As meninas impedidas de estudar hoje podem fazer falta nos hospitais amanhã: por que as proibições no Afeganistão ameaçam a saúde de outras mulheres

Restrições à escola, à universidade e à formação em saúde interrompem a entrada de novas profissionais em um país onde mulheres já enfrentam barreiras para conseguir atendimento.

Cena ilustrativa de uma mulher afegã estudando em casa, sem retratar pessoa identificada. Imagem gerada por IA.

Cena ilustrativa de uma mulher afegã estudando em casa, sem retratar pessoa identificada. Imagem gerada por IA.

Uma menina termina o ensino primário e encontra o caminho para a próxima etapa fechado. Anos depois, um hospital precisa de uma profissional que poderia ter começado sua formação naquela sala de aula. A relação entre essas duas cenas ajuda a entender uma consequência das restrições impostas às mulheres no Afeganistão.

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A exclusão educacional afeta a autonomia das estudantes e compromete a formação de professoras, enfermeiras, médicas e parteiras. O problema não aparece apenas no futuro distante: um sistema que perde profissionais e restringe a entrada de novas trabalhadoras passa a enfrentar dificuldades crescentes para manter serviços.

A conexão foi destacada em uma publicação do perfil Contramão das Multidões. A apuração de organismos das Nações Unidas mostra que a questão ultrapassa uma oportunidade individual negada. Educação e acesso à saúde estão ligados por uma cadeia de formação que não pode ser reconstruída de um dia para o outro.

A interrupção acontece antes de a carreira começar

Desde o retorno do Talibã ao poder, em agosto de 2021, meninas foram impedidas de continuar a educação formal depois do nível primário. A proibição atinge a passagem para as séries seguintes, e não apenas o ingresso em cursos universitários.

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A UNESCO informa que o Afeganistão é o único país a proibir formalmente o acesso de meninas e mulheres à educação além dessa etapa. Em atualização de outubro de 2026, a organização voltou a mencionar aproximadamente 2,4 milhões de meninas excluídas do ensino secundário.

O número deve permanecer ligado à fonte e ao período da estimativa. Organismos podem empregar recortes e metodologias distintos ao contabilizar exclusão escolar. A dimensão do problema não depende de misturar levantamentos como se todos medissem exatamente a mesma população.

Para a estudante, cada ano sem acesso regular significa uma etapa de aprendizagem interrompida. Para a formação profissional, significa reduzir o grupo que poderá preencher os requisitos necessários a cursos futuros. O obstáculo surge muito antes da escolha de uma especialidade.

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A universidade também foi fechada às mulheres

A restrição ao ensino universitário feminino foi anunciada em dezembro de 2022. Ela interrompeu percursos de mulheres que já haviam alcançado uma fase de formação mais avançada, além de impedir novas entradas.

Uma graduação exige sequência de estudos, avaliações e reconhecimento das competências adquiridas. Interromper esse percurso não equivale apenas a adiar uma cerimônia de conclusão. A ruptura afeta a continuidade da aprendizagem e as condições de exercer uma profissão.

A UNESCO chama atenção para a reversão de avanços acumulados nas duas décadas anteriores. O país havia ampliado o acesso de meninas à escola, embora dificuldades importantes continuassem existindo. A proibição acrescentou uma barreira institucional a problemas que já exigiam recursos e planejamento.

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Também é importante distinguir decisões das autoridades de facto das experiências e posições de toda a população afegã. Famílias, estudantes e profissionais não formam um grupo de opiniões idênticas. As mulheres atingidas pelas restrições continuam sendo pessoas com projetos próprios, e não apenas números de um relatório.

A formação em enfermagem e obstetrícia perdeu uma passagem que ainda existia

Em dezembro de 2024, as restrições alcançaram instituições de formação médica e de saúde para mulheres. Relatos e documentos das Nações Unidas descrevem a interrupção de cursos ligados a áreas como enfermagem, obstetrícia e outras funções clínicas.

Esses programas tinham importância particular porque ainda ofereciam possibilidades de qualificação em um ambiente de exclusão crescente. Fechá-los reduziu uma das passagens disponíveis para mulheres que desejavam trabalhar no cuidado à população.

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O relatório do relator especial da ONU sobre o direito à saúde das mulheres afegãs registra consequências também para avaliações necessárias à entrada no mercado profissional. Assim, não basta considerar quem poderia iniciar um curso: mulheres próximas de concluir a formação também foram afetadas.

Enfermeiras, médicas e parteiras exercem funções diferentes, com exigências e competências específicas. Uma categoria não pode substituir automaticamente todas as outras. Manter a assistência exige equipes qualificadas e caminhos de formação compatíveis com cada atividade.

O atendimento feminino depende de profissionais que precisam ser formadas

Restrições de mobilidade, exigências de acompanhamento e normas de separação entre homens e mulheres dificultam o acesso à saúde. A ONU Mulheres descreve a combinação dessas barreiras com falta de recursos e limitações dos serviços.

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Em vários contextos, a possibilidade de uma paciente ser atendida depende da presença de uma profissional mulher. A aplicação das regras e as condições de atendimento variam, por isso é inadequado afirmar que nenhuma mulher pode ser atendida por um homem em qualquer circunstância.

O problema estrutural permanece: quando a assistência feminina depende fortemente de mulheres qualificadas, impedir sua formação enfraquece a capacidade de cuidar das pacientes. A restrição educacional e a barreira ao atendimento se reforçam.

A gravidez e o parto tornam essa relação especialmente visível, mas a necessidade vai além da maternidade. Mulheres precisam de acompanhamento, tratamento de doenças, atendimento de urgência e cuidados em diferentes fases da vida.

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Uma projeção do UNICEF mostra o tamanho do risco

No relatório The Costs of Inaction, publicado em 2026, o UNICEF analisa o efeito da exclusão educacional e das restrições à participação feminina no trabalho. A organização projeta perdas importantes de profissionais caso as condições permaneçam.

A estimativa indica que o Afeganistão pode perder até 20 mil professoras e 5.400 trabalhadoras de saúde até 2030. Trata-se de uma projeção condicionada à continuidade das restrições, não de uma contagem de demissões já ocorridas.

O dado ajuda a visualizar um processo de reposição interrompida. Profissionais envelhecem, deixam suas funções ou encontram dificuldades para continuar. Sem novas turmas concluindo a formação, o sistema perde a capacidade de renovar parte de sua força de trabalho.

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Na educação, menos professoras também pode significar mais obstáculos para as próximas estudantes. A escola prepara futuras profissionais e, ao mesmo tempo, depende de profissionais que tiveram acesso à escola. Romper esse ciclo em uma ponta pressiona a outra.

Aprender em casa preserva possibilidades, mas não substitui um sistema aberto

A UNESCO relata iniciativas comunitárias de alfabetização e desenvolvimento de habilidades, muitas delas voltadas a mulheres. Esses esforços mantêm espaços de aprendizagem em condições difíceis e ajudam a preservar vínculos com o estudo.

Entretanto, uma oportunidade comunitária ou remota não equivale automaticamente a acesso regular à escola, à universidade e à formação profissional reconhecida. Cursos da área de saúde, por exemplo, exigem atividades práticas e supervisão que não podem ser substituídas integralmente por materiais digitais.

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É importante reconhecer a iniciativa de estudantes e educadoras sem transformar sua resistência em justificativa para a continuidade da exclusão. Encontrar uma alternativa limitada não elimina o direito à formação completa.

Também é necessário evitar apresentar escolas religiosas como o único destino de todas as meninas. As trajetórias são diversas, e aprender em uma instituição religiosa não torna equivalentes as oportunidades de acesso ao currículo formal e às profissões.

O tempo da proibição é o tempo de uma geração

Cinco anos podem parecer pouco na história de um país, mas representam uma parte decisiva da escolarização. Uma adolescente que permanece fora da sala de aula perde etapas que normalmente preparariam a entrada em cursos e no trabalho.

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Reabrir o acesso é essencial, mas a recuperação também exige condições para retomar trajetórias interrompidas. Educação depende de continuidade, materiais, docentes, reconhecimento e segurança para participar. O efeito acumulado não desaparece apenas com uma mudança no calendário.

A crise afegã deixa uma ligação difícil de ignorar: impedir uma menina de aprender afeta a vida dela agora e reduz possibilidades de cuidado para outras pessoas depois. O futuro dos hospitais também começa na escola que ela deveria poder frequentar hoje.