Recentemente, fiz um post nas redes sociais com uma provocação: “Se eu fosse presidente, não faria política para administrar a pobreza. Faria política para criar prosperidade.”
A pergunta gerou uma reflexão que, para mim, é ainda mais importante do que a própria resposta: e se o Brasil começasse a olhar para suas periferias não apenas pelas carências, mas pela potência que existe nelas?
Resolvi entrar nessa provocação: e se eu fosse presidente?
Depois de tantos anos vivendo em Paraisópolis, construindo iniciativas, liderando movimentos e acompanhando de perto a realidade das periferias brasileiras, cheguei a uma convicção: o Brasil não precisa apenas de políticas para reduzir a pobreza. Precisa de políticas capazes de criar caminhos para que as pessoas possam construir uma vida mais próspera.
Isso parece uma diferença de palavras. Não é.
É uma diferença de visão de país.
Administrar a pobreza significa, muitas vezes, criar mecanismos para que as pessoas sobrevivam. Criar prosperidade significa construir condições para que elas possam escolher, empreender, trabalhar, estudar, desenvolver seus talentos, crescer e transformar suas próprias vidas.
Não estou dizendo que políticas de proteção social não sejam necessárias. Elas são fundamentais, especialmente para quem está em situação de vulnerabilidade. Mas elas não podem ser o ponto final.
O ponto final precisa ser a autonomia, a dignidade e a oportunidade.
Ao longo dos anos, vi pessoas que precisavam de uma cesta básica começarem a empreender. Vi mulheres transformarem habilidades em negócios. Vi jovens que não tinham perspectivas encontrarem uma profissão. Vi comunidades criarem soluções para problemas que muitas vezes o poder público e o mercado tradicional não conseguiam enxergar.
É por isso que acredito tanto na potência das periferias.
O G10 Favelas nasceu justamente dessa percepção: a favela não é apenas um lugar onde existem problemas. É também um território onde existem soluções, talentos, consumidores, empreendedores, trabalhadores, pesquisadores, artistas e lideranças.
Experiências desenvolvidas nas periferias mostram como a Favela Brasil Xpress que, quando oportunidade, capital, conhecimento e acesso chegam a esses territórios, existe uma enorme capacidade de criar soluções, movimentar a economia, fortalecer pessoas e transformar comunidades.
Então, se eu fosse presidente, começaria por mudar a pergunta.
Em vez de perguntar apenas “como vamos combater a pobreza?”, perguntaria:
“O que precisamos fazer para que milhões de brasileiros possam prosperar?”
E isso passa por algumas escolhas.
Eu defenderia uma educação que prepare para a vida e para o futuro. Uma educação que ensine não apenas conteúdos, mas também tecnologia, cidadania, criatividade, empreendedorismo, inteligência financeira e capacidade de resolver problemas.
Cuidaria das crianças desde o começo. Porque uma criança que recebe estímulo, alimentação, educação, afeto e oportunidades desde cedo tem muito mais possibilidades de construir um futuro diferente.
Criaria mecanismos para ampliar o acesso ao crédito para quem empreende. Não basta dizer ao morador da periferia que ele precisa empreender se, quando procura um banco, encontra portas fechadas. Capital também é oportunidade.
Criaria pontes para que empresas, universidades, investidores, governos e organizações da sociedade civil enxergassem os territórios periféricos como parceiros de desenvolvimento.
Porque também precisamos ampliar a nossa compreensão sobre o que significa resultado.
Resultado não é apenas lucro.
Uma empresa pode gerar resultado quando cria empregos, desenvolve pessoas, abre portas para novos talentos, fortalece uma cadeia produtiva, promove inovação, melhora a vida de uma comunidade e contribui para transformar uma realidade.
É claro que a sustentabilidade financeira é fundamental. Empresas precisam ser economicamente viáveis para continuar existindo, crescendo e gerando impacto. Mas, em uma sociedade que deseja prosperar, precisamos entender que desenvolvimento econômico e desenvolvimento social não são caminhos opostos. Eles podem, e devem, caminhar juntos.
Quando uma pessoa consegue abrir um negócio, ela não transforma apenas a própria vida. Pode gerar empregos, movimentar o comércio local, fortalecer fornecedores e inspirar outras pessoas.
Quando uma comunidade aumenta sua capacidade de produzir, empreender e consumir, ela também amplia sua participação na economia e cria novas possibilidades para seus moradores.
É assim que eu enxergo a prosperidade: não como o simples acúmulo de riqueza, mas como a capacidade de criar valor, gerar oportunidades e ampliar possibilidades de vida para mais pessoas.
E isso também significa olhar para a juventude.
Um jovem sem perspectiva não é apenas um problema social. É um talento que o país está desperdiçando.
Precisamos criar caminhos para que esse jovem possa escolher ser engenheiro, médico, advogado, professor, programador, empresário, artista, pesquisador ou qualquer outra coisa que desejar.
Eu aprendi isso ainda muito cedo. Muitas vezes, uma criança não consegue imaginar determinadas possibilidades simplesmente porque nunca viu alguém parecido com ela ocupando aquele espaço.
Representatividade também é infraestrutura de futuro.
E não podemos esquecer quem chegou aos 60, 70 anos ou mais. Uma sociedade próspera não pode tratar seus idosos como pessoas que já cumpriram sua função econômica. Experiência, conhecimento e capacidade de contribuir não desaparecem com a idade.
Precisamos criar dignidade, propósito e novas possibilidades para essa população.
Mas existe uma coisa que considero ainda mais importante do que qualquer programa de governo: precisamos construir pontes.
Pontes entre periferias e empresas.
Entre universidades e comunidades.
Entre investidores e empreendedores.
Entre conhecimento e oportunidade.
Entre quem possui recursos e quem possui talento.
Entre quem cria soluções e quem pode ajudá-las a ganhar escala.
Entre diferentes setores da sociedade que, quando trabalham juntos, conseguem produzir transformações que nenhum deles conseguiria alcançar sozinho.
O Brasil não vai prosperar se cada setor continuar trabalhando isoladamente.
Precisamos parar de enxergar a favela apenas como destinatária de políticas públicas e começar a enxergá-la também como parte da solução para o desenvolvimento do país.
Essa mudança de olhar não é apenas uma questão social. É também uma oportunidade de desenvolvimento.
Quando uma pessoa consegue abrir um negócio, ela pode gerar empregos e fortalecer outras pessoas ao seu redor. Quando uma mulher conquista autonomia financeira, isso pode transformar a dinâmica de toda uma família. Quando um jovem encontra uma oportunidade, não estamos apenas preenchendo uma vaga de trabalho: estamos ampliando sua perspectiva de futuro.
Quando uma comunidade prospera, os impactos ultrapassam seus limites.
Prosperidade não é apenas quanto uma pessoa ganha. É também quanto ela consegue crescer, escolher, participar, contribuir e transformar.
É por isso que precisamos pensar em desenvolvimento de maneira mais ampla.
Desenvolvimento econômico, sim.
Mas também desenvolvimento humano, social, educacional, cultural e comunitário.
É essa combinação que produz uma sociedade verdadeiramente próspera.
Mas existe uma outra provocação que fiz naquele post e que considero fundamental: não precisamos eleger heróis.
Não precisamos procurar um salvador da pátria.
Também não precisamos passar a vida procurando culpados.
Uma nação não é construída apenas por quem ocupa a Presidência da República.
Uma nação é construída por milhões de pessoas que acordam todos os dias e fazem a sua parte.
Você também é o seu próprio presidente quando assume responsabilidades.
Quando trabalha.
Quando empreende.
Quando estuda.
Quando cuida da sua família.
Quando participa da sua comunidade.
Quando abre uma oportunidade para outra pessoa.
Quando decide não reproduzir aquilo que precisa ser transformado.
É claro que o Estado tem responsabilidades enormes. Educação, saúde, segurança, infraestrutura, justiça e redução das desigualdades não podem ser transferidas para o indivíduo.
Mas também acredito que nenhuma política pública será suficiente se não conseguirmos despertar nas pessoas a percepção de que elas podem ser protagonistas das próprias histórias.
É essa combinação que me interessa: Estado funcionando, iniciativa privada participando e sociedade organizada construindo junto.
Foi essa lógica que vimos funcionar em diferentes experiências nas periferias.
E é essa lógica que quero levar para uma discussão ainda maior.
Não estou apresentando um plano de governo.
Estou fazendo um convite para pensar o Brasil.
Um convite para sairmos da lógica de que periferia é sinônimo de falta e começarmos a enxergar o que existe de abundante nesses territórios.
Talento.
Criatividade.
Trabalho.
Empreendedorismo.
Cultura.
Conhecimento.
Solidariedade.
Resiliência.
O Brasil tem uma enorme dívida social, mas também tem uma enorme oportunidade de desenvolvimento.
E talvez uma das maiores oportunidades de desenvolvimento do país esteja justamente onde, durante muito tempo, aprendemos a enxergar apenas problemas.
Nas periferias.
Por isso, continuo acreditando que a pergunta mais importante não é quem será o próximo presidente.
A pergunta é:
Que país queremos construir e qual será o nosso papel nessa construção?
Porque prosperidade não pode ser privilégio de poucos.
Prosperidade precisa ser oportunidade para todos.
E agora eu passo a pergunta adiante:
Se você fosse presidente, qual seria sua primeira decisão?
