Por que o GNV perdeu espaço nas ruas e deixou de ser prioridade para motoristas e postos?

Burocracia e inspeções obrigatórias afastaram motoristas do GNV

Cilindro de GNV instalado no porta-malas de veículo de passeio

Cilindro de GNV instalado no porta-malas de veículo de passeio | Reprodução/YouTube

Durante muitos anos, o Gás Natural Veicular foi visto como sinônimo de economia para quem dependia do carro todos os dias, especialmente em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

No auge da popularidade, milhões de veículos circulavam com kits de conversão, garantindo uma redução de até 40% nos gastos em comparação à gasolina ou ao etanol.

Com o passar do tempo, porém, essa realidade mudou. A frota de veículos adaptados para GNV encolheu de forma significativa, sobretudo em estados estratégicos, como São Paulo, onde a queda supera 30% nos últimos anos.

O que antes era tendência virou nicho, concentrado principalmente em motoristas profissionais e frotas empresariais. Burocracia, custos crescentes e a chegada de novas tecnologias explicam essa transformação.

Burocracia e custos pesam no bolso

A partir de 2007, regras mais rígidas passaram a impactar diretamente quem optava pelo GNV.

A Resolução 262 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) tornou obrigatória a inspeção anual para veículos convertidos, acrescentando despesas e exigências que muitos motoristas consideram excessivas.

Em 2022, novas normas do Inmetro estabeleceram prazos de validade para os cilindros com base no ano de fabricação, mesmo quando aprovados em testes de segurança.

Isso aumentou ainda mais os custos de manutenção. O kit de conversão, que pode variar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, exige requalificação periódica, geralmente a cada cinco anos.

Ao trocar de carro, muitos proprietários optam por não reinstalar o sistema, contribuindo para a redução de 34% da frota ativa em São Paulo desde 2020. Com menos demanda, diversas oficinas especializadas fecharam as portas.

Alta no preço reduz vantagem econômica

Se antes o GNV era quase imbatível na comparação de preços, hoje a diferença já não é tão expressiva. O valor do metro cúbico subiu nos últimos anos, diminuindo a margem de economia frente à gasolina e ao etanol, especialmente em capitais como São Paulo.

Motoristas que dependem do carro para trabalhar relatam que o retorno financeiro deixou de compensar o investimento inicial.

Dados do Detran-SP mostram que os pedidos de inclusão de GNV nos documentos de veículos despencaram cerca de 64% em cinco anos, passando de quase 10 mil solicitações em 2021 para pouco mais de 1.200 até outubro de 2025.

Mesmo com a instabilidade dos combustíveis líquidos, o GNV perdeu o diferencial competitivo que sustentava sua fama de alternativa mais barata.

Flex, híbridos e elétricos ganham espaço

Desde a popularização dos motores flex, a partir dos anos 2000, o consumidor passou a contar com uma solução prática, sem necessidade de adaptações caras ou perda de espaço no porta-malas — um dos principais pontos criticados nos carros convertidos para GNV.

Ao mesmo tempo, montadoras ampliaram investimentos em modelos híbridos e elétricos, como Toyota Corolla Hybrid e BYD Dolphin, que prometem economia de combustível e menor impacto ambiental sem a obrigação de inspeções frequentes.

Após 2015, os incentivos estaduais ao GNV perderam força, enquanto políticas públicas passaram a priorizar outras matrizes energéticas. O resultado foi a retração de aproximadamente 33% da frota na capital paulista.

O que esperar do futuro do GNV?

Embora o uso em carros de passeio esteja em queda, o cenário é diferente no transporte pesado.

Entre 2023 e 2025, houve crescimento expressivo na instalação de postos de alta vazão voltados a caminhões, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Projetos de biometano também surgem como alternativa para reduzir emissões no setor logístico.

No Rio de Janeiro, ainda circulam cerca de 1,65 milhão de veículos com GNV, número relevante no contexto nacional. Ainda assim, o combustível deixou de ser protagonista entre motoristas comuns e se consolidou como solução voltada a nichos profissionais.

Especialistas defendem maior equilíbrio entre segurança, regulação e competitividade para que o GNV não desapareça de vez das ruas brasileiras.