Em um mundo que nos ensinou a ganhar tempo, talvez o próximo desafio seja reaprender a vivê-lo. Viagens, hospitalidade e pequenos rituais de presença podem nos ajudar nesse caminho.
Nunca tivemos tantas ferramentas criadas para ganhar tempo.
Fazemos check-in pelo celular, trabalhamos de qualquer lugar, resolvemos demandas em segundos, atravessamos cidades em poucas horas e carregamos praticamente um escritório inteiro no bolso.
Mas há uma pergunta que tenho me feito: O que estamos fazendo com todo esse tempo que aprendemos a economizar?
Porque, paradoxalmente, quanto mais ferramentas temos para ganhar tempo, mais encontramos maneiras de preencher cada minuto disponível.
Respondemos mensagens enquanto esperamos o embarque. Tomamos café olhando para o celular. Terminamos uma reunião e imediatamente entramos em outra. Chegamos a uma cidade diferente, mas continuamos vivendo exatamente no mesmo ritmo.
Mudamos de lugar sem necessariamente mudar de estado. E talvez seja justamente aí que o turismo possa assumir um papel ainda mais interessante na vida contemporânea.
Pequenos rituais de presença
Depois de mais de três décadas trabalhando com hotelaria, turismo e eventos, aprendi a observar não apenas para onde as pessoas viajam, mas como elas vivem aquele destino.
E tenho pensado cada vez mais que hotelaria, gastronomia, natureza, cultura e eventos podem oferecer algo que vai muito além do serviço ou do entretenimento.
Podem nos proporcionar pequenos rituais de presença. Tomar um café da manhã sem abrir o celular. Experimentar um prato típico. Caminhar por meia hora depois de uma reunião. Entrar no mar. Observar o pôr do sol. Conversar com alguém sem pensar na próxima tarefa. Conhecer um pouco da história daquele lugar. Ou simplesmente sentar e perceber onde você está.
Parece pouco. Mas talvez seja justamente o pouco que esteja nos faltando.
Pesquisas recentes do mercado de turismo já mostram uma busca crescente por viagens associadas a bem-estar, experiências significativas e desenvolvimento pessoal.
Isso revela uma mudança interessante: viajar começa a deixar de ser percebido apenas como uma pausa da rotina e passa também a representar uma oportunidade de cuidar de si.
A viagem foi a mesma. A experiência, não.
Imagine duas pessoas participando da mesma convenção. Mesmo voo. Mesmo hotel. Mesmas reuniões. Mesma agenda. Às 18 horas, uma delas sobe para o quarto, abre o computador e continua respondendo e-mails. A outra decide caminhar por 30 minutos. Observa o destino. Experimenta um restaurante local. Toma um café. Assiste ao pôr do sol.
Na manhã seguinte, ambas estarão novamente trabalhando. O compromisso profissional foi cumprido pelas duas. A viagem foi a mesma. A experiência, não. E existe algo ainda mais interessante: o tempo disponível também era o mesmo. O que mudou foi a maneira de habitá-lo.
É justamente nessa fronteira que cresce o chamado “bleisure” a combinação entre business e leisure, negócios e lazer.
Durante muito tempo, talvez tenhamos enxergado uma viagem corporativa apenas como deslocamento: aeroporto, hotel, reunião, jantar, aeroporto novamente.
Mas essa lógica mudou.
Pesquisas do mercado de viagens corporativas mostram que, entre gestores do setor, 71% enxergam melhora na satisfação e no bem-estar dos profissionais como um dos benefícios de combinar viagens de trabalho e lazer. Outros 68% apontam melhora no equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Mas talvez o ponto mais interessante seja perceber que não precisamos necessariamente acrescentar três dias à viagem para experimentar esse conceito.
Bleisure também pode caber em algumas horas.
Pode estar naquele intervalo entre o encerramento do congresso e o jantar. Na manhã livre antes do voo. Na caminhada depois da reunião. Na decisão de conhecer um pouco daquela cidade em vez de permanecer no quarto.
É transformar o destino em parte da viagem, e não apenas no endereço onde o trabalho aconteceu.
Do FOMO ao JOMO
Há outro movimento no turismo que diz muito sobre o momento que estamos vivendo.
Durante muito tempo, viajar bem parecia significar aproveitar tudo. Conhecer todos os pontos turísticos. Fotografar tudo. Preencher cada espaço do roteiro. Ter a sensação de que não poderíamos perder nada.
É quase a lógica do FOMO : Fear of Missing Out, o medo de estar perdendo alguma coisa.
Agora começa a ganhar espaço uma ideia praticamente oposta: JOMO , Joy of Missing Out. A alegria de não precisar fazer tudo.
Uma pesquisa internacional com milhares de viajantes identificou justamente essa busca por viagens com menos compromissos, mais tranquilidade e mais espaço para simplesmente estar.
E isso talvez diga muito mais sobre nossa sociedade do que apenas sobre turismo. Passamos anos tentando preencher todos os espaços. Agenda cheia. Roteiro cheio. Celular cheio de notificações. Dias cheios de compromissos.
Talvez estejamos começando a perceber que uma experiência não precisa estar cheia para ser completa.
JOMO pode significar escolher uma manhã sem roteiro.
Não visitar aquele último ponto turístico. Ficar mais tempo à mesa. Não fotografar o pôr do sol e simplesmente assisti-lo. Ou decidir que, por algumas horas, não precisamos estar disponíveis para tudo e para todos.
Talvez estejamos descobrindo que não precisamos viver tudo para sentir que estamos vivendo.
E os eventos?
Essa reflexão também deveria chegar aos eventos.
Levamos centenas de pessoas para destinos incríveis. Criamos convenções, congressos e encontros com agendas impecáveis, conteúdos relevantes e experiências cuidadosamente planejadas.
Mas talvez exista uma pergunta que nós, organizadores, empresas e profissionais de hospitalidade, precisemos começar a fazer:
Se levamos 500 pessoas para um destino e ocupamos cada minuto da agenda, estamos proporcionando uma experiência ou apenas transferindo a rotina acelerada do escritório para outro endereço?
Talvez proporcionar experiência também seja deixar espaço. Espaço para uma caminhada. Para conhecer o destino. Para uma conversa que não estava programada. Para aproveitar a natureza. Para não fazer nada durante alguns minutos.
Espaço também pode fazer parte da programação. Hospitalidade também pode ser autocuidado É aqui que acredito existir uma oportunidade enorme para o turismo e para a hospitalidade.
Não apenas criar lugares para dormir, comer, viajar ou realizar eventos. Mas criar ambientes que nos convidem a estar presentes.
Uma boa gastronomia pode ser um ritual de presença.
Uma caminhada pela natureza pode ser um ritual de presença.
Uma mesa compartilhada pode ser um ritual de presença.
Um intervalo verdadeiro durante uma convenção pode ser um ritual de presença.
Até um café tomado sem pressa pode ser.
Talvez a hospitalidade contemporânea tenha também essa função: nos lembrar de coisas simples que a velocidade da vida nos fez esquecer.
Porque autocuidado não precisa significar necessariamente uma semana de férias, um retiro ou um spa.
Talvez autocuidado não seja apenas encontrar tempo para parar. Seja aprender a encontrar pausas dentro da vida que já temos.
E isso vale para quem está viajando de férias, para quem participa de um congresso, para quem está em uma convenção corporativa ou simplesmente para quem tem algumas horas disponíveis entre dois compromissos.
Talvez o verdadeiro privilégio contemporâneo seja conseguir estar inteiro onde estamos.
Olhar. Experimentar. Respirar. Conversar. Descobrir.
Estar presente.
Porque podemos atravessar oceanos, conhecer dezenas de países e colecionar centenas de fotografias.
Mas existe uma diferença enorme entre passar por um destino e permitir-se vivê-lo.
Por isso, na sua próxima viagem, mesmo que seja a trabalho , talvez valha colocar uma coisa a mais na bagagem:
a decisão de deixar um pouco da pressa para trás.
