Badra nas urnas: quando a técnica fala mais alto

Há momentos em que uma pesquisa eleitoral deve ser julgada menos pelo que disse quando foi publicada e mais pelo que aconteceu depois dela

Na disputa pelo Governo de São Paulo, a Badra encontrou Tarcísio de Freitas com 60,1% das intenções na pergunta estimulada. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Há momentos em que uma pesquisa eleitoral deve ser julgada menos pelo que disse quando foi publicada e mais pelo que aconteceu depois dela. A eleição é um desses momentos.

Continua após a publicidade

Quando as urnas são abertas, desaparecem as interpretações sobre tendências futuras e surge uma referência objetiva contra a qual as pesquisas realizadas às vésperas do voto podem ser examinadas.

Foi sob esse teste que a Badra Pesquisas chegou às eleições de 2026 em São Paulo.

O desafio não era pequeno. Pesquisar o maior colégio eleitoral do País significa tentar representar, em uma única amostra, um Estado de dimensões territoriais, demográficas, econômicas e políticas extraordinárias. Capital, Região Metropolitana, litoral e interior constituem realidades bastante diferentes. Produzir uma fotografia estatística desse universo exige desenho amostral, distribuição territorial, controle de campo, treinamento, supervisão e, sobretudo, disciplina metodológica.

Continua após a publicidade

A pesquisa da Badra foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número SP-01142/2026 e ouviu 2.496 eleitores entre 28 de setembro e 1º de outubro. O levantamento foi além das disputas majoritárias. Mediu as preferências para governador e senador e enfrentou duas das perguntas mais difíceis de uma pesquisa eleitoral: o voto espontâneo para deputado federal e deputado estadual.

Passada a eleição, alguns resultados merecem ser registrados não como celebração, mas como objeto de análise.

Na disputa pelo Governo de São Paulo, a Badra encontrou Tarcísio de Freitas com 60,1% das intenções na pergunta estimulada. Retiradas as respostas que não constituiriam votos válidos, o percentual correspondia a aproximadamente 62,9%. Nas urnas, Tarcísio obteve 62,65% dos votos válidos.

Continua após a publicidade

Mais do que a proximidade de um número isolado, porém, o conjunto do levantamento permite uma leitura sobre a capacidade da amostra de reproduzir movimentos existentes no eleitorado paulista.

Isso aparece de maneira especialmente interessante na eleição para o Senado, uma disputa mais complexa porque cada eleitor dispunha de dois votos. A pesquisa precisava captar não apenas preferências individuais, mas a distribuição dessas duas escolhas. Depois da eleição, a comparação entre pesquisa e urna mostrou diferenças, como é natural em qualquer levantamento amostral, mas também registrou corretamente movimentos relevantes da disputa.

Isso aparece de maneira especialmente interessante na eleição para o Senado, uma disputa mais complexa porque cada eleitor dispunha de dois votos. Consideradas conjuntamente as duas escolhas e retiradas as respostas que não constituiriam votos válidos, a Badra projetava 25,2% para Guilherme Derrite, 24,3% para André do Prado e 19,1% tanto para Simone Tebet quanto para Marina Silva. As urnas registraram, respectivamente, 30,59% para Derrite, 29,28% para André, 19,23% para Tebet e 18,12% para Marina. Houve, portanto, pequena diferença nas duas candidaturas que terminaram eleitas, mas a pesquisa captou a configuração central da disputa. Derrite e André ocupavam as duas primeiras posições no agregado da Badra, enquanto Tebet e Marina formavam o bloco seguinte.

Continua após a publicidade

Em duas medições, a proximidade foi especialmente elevada: 19,1% contra 19,23% para Tebet e 19,1% contra 18,12% para Marina. A urna confirmou, assim, a ordenação dos dois primeiros colocados indicada pelo levantamento. Nenhum outro instituto foi tão preciso quanto a Badra na eleição para o Senado por São Paulo. Os números divulgados antes e os registros na Justiça Eleitoral emprestam o lastro documental para o qualificado desempenho.

E talvez o teste mais incomum tenha ocorrido nas eleições proporcionais.

Pesquisas para deputado federal e estadual são particularmente difíceis. O número de candidatos é enorme, a decisão de voto costuma amadurecer mais tarde e a dispersão das respostas espontâneas é muito elevada. Ainda assim, quando a Badra perguntou espontaneamente em quem o eleitor paulista pretendia votar para deputado federal, o nome mais citado foi Lucas Pavanato, com 3,4%. Terminada a eleição, Pavanato foi o candidato a deputado federal mais votado do Estado.

Continua após a publicidade

Para deputado estadual ocorreu fenômeno semelhante. Eduarda Campopiano apareceu na primeira posição da pesquisa espontânea da Badra, com 2,0%. Nas urnas, foi também a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo.

São resultados que merecem atenção justamente porque não nasceram de uma pergunta estimulada com poucos nomes apresentados ao entrevistado. Nas eleições proporcionais, o eleitor precisa retirar o nome de sua própria memória. Em um universo de centenas de candidaturas, identificar na amostra justamente os nomes que depois ocupariam o topo da votação constitui um teste relevante para a capacidade de representação do levantamento.

Há ainda um antecedente recente.

Continua após a publicidade

Na eleição municipal de São Paulo de 2024, a última pesquisa Badra antes do segundo turno apontou Ricardo Nunes com 59,4% dos votos válidos e Guilherme Boulos com 40,6%. Aberta a totalidade das urnas, Nunes terminou com 59,35%. A diferença entre pesquisa e resultado, naquele caso, foi de cinco centésimos de ponto percentual para o vencedor.

Dois anos depois, uma pesquisa estadual submeteu o método a uma escala muito maior.

É tentador transformar resultados como esses em propaganda. Talvez seja justamente o caminho que deva ser evitado. Pesquisa eleitoral ganha credibilidade quando não precisa reivindicar infalibilidade. Nenhum instituto sério é infalível. Amostras possuem margem de erro, decisões eleitorais podem mudar depois do campo e diferentes metodologias podem produzir fotografias distintas de uma população em movimento.

Continua após a publicidade

A pesquisa de opinião é uma aplicação de método científico, não um exercício de adivinhação.

Por isso, o aspecto mais relevante do desempenho observado em São Paulo talvez esteja menos na comemoração do acerto e mais naquilo que o tornou possível, ou seja, método previamente definido, amostra construída para representar o universo pesquisado, trabalho presencial de campo, controle e supervisão das entrevistas, tratamento estatístico e independência diante das expectativas produzidas pelo ambiente político.

Existe uma pressão silenciosa sobre todo instituto quando seus números destoam do senso comum ou de pesquisas concorrentes. Nesses momentos, alterar interpretações para aproximá-las do consenso pode parecer confortável. Mas pesquisa não existe para confirmar expectativas. Existe para medir.

Continua após a publicidade

Esse princípio é também uma questão ética.

Um instituto não deve produzir o resultado que agrada ao contratante, ao candidato, à imprensa ou às redes sociais. Tampouco deveria escolher números porque parecem mais plausíveis diante do ambiente político. Sua obrigação é construir a melhor amostra possível, realizar corretamente o campo, processar os dados com rigor e publicar aquilo que encontrou.

Depois disso, cabe à urna fazer aquilo que somente ela pode fazer.

Continua após a publicidade

O desempenho registrado pela Badra em São Paulo em 2026, somado à experiência da eleição municipal de 2024, oferece assim uma conclusão mais importante do que qualquer proclamação de vitória institucional. Mostra que, em um ambiente no qual pesquisas são frequentemente julgadas por paixões políticas, existe algo mais sólido a preservar, isto é, procedimento.

Pesquisa de qualidade não começa pelo resultado. Começa muito antes dele.

Começa no desenho da amostra, passa pela escolha dos municípios e pontos de coleta, pela seleção dos entrevistados, pelo treinamento das equipes, pela fiscalização do campo, pela formulação neutra das perguntas e pelo tratamento estatístico. E termina com uma obrigação simples, embora nem sempre confortável, de aceitar aquilo que os dados dizem.

Continua após a publicidade

A urna não transforma pesquisa em ciência. Tampouco torna um instituto infalível quando seus números se aproximam do resultado eleitoral. Mas oferece uma oportunidade rara de submeter o trabalho realizado a uma referência externa e objetiva.

Em São Paulo, esse confronto entre pesquisa e realidade produziu evidências importantes para a Badra como proximidade expressiva na principal disputa estadual, leitura relevante da eleição para o Senado e identificação, antes da votação, dos nomes que terminariam como os mais votados para deputado federal e deputado estadual.

Não é necessário acrescentar adjetivos a esses fatos. Talvez a melhor maneira de celebrar a pesquisa seja justamente respeitar aquilo que está em sua essência, ou seja, deixar que os números falem.

Continua após a publicidade

Porque, quando há método, independência, ética e rigor, o resultado mais importante não é acertar para poder dizer que acertou. É demonstrar que a técnica funciona.

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IDP de Brasília. É consultor em análise de dados do Instituto Badra de opinião.