Em 1 de fevereiro de 1987, quando a Assembleia Nacional Constituinte foi instalada, o Brasil saía de 21 anos de regime militar e convivia com uma inflação fora de controle. Ainda assim, produziu uma das maiores mobilizações de sua história. Associações, sindicatos, movimentos negros e de mulheres levaram propostas a Brasília.
A Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes, organizada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, teve cerca de 80% de suas reivindicações incorporadas ao texto final.
No domingo (25/10 ), voltamos às urnas para escolher entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT), separados por menos de dois pontos no primeiro turno. A pergunta que deveria orientar a reta final é simples: a mãe solo que hoje decide entre pagar o aluguel e comprar o leite sabe o que cada um fará por ela a partir de 1 de janeiro?
Minha tese é que 1988 ensinou algo que 2026 esqueceu. Reivindicação social só se torna proteção quando vira instrumento de política pública, com regra, orçamento e responsável. A campanha atual faz o caminho inverso: converte problemas concretos em ruído e deixa sem compromisso verificável justamente quem mais depende do Estado.
Os fatos ajudam a dimensionar o vazio. Os dois finalistas não compareceram aos debates do primeiro turno, e encontros foram cancelados. O primeiro confronto do segundo turno, na TV Band, foi dominado por acusações mútuas de corrupção e teve pouca discussão de propostas. Nas redes, o recorte fora de contexto circula mais rápido do que qualquer plano de governo.
Enquanto isso, o supermercado segue sendo o indicador econômico que as famílias realmente consultam.
Em setembro, a alimentação no domicílio subiu 0,96%, com o tomate 37,8% mais caro e o arroz, 4,6%. A inflação em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta. Para quem vive no limite, cada décimo pesa no carrinho antes de pesar na estatística.
E quem vive no limite tem rosto. O Brasil tem 10,9 milhões de mães solo chefes de domicílio, segundo o Ipea; cerca de 62% delas são negras. A população em situação de rua chegou a 365,8 mil pessoas no fim de 2025, alta de 11,5% em um ano, e sete em cada dez são negras. Há mais de 30 mil idosos vivendo nas ruas. Não é coincidência que os mesmos rostos se repitam na base da pirâmide: a desigualdade brasileira é um processo secular, com raízes na escravidão.
Foi exatamente esse Brasil que a Constituinte tentou alcançar. A Carta de 1988 tornou o racismo crime inafiançável, reconheceu como família a mãe e seus filhos e elevou o piso das aposentadorias rurais de meio para um salário mínimo, medida que estudos do Ipea associam à redução da pobreza no campo. Não foram gestos simbólicos. Foram regras com fonte de financiamento e órgão responsável.
A diferença entre 1988 e 2026 não está na disposição da sociedade. Os movimentos existem e produzem diagnósticos de qualidade. Está no canal. Em 1987, havia um espaço institucional capaz de transformar demanda em norma. Hoje, a deliberação foi substituída pelo algoritmo, que premia a mobilização da própria base e o ataque ao adversário, não a persuasão por propostas.
O resultado aparece na disputa pela classe C, alvo de acenos de ambos os lados. De um, valorização do salário mínimo e fim da escala 6×1. De outro, corte de tributos e um programa de mais de R$ 200 bilhões para renegociar dívidas. São ofertas relevantes, mas pouco foi dito sobre como serão financiadas e como chegarão a quem não tem carteira assinada, conta bancária ou endereço fixo.
Quem vencer terá pouco mais de dois meses até a posse, e é aí que liderança institucional faz diferença. Três medidas são viáveis já na transição. Primeiro, um compromisso público com metas para três públicos, mães solo, idosos sem rede de apoio e população de rua, medidas por indicadores que o Estado já produz, como o CadÚnico. Segundo, a vinculação dessas metas ao Orçamento de 2027, ainda em tramitação no Congresso: o país já tem uma Política Nacional de Cuidados, e ela precisa virar vaga em creche, cuidador e moradia, não apenas lei. Terceiro, o fortalecimento dos conselhos de direitos, para que a participação que construiu 1988 volte a ter onde desembocar.
Fundações, investidores sociais e órgãos de controle têm papel nisso: cobrar rubrica, prazo e responsável, e não apenas boas intenções.
Em 1988, o Brasil escreveu na Constituição quem não podia ficar para trás. Em 2026, o mínimo que se espera é que alguém leia em voz alta.
