Desafios ao longo de 80 anos

A lucidez para interpretar as principais questões de cada época é pressuposto para a ação

Sesc São Paulo completa 80 anos neste mês de setembro/ Divulgação/Sesc

Ao longo dos últimos meses, diversos temas estiveram presentes nesta coluna. Falamos da dimensão econômica da cultura, da violência contra as mulheres, do direito ao lazer, da emergência climática, entre outros assuntos. Todos eles atravessam a realidade da instituição na qual atualmente ocupo o cargo de Diretor Regional, o Sesc São Paulo. Neste mês de setembro, a entidade completa 80 anos, e penso que é hora de refletir acerca das mudanças que o país e o mundo experimentaram nesse arco temporal.

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Quando o Serviço Social do Comércio foi criado, em 1946, por iniciativa do empresariado do comércio de bens, serviços e turismo, o panorama era bastante específico. Seria possível comparar os principais desafios daquele contexto com aqueles que hoje enfrentamos?

A segunda metade dos anos 1940 trazia ao menos três grandes dilemas. O primeiro deles se referia à reconstrução da convivência pacífica entre os países após a Segunda Guerra Mundial. Para tanto, as nações optaram pelo multilateralismo, representado sobretudo pela Organização das Nações Unidas – que, mesmo com suas limitações, teve papel fundamental na manutenção de um delicado equilíbrio geopolítico no globo.

O segundo desafio atingia em especial o Brasil: experimentávamos à época um acelerado processo de urbanização, que demandou a orquestração de diversas forças a fim de garantir condições mínimas de salubridade nas cidades que se agigantavam.

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Por fim, havia o tema da desigualdade e da fome, que no nosso país oprimia contingentes inaceitáveis. É importante assinalar que, no que diz respeito ao equacionamento de questões ligadas às dinâmicas urbanas e ao flagelo da inequidade, o surgimento de instituições como o Sesc funcionou como uma estratégia de enfrentamento, cujos frutos foram sendo colhidos com o passar dos anos.

Se transportarmos nossa imaginação de meados do século XX para o tempo presente, encontraremos, oito décadas mais tarde, um cenário de rupturas e continuidades, com três principais vetores a nos desafiar.

O primeiro deles salta aos olhos e parece não estar recebendo atenção à altura: a crise climática, que ameaça a vida humana com eventos extremos e atingirá de maneira brutal os grupos sociais mais vulneráveis.

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Além desse ponto incontornável, vivemos na última década um acirramento da animosidade e da beligerância, expresso tanto nas guerras espalhadas pelo planeta, como na violência política interna às fronteiras nacionais, que ameaça a própria democracia. Soma-se a tal estado de coisas a gravidade da discriminação racial e de gênero, que no Brasil chega a níveis insustentáveis.

Por fim, voltamos ao assunto que se confunde com a própria história humana: a desigualdade persiste no mundo, não obstante o notável progresso científico e tecnológico. O Brasil conseguiu avanços, é mister admitir, mas eles ainda não são suficientes para que vivamos em condições de equidade.

Em sua jornada de oitenta anos, o Sesc buscou colaborar, em parceria com outros entes, para enfrentar tais questões – o fez em São Paulo por meio da educação permanente, que se desenvolve nas mais variadas áreas. Em alguns casos, a intervenção direta é possível, como no envolvimento institucional com o combate à fome, por meio do programa Sesc Mesa Brasil. Em outros, trata-se de convidar os públicos a debater os aspectos mais candentes da atualidade, estimulando as pessoas a agir em prol do interesse coletivo.

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A aventura humana é precisamente esta: uma sucessão de provas compatíveis com cada contexto histórico, em relação às quais cumpre estar preparado. Para tanto, valores são fundamentais – respeito à diversidade, promoção da sustentabilidade e exercício da cidadania são aqueles que, atualmente, nos levam a sonhar com tempos mais justos e solidários.