E se eu fosse presidente?

E se o foco do país não fosse apenas administrar a pobreza, mas criar prosperidade? Descubra como a periferia pode ser a chave para o desenvolvimento do Brasil

Quando uma pessoa consegue abrir um negócio pode gerar empregos e movimentar o comércio local/Fernando Frazão/Agência Brasil

Recentemente, fiz um post nas redes sociais com uma provocação: “Se eu fosse presidente, não faria política para administrar a pobreza. Faria política para criar prosperidade.”

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A pergunta gerou uma reflexão que, para mim, é ainda mais importante do que a própria resposta: e se o Brasil começasse a olhar para suas periferias não apenas pelas carências, mas pela potência que existe nelas?

Resolvi entrar nessa provocação: e se eu fosse presidente?

Depois de tantos anos vivendo em Paraisópolis, construindo iniciativas, liderando movimentos e acompanhando de perto a realidade das periferias brasileiras, cheguei a uma convicção: o Brasil não precisa apenas de políticas para reduzir a pobreza. Precisa de políticas capazes de criar caminhos para que as pessoas possam construir uma vida mais próspera.

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Isso parece uma diferença de palavras. Não é.

É uma diferença de visão de país.

Administrar a pobreza significa, muitas vezes, criar mecanismos para que as pessoas sobrevivam. Criar prosperidade significa construir condições para que elas possam escolher, empreender, trabalhar, estudar, desenvolver seus talentos, crescer e transformar suas próprias vidas.

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Não estou dizendo que políticas de proteção social não sejam necessárias. Elas são fundamentais, especialmente para quem está em situação de vulnerabilidade. Mas elas não podem ser o ponto final.

O ponto final precisa ser a autonomia, a dignidade e a oportunidade.

Ao longo dos anos, vi pessoas que precisavam de uma cesta básica começarem a empreender. Vi mulheres transformarem habilidades em negócios. Vi jovens que não tinham perspectivas encontrarem uma profissão. Vi comunidades criarem soluções para problemas que muitas vezes o poder público e o mercado tradicional não conseguiam enxergar.

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É por isso que acredito tanto na potência das periferias.

O G10 Favelas nasceu justamente dessa percepção: a favela não é apenas um lugar onde existem problemas. É também um território onde existem soluções, talentos, consumidores, empreendedores, trabalhadores, pesquisadores, artistas e lideranças.

Experiências desenvolvidas nas periferias mostram como a Favela Brasil Xpress que, quando oportunidade, capital, conhecimento e acesso chegam a esses territórios, existe uma enorme capacidade de criar soluções, movimentar a economia, fortalecer pessoas e transformar comunidades.

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Então, se eu fosse presidente, começaria por mudar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “como vamos combater a pobreza?”, perguntaria:

“O que precisamos fazer para que milhões de brasileiros possam prosperar?”

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E isso passa por algumas escolhas.

Eu defenderia uma educação que prepare para a vida e para o futuro. Uma educação que ensine não apenas conteúdos, mas também tecnologia, cidadania, criatividade, empreendedorismo, inteligência financeira e capacidade de resolver problemas.

Cuidaria das crianças desde o começo. Porque uma criança que recebe estímulo, alimentação, educação, afeto e oportunidades desde cedo tem muito mais possibilidades de construir um futuro diferente.

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Criaria mecanismos para ampliar o acesso ao crédito para quem empreende. Não basta dizer ao morador da periferia que ele precisa empreender se, quando procura um banco, encontra portas fechadas. Capital também é oportunidade.

Criaria pontes para que empresas, universidades, investidores, governos e organizações da sociedade civil enxergassem os territórios periféricos como parceiros de desenvolvimento.

Porque também precisamos ampliar a nossa compreensão sobre o que significa resultado.

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Resultado não é apenas lucro.

Uma empresa pode gerar resultado quando cria empregos, desenvolve pessoas, abre portas para novos talentos, fortalece uma cadeia produtiva, promove inovação, melhora a vida de uma comunidade e contribui para transformar uma realidade.

É claro que a sustentabilidade financeira é fundamental. Empresas precisam ser economicamente viáveis para continuar existindo, crescendo e gerando impacto. Mas, em uma sociedade que deseja prosperar, precisamos entender que desenvolvimento econômico e desenvolvimento social não são caminhos opostos. Eles podem, e devem,  caminhar juntos.

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Quando uma pessoa consegue abrir um negócio, ela não transforma apenas a própria vida. Pode gerar empregos, movimentar o comércio local, fortalecer fornecedores e inspirar outras pessoas.

Quando uma comunidade aumenta sua capacidade de produzir, empreender e consumir, ela também amplia sua participação na economia e cria novas possibilidades para seus moradores.

É assim que eu enxergo a prosperidade: não como o simples acúmulo de riqueza, mas como a capacidade de criar valor, gerar oportunidades e ampliar possibilidades de vida para mais pessoas.

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E isso também significa olhar para a juventude.

Um jovem sem perspectiva não é apenas um problema social. É um talento que o país está desperdiçando.

Precisamos criar caminhos para que esse jovem possa escolher ser engenheiro, médico, advogado, professor, programador, empresário, artista, pesquisador ou qualquer outra coisa que desejar.

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Eu aprendi isso ainda muito cedo. Muitas vezes, uma criança não consegue imaginar determinadas possibilidades simplesmente porque nunca viu alguém parecido com ela ocupando aquele espaço.

Representatividade também é infraestrutura de futuro.

E não podemos esquecer quem chegou aos 60, 70 anos ou mais. Uma sociedade próspera não pode tratar seus idosos como pessoas que já cumpriram sua função econômica. Experiência, conhecimento e capacidade de contribuir não desaparecem com a idade.

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Precisamos criar dignidade, propósito e novas possibilidades para essa população.

Mas existe uma coisa que considero ainda mais importante do que qualquer programa de governo: precisamos construir pontes.

Pontes entre periferias e empresas.

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Entre universidades e comunidades.

Entre investidores e empreendedores.

Entre conhecimento e oportunidade.

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Entre quem possui recursos e quem possui talento.

Entre quem cria soluções e quem pode ajudá-las a ganhar escala.

Entre diferentes setores da sociedade que, quando trabalham juntos, conseguem produzir transformações que nenhum deles conseguiria alcançar sozinho.

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O Brasil não vai prosperar se cada setor continuar trabalhando isoladamente.

Precisamos parar de enxergar a favela apenas como destinatária de políticas públicas e começar a enxergá-la também como parte da solução para o desenvolvimento do país.

Essa mudança de olhar não é apenas uma questão social. É também uma oportunidade de desenvolvimento.

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Quando uma pessoa consegue abrir um negócio, ela pode gerar empregos e fortalecer outras pessoas ao seu redor. Quando uma mulher conquista autonomia financeira, isso pode transformar a dinâmica de toda uma família. Quando um jovem encontra uma oportunidade, não estamos apenas preenchendo uma vaga de trabalho: estamos ampliando sua perspectiva de futuro.

Quando uma comunidade prospera, os impactos ultrapassam seus limites.

Prosperidade não é apenas quanto uma pessoa ganha. É também quanto ela consegue crescer, escolher, participar, contribuir e transformar.

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É por isso que precisamos pensar em desenvolvimento de maneira mais ampla.

Desenvolvimento econômico, sim.

Mas também desenvolvimento humano, social, educacional, cultural e comunitário.

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É essa combinação que produz uma sociedade verdadeiramente próspera.

Mas existe uma outra provocação que fiz naquele post e que considero fundamental: não precisamos eleger heróis.

Não precisamos procurar um salvador da pátria.

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Também não precisamos passar a vida procurando culpados.

Uma nação não é construída apenas por quem ocupa a Presidência da República.

Uma nação é construída por milhões de pessoas que acordam todos os dias e fazem a sua parte.

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Você também é o seu próprio presidente quando assume responsabilidades.

Quando trabalha.

Quando empreende.

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Quando estuda.

Quando cuida da sua família.

Quando participa da sua comunidade.

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Quando abre uma oportunidade para outra pessoa.

Quando decide não reproduzir aquilo que precisa ser transformado.

É claro que o Estado tem responsabilidades enormes. Educação, saúde, segurança, infraestrutura, justiça e redução das desigualdades não podem ser transferidas para o indivíduo.

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Mas também acredito que nenhuma política pública será suficiente se não conseguirmos despertar nas pessoas a percepção de que elas podem ser protagonistas das próprias histórias.

É essa combinação que me interessa: Estado funcionando, iniciativa privada participando e sociedade organizada construindo junto.

Foi essa lógica que vimos funcionar em diferentes experiências nas periferias.

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E é essa lógica que quero levar para uma discussão ainda maior.

Não estou apresentando um plano de governo.

Estou fazendo um convite para pensar o Brasil.

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Um convite para sairmos da lógica de que periferia é sinônimo de falta e começarmos a enxergar o que existe de abundante nesses territórios.

Talento.

Criatividade.

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Trabalho.

Empreendedorismo.

Cultura.

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Conhecimento.

Solidariedade.

Resiliência.

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O Brasil tem uma enorme dívida social, mas também tem uma enorme oportunidade de desenvolvimento.

E talvez uma das maiores oportunidades de desenvolvimento do país esteja justamente onde, durante muito tempo, aprendemos a enxergar apenas problemas.

Nas periferias.

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Por isso, continuo acreditando que a pergunta mais importante não é quem será o próximo presidente.

A pergunta é:

Que país queremos construir e qual será o nosso papel nessa construção?

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Porque prosperidade não pode ser privilégio de poucos.

Prosperidade precisa ser oportunidade para todos.

E agora eu passo a pergunta adiante:

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Se você fosse presidente, qual seria sua primeira decisão?