Toda mulher, sem exceção, já passou, passa ou passará por alguma situação de humilhação, violência, intimidação ou assédio. E isso ocorre não por conta de sua roupa, comportamento, condição social, personalidade ou se estava sóbria ou não, é somente pelo simples fato de ser mulher.
Para homens como o advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho, o promotor Thiago Carriço de Oliveira e o juiz Rudson Marcos deve ser difícil se colocar no lugar de uma mulher que passa pela situação como a da promoter Mariana Ferrer. Infelizmente muito mais homens pensam da mesma maneira que estes senhores que protagonizaram cenas estarrecedoras durante o julgamento de acusação de estupro contra o empresário André de Camargo Aranha, na última semana.
As imagens da audiência on-line deixaram juristas, autoridades e principalmente as mulheres chocadas. A vítima sendo tratada como culpada e recebendo hostilidade daqueles que deveriam representar a Justiça. A bela imagem do símbolo da Justiça com a venda nos olhos aqui no Brasil é meramente ilustrativa. Aqui quem tem poder, nome, dinheiro ou cargo se privilegia e para esses, até se indaga como seria possível saber se a vítima queria ou não, se estava embriagada ou não. Então sim, houve o estupro, mas foi sem intenção.
Claro, porque um filho de um advogado influente nunca iria cometer um estupro intencionalmente, mas sem intenção, tudo bem. Tão vergonhoso quanto colocar a vítima em uma situação de ré é fazer toda essa manobra para conseguir inocentar um criminoso.
Importante salientar que para acontecer uma situação de abuso, preconceito ou assédio, existe sempre a relação de poder que define o opressor e o oprimido. Da mesma maneira que, muitas das vezes, para definir culpado e inocente existe quem tem poder e quem não tem.
Mariana Ferrer passou por essa situação porque teve a coragem de denunciar e acreditou que a Justiça estaria do seu lado. Lamentável constatar que não foi o que aconteceu, porém é preciso reforçar que quanto mais mulheres destemidas tivermos, mais chances de a Justiça ter que cumprir verdadeiramente seu papel. Ainda há promotores, juízes e agentes do judiciário que cumprem à risca suas funções e ainda há a sociedade que se indigna com as injustiças, pressiona e mostra quem é que precisa ser punido, de verdade: a corrupção, o preconceito e o machismo.
