Ninguém me contou que conhecer outros territórios me ajudaria a reconhecer o meu

Viagem e autoconhecimento podem transformar escolhas e revelar novos caminhos

Disney, grandes cidades, destinos que aprendemos a desejar como quem aprende os sinais de uma vida bem-sucedida. Foto: Mabdelrazek

Eu sabia quais lugares precisava conhecer antes de saber que vida queria viver. Disney, grandes cidades, destinos que aprendemos a desejar como quem aprende os sinais de uma vida bem-sucedida. Mas quem havia escolhido por mim? E quanto das minhas escolhas eu chamava de minhas apenas porque nunca tinha pensado em questioná-las? Em que momento as montanhas-russas passaram a despertar mais desejo do que uma floresta? Por que a modernidade de Dubai nos parece tão indispensável, enquanto os territórios que guardam nossa própria história podem esperar? Também faço parte dessas escolhas.

Continua após a publicidade

Conheci grandes cidades e reconheço o valor dessas experiências. Mas a facilidade com que desejamos o que todos desejam começou a me inquietar. Eu podia atravessar o mundo seguindo um roteiro e continuar sem perguntar o que me levava até ali.

Tive o privilégio de nascer em uma família que me ofereceu, desde pequena, oportunidades de explorar outros lugares e culturas. Minha mãe, especialista em organizar viagens, tinha espírito aventureiro. Meu pai explorava o que passava despercebido: o alicerce de uma construção, os galhos de uma planta, a história do local. Na infância, eu não compreendia por que nossos destinos eram diferentes dos de tantas famílias.

Queria o que as outras crianças queriam. Hoje percebo que meus pais me apresentavam possibilidades antes que eu soubesse escolhê-las. Aos poucos, a Disney perdeu espaço para os intercâmbios. Viver em outra cultura me retirava o privilégio de ser facilmente compreendida. Eu precisava encontrar palavras, pedir ajuda, suportar o desconforto de não saber.

Continua após a publicidade

Quem era eu quando ninguém conhecia minha história? Quando meu sobrenome, minha formação e tudo o que costumava me apresentar já não explicavam tanto? Mal sabia que conhecer outros territórios começava a revelar o meu. Mais tarde, os rios e as cachoeiras do nosso país passaram a ocupar um lugar maior nas minhas escolhas.

Sou bisneta e sobrinha de indígenas, mas carregar essa história não significava reconhecer o lugar dela na minha vida. Foi no contato com a natureza que comecei a compreender quanto me fazia falta essa conexão. Ali, minhas responsabilidades continuavam existindo, mas já não ocupavam todo o espaço.

Sem preencher cada intervalo, eu percebia o que vinha evitando: o cansaço, o sufoco, a distância entre a vida que sustentava e aquilo que desejava viver. Eu havia aprendido a corresponder tão bem que já tinha dificuldade de reconhecer quando estava representando. Quantas escolhas fazia para ser aceita? Quanto carregava como parte de mim apenas porque abandonar aquilo poderia decepcionar alguém? Como psicanalista, reconheço o lugar do divã nessa investigação. Também reconheço o que essas experiências me permitiram perceber. Longe dos papéis habituais, minhas máscaras ficavam mais visíveis.

Continua após a publicidade

A floresta não resolvia minha vida, mas me dava espaço para enxergar o que eu precisava mudar nela. Hoje, empresários e executivos buscam silêncio e recolhimento em experiências de bem-estar. Compreendo esse desejo.

Para mim, porém, desacelerar trouxe um desafio: depois de perceber o que me sufocava, como continuar vivendo da mesma maneira? Essa pergunta sustenta meu trabalho na AVENCA, conectando territórios a empresas e empresários que buscam desacelerar pelo encontro com a natureza e com outras culturas. O que descobrimos nesses encontros pode mudar as escolhas que fazemos ao voltar. Neste mês de outubro, irei novamente ao Peru para minha quinta missão voluntária.

Espero contribuir e reconhecer um pouco mais de mim nesse encontro. Continuo buscando respostas sobre a vida que quero construir e o legado que pretendo deixar. Ninguém me contou que conhecer outros territórios me ajudaria a reconhecer o meu. Fui descobrindo enquanto vivia.

Continua após a publicidade

De que adianta conhecer tantos lugares se continuo vivendo uma vida que não reconheço como minha?