A menopausa no escritório

Menopausa no trabalho ainda é um tema pouco discutido, apesar dos impactos dos sintomas na carreira e permanência de mulheres nas empresas

Menopausa no trabalho ainda é um tema pouco discutido, apesar dos impactos dos sintomas na carreira, produtividade e permanência de mulheres nas empresas.

Tem uma coincidência de calendário que quase ninguém comenta. Entre os 45 e os 55 anos, muitas mulheres chegam ao auge da carreira. É quando elas lideram, decidem, ensinam quem está chegando e carregam um conhecimento que só se constrói em vinte anos de trabalho.

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É também nessa fase que os sintomas da menopausa costumam pesar mais.

Ninguém planejou isso. E, na maioria das empresas brasileiras, ninguém fala sobre isso.

Este domingo, 18 de outubro, é o Dia Mundial da Menopausa. A data foi criada pela Sociedade Internacional de Menopausa justamente para tirar o assunto do silêncio. O tema deste ano é a dor crônica, aquela que aparece e não vai embora. Faz todo o sentido. Dor nas articulações e nos músculos é uma das queixas mais comuns dessa fase e uma das que menos gente liga à menopausa, a começar pelas próprias mulheres. Muitas vezes a menopausa chega disfarçada de outra coisa.

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O que os números já mostram

Em 2023, um estudo da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, ouviu mais de 4 mil mulheres que trabalhavam e tinham entre 45 e 60 anos. Uma em cada oito contou que os sintomas da menopausa já tinham atrapalhado a vida profissional dela: faltou ao trabalho, reduziu o horário, trocou de emprego ou se aposentou antes do previsto. Só com os dias de trabalho perdidos, os pesquisadores calcularam um prejuízo de 1,8 bilhão de dólares por ano.

E aqui no Brasil? Uma pesquisa feita no fim de 2024 com brasileiras de 40 a 55 anos mostrou que quase metade, 47%, sentiu algum impacto negativo no trabalho por causa da menopausa. Quase uma em cada cinco tinha medo de comentar os sintomas com os colegas. Nove por cento disseram ter sido discriminadas. E 7% largaram o emprego.

O que acontece antes de virar estatística

Antes de virar número, tudo isso acontece em silêncio.

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Ela dormiu três horas porque acordou várias vezes com calorões. Às oito da manhã entra numa reunião e a palavra simplesmente não vem. Conclui que está perdendo a capacidade e não conta para ninguém. Na semana seguinte, recusa um projeto que aos 40 teria aceitado na hora. As dores nos joelhos e nas mãos, que ela coloca na conta da idade ou do cansaço, deixam o dia mais longo. No ano seguinte, nem se candidata à promoção. Alguns anos depois sai da empresa, e no papel do desligamento está escrito “motivos pessoais”.

Nada disso é fraqueza. É o corpo mudando num ambiente que ainda não sabe dar nome ao que está acontecendo. E o mais importante: quase tudo isso tem tratamento, quando alguém pergunta.

Três leitores, três recados

Se você se reconheceu nesses parágrafos: o que você está vivendo tem nome, é estudado e tem tratamento. Isso vale também para aquela dor que você nunca ligou aos hormônios. Não quer dizer que sua capacidade acabou. Quer dizer que seu corpo entrou numa fase nova e que você merece informação sobre ela.

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Se você trabalha ao lado dela: aquilo que parece irritação ou distração pode ser noite mal dormida, dor ou uma dificuldade de concentração que nem ela sabe explicar. Na maioria das vezes, a pergunta certa não é sobre desempenho. É sobre como ela tem dormido.

E se você é líder: perder uma profissional com vinte anos de casa sem entender o porquê sai caro, e esse custo não aparece em nenhuma planilha. Coisas simples ajudam muito: horário flexível, poder ajustar a temperatura da sala e uma licença médica que dê para pedir sem passar vergonha. Isso não é só benefício. É uma das formas mais baratas de manter talentos.

Uma conversa que ainda precisa começar

Em poucos anos, as empresas brasileiras aprenderam a falar de saúde mental, de maternidade e de acessibilidade. Nenhum desses assuntos era fácil de discutir antes de alguém puxar a conversa. Em todos eles, foi preciso alguém dizer em voz alta o que todo mundo já vivia calado. Quando isso aconteceu, o problema deixou de ser de cada mulher que achava que só ela passava por aquilo. Passou a ser de todo mundo, e a ser resolvido em conjunto.

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A menopausa ainda está esperando esse momento. Segundo a Febrasgo, a federação que reúne os ginecologistas do país, são 35 milhões de brasileiras vivendo essa fase hoje. Muitas estão trabalhando agora, várias em cargos que levaram a vida inteira para conquistar. Elas não querem ser poupadas. Querem, mesmo sem saber como pedir, ser compreendidas.

Uma conversa não depende de lei, de verba nem de aprovação de ninguém. Pode começar hoje: em casa, no consultório, na reunião de segunda-feira ou na página de um jornal. No fim das contas, é dela que todo o resto depende. Nenhum cuidado chega a uma mulher sobre quem ninguém nunca falou.

Um dia no calendário não resolve nada sozinho. Mas pode ser a desculpa para a primeira conversa. E ela pode começar agora.