Eu quero acreditar que o Brasil vai melhorar. E imagino que muita gente chegue à véspera desta eleição com a mesma vontade, acompanhada de um cansaço difícil de explicar. A pessoa continua se importando, acompanha o que acontece, tenta fazer uma escolha consciente. Só que, quando escuta mais uma promessa de transformação, alguma coisa dentro dela pergunta quanto tempo ainda será preciso esperar. O desejo permanece. A disposição para se entusiasmar é que parece menor.
Ao longo desta cobertura eleitoral, acompanhei todos os debates e fiz perguntas a pessoas que querem governar o país. Essa proximidade tem me feito pensar no tamanho da distância que pode existir entre uma resposta bem construída e a vida de quem está ouvindo. Eu trabalho com comunicação e oratória e acredito no valor da palavra. Justamente por isso, me incomoda quando o discurso parece se encerrar na própria capacidade de impressionar. Quem escuta precisa conseguir reconhecer o que aquilo tem a ver com sua vida.
Uma pesquisa Datafolha realizada entre 15 e 17 de setembro ajuda a observar a complexidade desse sentimento. Ao pensar no Brasil, 53% dos entrevistados disseram sentir medo do futuro. Em outra pergunta, 55% afirmaram ter mais esperança do que medo. São perguntas diferentes, cujas respostas me fazem pensar na possibilidade de continuar desejando uma melhora enquanto se teme o que vem pela frente. A esperança pode conviver com a insegurança. E talvez seja justamente esse esforço de continuar acreditando, apesar de tudo, que esteja pesando para tanta gente.
Existe um momento em que a decepção começa a alterar nossa relação com as boas notícias. Antes mesmo de conhecer uma proposta, já procuramos o problema escondido nela. A cautela pode nos proteger de algumas ilusões, mas também pode nos deixar permanentemente na defensiva. Fico pensando no quanto custa viver assim, tentando descobrir antecipadamente de onde virá a próxima frustração. Aos poucos, até a possibilidade de algo dar certo passa a parecer uma ameaça.
Um estudo publicado em 2023 no Journal of Personality and Social Psychology acompanhou participantes nos Estados Unidos e encontrou uma associação entre emoções negativas ligadas à política e menor bem-estar. Essas emoções também se relacionavam a uma maior disposição para agir politicamente. O resultado me faz pensar nesse esforço de continuar envolvido com aquilo que nos desgasta no cotidiano. Cuidar de si enquanto se mantém o interesse pelo país exige atenção aos próprios limites.
Também me preocupa a cobrança por entusiasmo. Como se estar cansado fosse sinal de ignorância, falta de consciência ou pouco amor pelo país. Há pessoas acompanhando esta eleição depois de jornadas exaustivas, com preocupações que não cabem em uma discussão nas redes. Exigir delas a mesma disponibilidade de quem tem tempo e segurança para debater transforma participação em mais uma medida de desempenho. O interesse pelo Brasil pode existir em alguém que hoje só consegue dizer que está difícil.
Talvez possamos começar por admitir isso sem vergonha. A frase “eu quero acreditar, mas estou cansado” merece ser ouvida inteira. Quando respondemos imediatamente com uma bronca ou um discurso motivacional, deixamos de perguntar o que aconteceu com aquela pessoa. O que ela esperava que já tivesse mudado? Qual dificuldade continua sem resposta? O cansaço ganha contornos mais claros quando conseguimos ligá-lo à experiência concreta de alguém. Essa escuta também ajuda a compreender o que uma mudança precisaria significar.
Para mim, lidar com esse desgaste envolve diminuir a obrigação de reagir a tudo. Há uma diferença entre acompanhar os acontecimentos e passar o dia inteiro exposto a uma sucessão de alarmes. Podemos escolher quando buscar informação, verificar uma afirmação antes de compartilhá-la e encerrar uma discussão que deixou de produzir entendimento. A atenção tem limites. Quando ela é consumida por cada provocação, sobra menos disposição para aquilo que realmente exige uma decisão.
Reconhecer esse desgaste pede honestidade de quem ocupa espaços de influência. Eu me incluo nisso. Temos responsabilidade sobre a maneira como descrevemos o futuro e sobre o volume de medo que colocamos nas conversas. Uma análise pode ser firme sem apresentar cada acontecimento como uma catástrofe definitiva. Quem escreve precisa lembrar que, do outro lado, há alguém tentando compreender o país enquanto administra preocupações que já são grandes. Quero que minhas palavras ajudem essa pessoa a pensar com mais clareza.
Também acho necessário tornar nossas expectativas mais concretas. Um país melhor significa o quê na vida de quem está lendo esta coluna? Conseguir atendimento? Voltar para casa com segurança? Ter alguma previsibilidade para trabalhar e sustentar a família? Dar nome ao que esperamos ajuda a avaliar o que acontece e a formular cobranças. Uma esperança que consegue explicar suas necessidades tem mais condições de perceber avanços, reconhecer insuficiências e exigir continuidade.
Isso exige cuidado com a tentação de jogar toda a responsabilidade sobre o cidadão. Quem enfrenta uma dificuldade já tem trabalho suficiente tentando sobreviver a ela. Governantes e instituições precisam responder pelas obrigações que assumem. A participação de cada um acontece dentro de condições reais, que são muito diferentes. É possível cobrar compromisso público sem dizer à pessoa exausta que o país só continua assim porque ela ainda não fez o bastante.
Há ainda uma disposição que gostaria de preservar em mim: a de rever uma expectativa sem sentir que preciso defender eternamente a escolha anterior. Quando transformamos uma opinião em parte intocável da nossa identidade, qualquer frustração vira uma ameaça pessoal. Acabamos gastando energia justificando o que nos decepcionou. Quero continuar capaz de reconhecer um acerto e de fazer uma cobrança, inclusive quando ela envolve alguém em quem depositei confiança. A lealdade aos próprios critérios exige essa liberdade.
A convivência também faz parte desse esforço. Tenho dificuldade de imaginar um futuro melhor construído por pessoas que se acostumaram a desejar a humilhação umas das outras. Discordâncias podem ser profundas e precisam ser discutidas com seriedade. Ainda assim, é possível sustentar uma posição sem transformar toda conversa em uma disputa sobre quem merece ser ouvido. O desgaste aumenta quando uma preocupação com o país passa a custar todos os vínculos ao redor.
E precisamos continuar vivendo enquanto esperamos. Encontrar alguém de quem gostamos, descansar ou dedicar atenção a um projeto pessoal pode parecer pequeno diante de tantos problemas. Mas existe uma vida acontecendo durante a espera, e ela também merece cuidado. Adiar toda alegria até que o cenário fique favorável nos coloca diante de uma condição impossível de garantir. Podemos nos importar com o destino coletivo e preservar momentos em que nossa cabeça consiga repousar.
Amanhã, o Brasil vai às urnas. Eu gostaria que cada pessoa pudesse chegar a esse momento com espaço para pensar, inclusive para reconhecer suas dúvidas. Nenhuma escolha elimina a necessidade de acompanhar o que vem depois. O resultado vai encontrar vidas que continuarão precisando de atenção na segunda-feira. Há compromissos que deverão sair do discurso e produzir consequências perceptíveis para quem acorda cedo, procura atendimento e tenta organizar o próprio futuro.
Continuo querendo um país melhor. Entendo, porém, que a confiança precisa encontrar motivos para se renovar. Quem está cansado tem o direito de pedir resultados, de fazer perguntas e de esperar que sua vida seja levada a sério. Quero que, algum dia, um país melhor seja reconhecido por quem vive nele antes mesmo de ser anunciado por quem o governa.
