O Maçom Seresteiro de Porto Feliz

Realidade ou ficção, a pitoresca história é mais um conto que compõem a trajetória da Loja Intelligência, a Célula Mater da Maçonaria Paulista, ao longo dos 192 anos de sua fundação

O Maçom Seresteiro de Porto Feliz

O Maçom Seresteiro de Porto Feliz | Ilustração: Domínio Público

Vila de Porto Feliz, 19 de agosto de 1831, noite de sexta-feira. Um militar devidamente fardado sai de sua residência nas imediações do Quartel da Guarda Nacional e segue a passos firmes pelas vielas tortuosas e esburacadas guiado pela luz refletida da lua e pela tênue iluminação das tochas incandescentes. Seu destino, não muito distante, é uma casa de residência bem construída para os padrões da época, localizada no caminho largo e sem saída (atual Rua José Martins Bastos), cujo terreiro se limita com as margens lendárias do velho Rio Tietê.

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Nessa casa ocorreu a reunião com outro militar, seu proprietário, com a finalidade de fundar neste solo bendito de Araritaguaba a primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo, à qual foi dada a denominação de “Intelligência”.  O militar visitante era Luiz Luciano Pinto e o visitado era João Baptista Lobo de Oliveira, ambos oriundos da Loja Razão de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, onde o primeiro integrava o quadro de obreiros, sem cargo maçônico definido e, o segundo, ocupava o cargo de Mestre de Cerimônias.

A história narra que a reunião levada a efeito pelos ilustres maçons militares estendeu-se pela noite, pois muitos eram os planos a serem traçados e maior ainda a responsabilidade assumida junto ao Grande Oriente do Brasil. É gratificante imaginar e sentir as vibrações emanadas dos trabalhos daqueles dois irmãos militares, realizados, certamente, sob o facho de luz que emanava dos pavios azeitados das velhas lamparinas, pois a luz elétrica só chegou a Porto Feliz em 1912.

Diz a lenda que os trabalhos de fundação da Loja Intelligência já avançavam a madrugada quando ao longe, uma voz encantadora rompeu o silêncio, sob os plangentes acordes de um violão em serenata! Nesse momento os preciosos afazeres dos irmãos fundadores foram momentaneamente interrompidos para que sentissem na alma a magia e o encanto daquela canção!

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Descobriu-se, posteriormente, que o surpreendente instante poético havia sido proporcionado pelo alfaiate, músico e cantor Manoel Ignácio de Faria, homem muito considerado na Vila de Porto Feliz.

Em que pese o fato de a seresta ocorrida naquela madrugada não ter relação direta com a histórica fundação da primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo, não se pode negar que, por obra do Grande Arquiteto do Universo, aquele momento revestiu-se de poesia por encantar os corações dos irmãos fundadores e, também, por sugerir um dos primeiros nomes que viriam a integrar o quadro oficial de obreiros da Oficina recém fundada! Sob essa inspiração e também por seus dotes de cidadão honrado e justo, o seresteiro Manoel Ignácio de Faria, nascido na Vila de Porto Feliz no ano de 1805, foi iniciado nos augustos mistérios maçônicos pela Loja Intelligência no dia 30 de janeiro de 1832, elevado em 01 de fevereiro de 1832 e exaltado no dia 02 de fevereiro de 1832, coisa comum naquele tempo em que a maçonaria dava os primeiros passos de sua grande caminhada pela Província de São Paulo.

De acordo com os registros encontrados Manoel Ignácio de Faria adotou o nome simbólico de “Epaminondas” e, em 06 de maio de 1832, foi eleito pelos irmãos do quadro, para compor a Primeira Administração Oficial da Loja Intelligência, onde exerceu, exemplarmente, o cargo de Mestre de Cerimônias.

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A Vila de Porto Feliz, como bem sugere sua denominação, sempre foi festiva, desde a época em que os bandeirantes e monçoeiros partiam do Porto de Araritaguaba em venturosas navegações pelo Rio Tietê, rumo aos sertões do Brasil central.  Já naqueles saudosos tempos suas noites eram o palco predileto dos trovadores notívagos que soltavam suas vozes melodiosas em memoráveis serenatas, ao som das flautas e dos violões!   Foi assim que a pacata Vila se fez famosa e animada pelo romantismo mágico dos instrumentos musicais habilmente manejados pelos saudosos e consagrados músicos e maestros!

Diz a história que o maçom Manoel Ignácio de Faria, além de tocar magistralmente vários instrumentos musicais, também tinha uma bela e melodiosa voz, fatores que o levaram a ser considerado um dos maiores seresteiros da Vila de Porto Feliz!  Os antigos moradores afirmavam que não havia uma data simbólica que não se tornasse motivo imperioso para que o maçom “Epaminondas”, carregasse seu plangente violão pela noite adentro, e encantasse corações nas suas memoráveis serenatas.

Não raras vezes “Epaminondas” reunia outros amigos com os quais formava um seleto grupo musical, fazendo ecoar nas noites geladas da Vila de Porto Feliz os imorredouros e tão saudosos acordes das vibrantes valsas de outrora!  Além disso Manoel Ignácio de Faria jamais se negou a atender pronta e gratuitamente, por meio da sua nobre arte, a todas as funções reais e eclesiásticas.

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Naqueles velhos tempos o aglomerado habitacional da Vila de Porto Feliz se concentrava nos arredores da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens, inaugurada no dia 09 de outubro de 1750.  Nessa região também estavam a Casa da Câmara e o Pelourinho, desde o dia 22 dezembro de 1797. Era esse, portanto, o palco natural das antigas madrugadas de serestas, magistralmente realizadas sob um céu salpicado de estrelas ou até mesmo encoberto pelo nebuloso sereno da noite.

Não havia um só cidadão na Vila de Porto Feliz que não fosse admirador da nobre arte desempenhada pelo maçom “Epaminondas”! Quer fosse nos festejos particulares, quer fosse em alguma solenidade pública, a presença musical de Manoel Ignácio de Faria era condição essencial para o sucesso.  Não encontramos registro da data exata do falecimento de Manoel Ignácio de Faria, o “Epaminondas”.

Certo é, todavia, que sua morte deixou um enorme vazio na alma enternecida de cada morador da Vila de Porto Feliz, que teve a elevada honra de desfrutar, naquela época, da sensibilidade artística e da lhaneza de alma do ilustre músico e cantor.

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Os antigos moradores costumavam contar, entretanto, que mesmo depois da sua morte a voz suave e melodiosa de Manoel Ignácio de Faria ainda se fazia ouvir nas madrugadas da Vila de Porto Feliz, sob os acordes chorosos da prima e do bordão, não raras vezes acompanhados pelo som angelical e contagiante dos saxofones e das flautas!

Lenda ou realidade não se pode negar, pela magia da saudade, que o cenário ao redor da quase tricentenária Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens na região central de Porto Feliz preserva, as doces recordações dos antigos tempos, impregnadas nos entalhes das velhas janelas e nos traçados ainda tortuosos e íngremes dos seus históricos caminhos!  Inegavelmente o maçom seresteiro Manoel Ignácio de Faria ou simplesmente “Epaminondas”, tem seu nome gravado na história.

Quer seja em tempo de verão sob um céu repleto de estrelas, quer seja nas madrugadas geladas sob a luz inspiradora da lua, sua voz ecoará por todo sempre no palco histórico deste Porto Feliz, como um sopro divino que as noites dos tempos jamais conseguirão apagar.

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Realidade ou ficção, a pitoresca história do maçom seresteiro da Vila de Porto Feliz é mais um conto, entre tantos outros, que compõem a trajetória da Loja Intelligência, a Célula Mater da Maçonaria Paulista, ao longo dos 192 anos de sua fundação!  Salve Terra das Monções / Tua gente varonil / Honrará tuas tradições / E a grandeza do Brasil!

 

Este conto foi premiado no 1º Concurso Literário Estadual promovido pelo Grande Oriente do Brasil de São Paulo.