Vivemos um paradoxo interessante no mundo corporativo: ao mesmo tempo em que somos cada vez mais cobrados por eficiência, precisão e redução de erros, também somos chamados a inovar, experimentar e fazer diferente. E existe uma tensão real entre essas duas coisas.
Quando estamos fazendo aquilo que já conhecemos, o erro deve ser evitado. Processos maduros precisam de consistência, disciplina e excelência. O erro pelo erro é sinal de que não temos inovação, é falha de execução.
Mas quando estamos tentando algo novo, o cenário é diferente. Não existe um caminho totalmente conhecido. Experimentar significa testar hipóteses, aprender, ajustar e, inevitavelmente, algumas vezes, errar.
Jean-Claude Biver, uma das grandes referências da indústria de luxo, defendia justamente essa ideia: o erro deve ser encorajado quando estamos tentando algo novo. Não o erro por negligência, mas aquele que nasce da coragem de experimentar, questionar e buscar um caminho diferente.
E é aqui que a liderança tem um papel fundamental. Cabe ao líder criar o ambiente em que as pessoas saibam que existe uma diferença clara entre errar por falta de atenção e errar tentando construir algo novo. Uma liderança que pune qualquer erro cria medo. E o medo é inimigo da inovação. Por outro lado, uma liderança que aceita qualquer erro cria complacência. E a complacência destrói a excelência.
O papel da liderança é estabelecer esse equilíbrio: exigir excelência na execução, disciplina nos processos e responsabilidade pelos resultados — mas, ao mesmo tempo, dar espaço, segurança e coragem para que as pessoas experimentem, questionem e inovem.
Precisamos ser intolerantes ao erro banal e tolerantes — ou até incentivadores — do erro que nasce da inovação. Porque uma cultura obcecada por não errar pode acabar criando uma organização que também não ousa.
No final, excelência não significa fazer tudo sempre da mesma maneira, sem erros. Excelência é saber quando a precisão é indispensável e quando é preciso ter coragem para experimentar.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de um líder: criar uma cultura em que as pessoas tenham medo de executar mal, mas nunca tenham medo de tentar algo novo. Porque inovação não acontece quando temos todas as respostas. Acontece quando temos coragem de fazer as perguntas, testar as respostas e aprender rapidamente com aquilo que não funcionou.
