José Inácio Vieira de Melo é um poeta alagoano radicado na Bahia. Um vaqueiro que me faz pensar num cowboy americano instalado em Jequié. Passou a infância sendo adulto e passa a idade adulta sendo criança. É generoso, inseguro, disponível para o espanto. Tem, para mim, muitas das condições necessárias a um poeta: alguma dificuldade em acomodar-se ao mundo e uma enorme vontade de se entregar a ele.
Um parêntesis para sempre mostra a maturidade dessa poesia. A edição da Mondrongo é cuidada, com capa e ilustrações de Lia Testa. O coração entre parêntesis, logo na capa, aproxima o corpo da escrita. Há uma atenção ao livro como objeto, ao encontro entre imagem, palavra e espaço da página. A apresentação gráfica acompanha uma voz que sabe de onde vem e se permite ir longe.
Em “Primeira epifania”, reconheço aquela criança que o adulto guardou. Um copo vazio basta para conter o mar; uma televisão fora do ar permite inventar. Depois, um coice de cavalo atira o adolescente pelo Cosmo. A lembrança tem humor, exagero e a liberdade de quem ainda pode transformar o que viveu. O desejo completa essa descoberta, fazendo do corpo um lugar onde tudo se ilumina.
É uma poesia feita no Nordeste e capaz de chegar muito longe dele. O cavalo, a infância e a paisagem dão matéria a experiências que qualquer leitor pode reconhecer: crescer, desejar, sentir medo, descobrir que o mundo excede aquilo que conseguimos explicar. A universalidade nasce dessa precisão. Quanto mais o poeta se aproxima da sua terra e das suas memórias, mais possibilidades abre à memória dos outros.
A maturidade interessa-me sobretudo por isso: José Inácio conserva o poder de brincar e trabalha a linguagem para nos fazer participar. Quando escreve que “qualquer vivente se constela”, o exagero do episódio encontra uma palavra exata. O adulto conhece o ofício; a criança continua a querer experimentar. Reconheço nessa convivência uma parte da sua força como poeta.
Gostaria de ver esta poesia nos grandes escaparates do Brasil e do mundo, com uma presença à altura da sua força. José Inácio já tem leitores, traduções e reconhecimento; merece uma circulação mais ampla. Este livro oferece uma boa ocasião para o descobrir. O vaqueiro traz consigo o Nordeste, e dentro dele cabe uma humanidade inteira. Cabe também o menino que ainda se espanta com o tamanho do mar.
Um parêntesis para sempre — José Inácio Vieira de Melo • Mondrongo • 130 páginas.
Nota de entrega: 2.337 caracteres com espaços no corpo, sem quebras de parágrafo. Título, ficha e notas fora da contagem.
MELO, José Inácio Vieira de. Um parêntesis para sempre. Ilhéus: Mondrongo, 2026. 130 p.
CRUZ, Décio Torres. Um poeta vestido de sol e fogo. Cavaleiro de Fogo, 22 fev. 2024. Fonte biográfica
