura técnica e a tecnologia de propulsão híbrida flex com autonomia estendida (EREV) aplicada nos dois veículos (459 e Lecar Campo). Ele apresenta com detalhes o sistema de eletrificação com motor e gerador elétrico, bateria e o motor à combustão flex”, completa o CEO.
A autonomia estendida (EREV) citada por Assis é composta por dois motores, um elétrico e outro a combustão. A tecnologia permite que os modelos percorram 1 mil km com 30 litros de etanol. Confira a entrevista na íntegra:
Gazeta: O que a Lecar está apresentando ao público no Salão do Automóvel?
Assis: A Lecar expõe no seu estande no Salão do Automóvel de São Paulo o mock-up de dois veículos projetados e desenvolvidos integralmente no Brasil, o coupê 459 e a picape de cabine dupla Lecar Campo. Também trouxemos um projeto de chassi que demostra na prática toda a arquitetura técnica e a tecnologia de propulsão híbrida flex com autonomia estendida (EREV) aplicada nos dois veículos. Ele apresenta com detalhes o sistema de eletrificação com motor e gerador elétrico, bateria e o motor à combustão flex. É a mesma tecnologia que será aplicada também no Lecar Tático, um conceito de SUV “jipão” que apresentamos em primeira mão por meio de arte gráfica à imprensa.
Gazeta: Até o momento, qual a repercussão que a marca notou no Salão?
Assis: Temos recebido um retorno bastante positivo das pessoas que visitam o estande, seja de potenciais compradores como também de executivos e empresas interessados em eventuais parcerias com a marca. Também recebemos sugestões e até mesmo críticas construtivas e estamos abertos de forma bastante transparente a todo tipo de conversa. Sabemos que o nosso projeto pode gerar dúvidas e questionamentos, até pela ausência por tantas décadas de uma montadora genuinamente brasileira. Mas estamos confiantes e determinados a seguir em frente com o nosso projeto. Tenho dito a todos os que visitam nosso estande: a Lecar estará presente nas próximas edições do Salão do Automóvel. Esse é apenas o início de uma jornada longa e vitoriosa que temos pela frente.
Gazeta: Qual o principal objetivo da marca no Salão do Automóvel?
Assis: O Salão do Automóvel de São Paulo é o mais importante e tradicional evento do setor automotivo da América Latina, e faz parte do calendário oficial dos principais salões do mundo. O retorno do evento à capital paulista, após um intervalo de sete anos, coincidiu com o nosso atual momento de dar visibilidade ao projeto que estamos desenvolvendo. Assim, entendemos que era uma boa oportunidade para o Salão voltar a contar, depois de muitos anos, com uma montadora brasileira. Para nós, além de ser uma honra estar presente no Salão do Automóvel, é uma grande oportunidade para apresentarmos nossos veículos e nosso projeto de forma geral a um público apaixonado por carros.
Gazeta: Além de ser uma marca brasileira, qual o diferencial da Lecar?
Assis: Nosso propósito vai muito além de produzir carros brasileiros no Brasil. Queremos despertar nos brasileiros o orgulho a confiança em uma marca genuinamente brasileiros. Investimos em uma cadeia produtiva nacional sólida e na valorização do talento brasileiro. Nosso plano de industrialização reflete uma estratégia clara de construção de uma montadora competitiva, com identidade nacional e visão global. O Brasil tem engenharia de ponta, capacidade técnica e um ecossistema automotivo robusto. Entendemos que o país pode fomentar um novo ciclo industrial com tecnologia disponível localmente, produtividade sustentável e valorização da matriz limpa do etanol. Nesse sentido, trabalhamos para buscar parcerias estratégicas que acelerem o desenvolvimento e fortaleçam a presença da Lecar no mercado.
Gazeta: Qual o “público alvo” da Lecar e a faixa de preço dos modelos da marca?
Assis: Queremos atrair consumidores que buscam adquirir veículos com uma combinação entre tecnologia, inovação, design, preço justo e facilidade de compra. O preço final dos dois modelos anunciados, Lecar 459 e Lecar Campo, é o mesmo: R$ 159,3 mil. Ambos já são oferecidos aos clientes por meio do sistema de Compra Programada, uma modalidade que permite planejar a aquisição do veículo sem juros e com total previsibilidade, com prazos de 48, 60 ou 72 meses e parcelas a partir de R$ 2.212,50. Estamos também em meio a um processo de expansão da rede de concessionárias da Lecar, estimulando a adesão de lojas de usados e seminovos como revendedores oficiais credenciados pela marca.
Gazeta: A Lecar está vendendo dois modelos com a promessa de entregar em 2027, existe alguma garantia ao comprador caso este prazo seja adiado?
Assis: A compra é formalizada por meio de contrato assinado entre as partes, como em qualquer transação comercial, onde ficam registradas as obrigações da empresa referentes a prazos e entrega dos produtos.
Gazeta: Quais os planos da Lecar para a popularização da marca?
Assis: Nossa operação busca a todo momento estar bastante conectada com os consumidores brasileiros. Os nossos canais nas redes sociais são um indicador importante do elevado alcance que a marca já conquistou. Em pouco mais de quatro anos de operação, já temos, por exemplo, mais de 250 mil seguidores no Instagram. A própria participação no Salão do Automóvel, mesmo antes de ter carros produzidos, faz parte da nossa estratégia de aproximação do público, buscando tornar a marca mais conhecida e acessível. Outra ação que também está ligada à ideia de popularização da marca é a expansão da rede de concessionárias por meio de lojas de usados e seminovos, que permite que os clientes tenham acesso à Lecar como “vizinhos de bairro” destas lojas.
Gazeta: Qual o prazo para a construção de uma fábrica própria?
Assis: Anunciamos no Salão do Automóvel uma revisão de cronograma tanto de início de construção de fábrica, agora programado para o primeiro trimestre de 2026, assim como de produção dos carros, agora prevista ser iniciada no segundo semestre de 2027. A mudança ocorreu em razão do processo de homologação e licenciamento ambiental em Sooretama, no Espírito Santo. Optamos por revisar prazos para garantir segurança de execução, conformidade regulatória e um modelo produtivo sustentável e auditável.
Gazeta: Com a fábrica de pé, todos os processos de produção serão realizados pela Lecar ou alguns itens (motor, bateria…) serão comprados de outras marcas?
Assis: A formalização de parcerias é uma parte importante dentro da nossa estratégia de negócios. Já contamos, por exemplo, com parceiros estratégicos como a WEG, responsável pelos sistemas de eletrificação e geradores internos, e a Horse, fornecedora do motor flex que atua exclusivamente como extensor de autonomia. Estamos em processo de formalização ainda com outros parceiros, que terão os nomes confirmados no momento oportuno. O plano prevê cerca de 60 fornecedores homologados para a primeira fase industrial, com expansão para mais de 100 na etapa de produção em escala.
Gazeta: As fábricas chinesas têm crescido no Brasil. Como a Lecar vê esse movimento e se isso afeta os planos da marca no País?
Assis: A investida de empresas chinesas é um movimento natural, não apenas no Brasil, mas no mundo de forma geral. A Lecar está neste momento avaliando com uma das maiores fabricantes automotivas da China um acordo de transferência tecnológica. A iniciativa envolve cooperação em engenharia e acesso a plataformas globais de eletrificação, e também pode atrair novos investimentos para a operação brasileira e fortalecer o projeto industrial da marca.
Gazeta: Quais os principais objetivos da marca em 10 anos?
Assis: Nosso objetivo principal no médio prazo é liderar a transição energética da mobilidade no Brasil, com foco em tecnologia nacional, inovação e sustentabilidade. Investir em uma cadeia produtiva nacional sólida e na valorização do talento brasileiro, consolidando a marca Lecar como referência para a indústria automotiva do futuro e reforçando a matriz energética limpa e renovável do país.






