Dona Maria expõe o fracasso do Estado na proteção de crianças

Transformar histórias em evidência é parte do caminho para qualificar a governança e exigir políticas públicas que, de fato, entreguem

A nova política nacional une União, estados e municípios em uma rede integrada de atendimento para combater o abuso infantil e evitar a revitimização.Criança

Criamos direitos sem garantir execução e estruturamos políticas sem presença efetiva nos territórios | Freepik

Dona Maria tem hoje 61 anos. Nasceu em São Paulo, filha de uma diarista e de um pedreiro, a mais velha de quatro irmãos. Sua infância é contada em fragmentos afetivos: a roça dos avós paternos, o fogão a lenha da família materna, a moda de viola ao fundo. Memórias simples e, ao mesmo tempo, o retrato de um Brasil que sempre exigiu maturidade precoce das suas crianças mais vulneráveis.

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Maria queria ser médica. Mas o sonho foi interrompido ainda na frase. “Encare a sua realidade”, diziam seus pais.

Não era apenas um conselho,  era um projeto de limitação social. Nos anos 70 e 80, ascender já significava apenas sobreviver na cidade grande. Sonhar além disso era visto como desvio.

Aos 13 anos, Maria já trabalhava como babá. Depois, como diarista. Foi nesse contexto que algo se revelou, algo que sempre existiu, mas nunca foi nomeado: um de seus patrões tentou tocá-la com intenção sexual.

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Hoje, isso tem nome.
Hoje, isso é crime.

Naquela época, não.

Ou melhor: havia previsão legal, mas faltava o essencial, reconhecimento, proteção e escuta. O Brasil dos anos 70 tratava a violência sexual como questão moral, não como violação de direitos. Crianças não eram reconhecidas como sujeitos de proteção integral.

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Havia uma clara fragilidade institucional na proteção e na resposta estatal , sem rede estruturada de acolhimento, sem mecanismos efetivos de denúncia e com baixa capacidade de escuta.

Maria não contou. E quando o silêncio quase virou palavra, foi interrompido por uma estrutura familiar que também não dispunha de repertório ou suporte para reagir.

Ela apenas parou de trabalhar naquele lugar.

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E seguiu.

Interrompeu os estudos na 5ª série para ajudar em casa. Trabalhou em lojas, em casas de família, até que a vida adulta chegou antes do tempo. Aos 19 anos, já era mãe  e, naquele momento, também se tornou mãe solo, sem apoio e sem qualquer rede de proteção, até se casar anos depois.

Mesmo assim, resistiu.

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Trabalhou como auxiliar em uma escola particular,  um espaço que simboliza muito sobre desigualdade no Brasil: sua filha a acompanhava, mas não como aluna. Era “a filha da funcionária”. Estudava depois, na escola pública.

Maria percorria até 10 km com a filha no colo, enfrentando chuva, cansaço e a ausência de condições mínimas de mobilidade. O vale-transporte? Muitas vezes era convertido em complemento de renda.

Esse detalhe revela mais do que esforço individual: expõe uma falha de capacidade do Estado na entrega e na coordenação das políticas públicas no território.

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Faltava:

  • Política efetiva de permanência escolar para meninas em situação de vulnerabilidade
  • Proteção estruturada contra o trabalho infantil, especialmente no âmbito doméstico informal
  • Rede integrada de enfrentamento à violência sexual infantil
  • Política de mobilidade com acesso digno
  • E, principalmente, estratégias capazes de interromper o ciclo intergeracional da pobreza

Maria só voltou a estudar depois do terceiro filho. Terminou o ensino médio, fez curso de nutrição e hoje finaliza Direito.

Sim, Direito.

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A menina que foi ensinada a “encarar a realidade” agora estuda as leis que, no passado, não a protegeram.

E talvez essa seja a maior evidência desta história: não se trata de superação individual trata-se de uma falha sistêmica na capacidade do Estado de interromper trajetórias de vulnerabilidade.

Seus filhos representam uma inflexão nesse ciclo:

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  • Filha: Marketing, pós-graduação e MBA
  • Outra filha: Contabilidade e pós-graduação
  • Filho: Logística
  • Caçula: Tecnologia da Informação

A pergunta que fica não é sobre mérito.

É sobre atraso institucional.

Quantas Marias foram necessárias para que o Brasil começasse  ainda que tardiamente a estruturar políticas públicas de proteção?

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E mais: quantas ainda vivem hoje o que Maria viveu ontem, sob novas formas de invisibilidade?

Essa não é apenas uma história.

É um retrato de um País que, por décadas, não falhou por acaso.

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Falhou por limitações no seu desenho institucional e, sobretudo, na sua capacidade de implementação.

O Brasil não pode mais se esconder atrás de boas leis. Avançamos na normativa, mas falhamos na governança. Criamos direitos sem garantir execução e estruturamos políticas sem presença efetiva nos territórios. O problema já não é falta de diagnóstico é falha de gestão, priorização e responsabilização.

É desse lugar que eu escrevo.

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Como alguém que atua com governança e políticas públicas, utilizo esta coluna para transformar histórias reais em evidência qualificada  não para expor, mas para revelar padrões estruturais que ainda sustentam a desigualdade no país.

Esse é o Brasil que me contam. E é também o Brasil que precisa ser analisado com rigor.

A história aqui relatada é real, preservada sob o nome de Dona Maria a seu pedido. Não se trata de exceção  trata-se de padrão.

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E é por isso que este espaço está aberto.

Se você viveu, presenciou ou carrega uma história que expõe falhas  ou caminhos  das políticas públicas, ela precisa ser registrada com responsabilidade.

Envie para: [email protected]

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Porque transformar histórias em evidência é parte do caminho para qualificar a governança e exigir políticas públicas que, de fato, entreguem.