FOLIO: onde a língua encontra os cidadãos

No FOLIO 2026, em Óbidos, literatura, língua e cidadania aproximam Brasil e Portugal em encontros que atravessam fronteiras e vozes

José Manuel Diogo com o escritor britânico Salman Rushdie no Folio em Óbidos em outubro de 2016 / Arquivo Pessoal

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Um sonho Yanomami numa vila portuguesa. No FOLIO deste ano, Davi Kopenawa levará a Óbidos uma conversa intitulada “Um sonho Yanomami”. Ana Maria Gonçalves e Valter Hugo Mãe encontrar-se-ão numa mesa chamada “Mãe”; Kiran Desai e Leila Slimani conversarão sob a palavra “Real”.

O programa aproxima experiências que uma palavra pode reunir sem as tornar iguais. É nessa diferença que um festival literário começa a interessar-me.

Ajudei a fundar o FOLIO e fui o seu diretor de comunicação nas três primeiras edições. Voltar é encontrar uma ideia que aprendeu a viver sem nós. Entre 8 e 18 de outubro, sob o tema “Para além da pele”, quero regressar com a curiosidade de quem reconhece o lugar e ainda tem perguntas a fazer. Que mundo cabe numa vila? E que parte desse mundo levamos connosco quando saímos de uma conversa?

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Estarei com Ângela Berlinde, artista e investigadora ligada à fotografia, e com José Inácio Vieira de Melo, poeta alagoano radicado na Bahia. Falaremos de língua, de cidadania e da passagem entre o lado de lá e o lado de cá.

Gosto desta vizinhança entre imagem e verso: o que aprendemos a ver muda o que conseguimos dizer; uma palavra pode obrigar-nos a olhar outra vez.

Entre Portugal e o Brasil, a língua oferece uma proximidade que precisa de trabalho. Para um livro atravessar o Atlântico são necessários editores, livreiros, bibliotecas, leitores. Quem escolhemos publicar? A quem damos espaço? Que vozes ficam à porta? Chamar ponte à nossa relação obriga-nos a cuidar da passagem e a perguntar quem ainda não consegue fazê-la.

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A presença de Kopenawa alarga essa pergunta. Uma conversa sobre cidadania da língua precisa de acolher também quem chega de outras línguas, com outras memórias e maneiras de conhecer.

O português pode ser lugar de encontro se souber escutar aquilo que ainda não tem palavras para dizer. Também por isso, o diálogo entre Brasil e Portugal ganha quando se abre às vozes africanas e asiáticas, à tradução e ao que resiste a ser traduzido.

“Para além da pele” sugere essa disponibilidade. Reconhecer o outro exige mais do que perceber o seu sotaque: exige dar tempo à sua história. Volto a Óbidos para participar nessa escuta. Gostaria que, depois da conversa, alguém procurasse um autor que desconhecia, abrisse um livro e levasse a pergunta para casa. Talvez a cidadania comece também aí: quando a voz de outro passa a ter lugar dentro de nós.