Encontrei Michael Cunningham em Óbidos. Na legenda da nossa fotografia , escrevi que tínhamos tentado salvar o mundo durante pelo menos cinco minutos. Ainda não era tarde. Por mensagem, perguntei-lhe: «Let’s find reality?» Talvez encontrar a realidade dependa de bebermos juntos um copo de vinho.
Leio As Horas com essa pergunta. Virginia Woolf escreve Mrs. Dalloway; Laura Brown procura caber numa vida doméstica que a sufoca; Clarissa Vaughan prepara uma festa para Richard, um amigo gravemente doente. Vivem em épocas diferentes, mas Cunningham aproxima-as através da distância entre a vida que conseguem mostrar e aquela que lhes acontece por dentro.
Comprar flores pode ocupar uma manhã e convocar uma juventude inteira. Clarissa tem cinquenta e dois anos, mas a lembrança de um dia aos dezoito atravessa a rua com ela. O passado participa nos recados, interfere nos afetos, muda o peso das decisões. Conhecemos esse modo de viver várias idades ao mesmo tempo. Raramente sabemos escrevê-lo.
É aí que Cunningham me interessa. A precisão com que acompanha um gesto permite-lhe chegar ao que a personagem não saberia explicar. A aparente normalidade de uma casa pode esconder uma vida difícil de suportar. E a alegria de preparar uma festa pode coexistir com o medo de perder alguém. Há uma exigência nesta atenção: suspender o julgamento até percebermos um pouco melhor quem temos diante de nós.
Numa das epígrafes, Virginia Woolf fala das cavernas que escavou por trás das suas personagens. Essas profundidades acabam por se ligar e vir à superfície no presente. Gosto da imagem porque dá espessura a quem vemos passar. Cada pessoa traz consigo espaços a que uma conversa apressada dificilmente chega.
Borges, na outra epígrafe, procura o tigre que existe para lá do poema. A literatura conhece os limites das palavras e continua a tentar. A pergunta que enviei a Cunningham cabe nessa procura, com a vantagem de admitir uma resposta muito concreta: sentarmo-nos à mesa e continuarmos a conversa.
Entre os livros de lá e de cá, este chega-me pela Gradiva, na tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. No Brasil, pode ler-se na tradução de Beth Vieira, pela Companhia de Bolso. Fica o convite para o vinho. Cinco minutos talvez cheguem para tentar salvar o mundo. Para conhecer um pouco melhor quem o habita, convém reservar mais tempo.
