A principal estratégia de comunicação e oratória de Flávio Bolsonaro na entrevista à Globo: a ponte (bridging)

Análise da entrevista de Flávio Bolsonaro à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, em 16 de outubro de 2026, a nove dias do segundo turno: diante das perguntas difíceis, o candidato respondeu as perguntas usando uma técnica de comunicação muito conhecida

Globo/ Manoella Mello

Um dia depois de Lula, foi a vez de Flávio Bolsonaro sentar diante de Renata Lo Prete. Os dois enfrentaram o mesmo problema de qualquer entrevistado em campanha: como não entregar o enquadramento a quem pergunta. Lula resolveu cedendo um pedaço. Flávio resolveu trocando de assunto. Perguntado sobre a escala 6×1, voltou a um tema anterior. Perguntado sobre o dinheiro de Daniel Vorcaro no filme Dark Horse, falou do dinheiro da Globo. Perguntado se cogita nomear o pai, respondeu sobre o que o pai nunca quis. A pergunta chegava, e a resposta saía por outra porta. Isso não é improviso. É método, e os dois lados usam.

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O que é bridging (a ponte)

A técnica tem nome em qualquer manual de comunicação política: bridging, a ponte. Bridging é a estratégia de reconhecer a pergunta em uma frase, atravessar para a mensagem que você preparou e ficar lá. O manual resume em três letras, ABC: acknowledge (reconhecer), bridge (fazer a ponte), communicate (comunicar o que você quer). É uma técnica legítima, ensinada a executivos, atletas e políticos de todos os lados, e ela existe porque quem é entrevistado não tem obrigação de aceitar o enquadramento de quem pergunta.

O problema não é usar a ponte. É usar só a ponte. Flávio encurtou o “A”: quase não reconheceu a pergunta antes de atravessar. É uma escolha, não um erro de execução. Reconhecer a pergunta é, em parte, aceitar o enquadramento dela, e a campanha decidiu não aceitar nenhum enquadramento vindo da Globo.

Escala 6×1: a ponte que a entrevistadora não deixou passar

O caso mais claro foi a escala 6×1. Depois de meses contra o fim da escala, Flávio votou a favor da mudança, aprovada pelo Senado nesta semana e promulgada na manhã da entrevista. Renata perguntou sobre a contradição. Ele voltou a um tema anterior, disse que não faria economia com os mais pobres e citou atos do governo do pai. A entrevistadora esperou e devolveu: “Podemos voltar à 6×1”.

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Quando finalmente respondeu, a explicação foi uma ponte de outro tipo: “votei conforme o que ouvi nas ruas”, o exemplo da mãe solo que não consegue emprego com a escala engessada e a frase “sou a favor de mais liberdade”. Repare na arquitetura. A mudança de posição vira escuta, a escuta vira uma mãe, e a mãe vira um valor. E repare no que veio antes da ponte: uma concessão. Depois de meses contra, ele votou a favor e disse que respeitará a decisão do Congresso. É a mesma arquitetura que Lula usou na maioridade penal, ceder no mérito para não ser pautado pela contradição, e o critério para avaliar é o mesmo para os dois. Ele não explica por que saiu de onde estava; explica por que o novo lugar é bonito. Não basta dizer para onde você foi.

Dark Horse e Vorcaro: o contra-ataque como defesa

O momento mais tenso da noite foi o filme. Renata perguntou por que Flávio pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, se a produtora declarou custo de R$ 75 milhões. Flávio disse que o dinheiro era lícito, que era patrocínio, que não houve contrapartida e que o contrato não foi cumprido. Até aí, resposta. Depois veio a ponte mais arriscada da entrevista: comparou o patrocínio aos negócios de Vorcaro com o Grupo Globo e lembrou a demissão de um executivo da emissora depois de conversas reveladas.

Isso também tem nome: tu quoque, “você também”. Em vez de sustentar a própria posição, você aponta a posição do outro. Para quem já desconfia da Globo, o momento em que a jornalista separa os dois casos não é uma derrota: é a prova de que a emissora é parte interessada, e esse é exatamente o corte que a campanha quer ver circulando. O risco está no outro público. O contra-ataque transforma a entrevistadora em adversária, e a entrevistadora tem uma vantagem que o entrevistado não tem: ela controla a próxima pergunta. Renata separou publicidade de investimento privado, lembrou que o executivo deixou a empresa e seguiu. Para quem assistia sem lado, a ponte levou para um lugar onde quem decidia o caminho era ela.

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“Entendi que eu fiquei sem resposta”

A frase da noite não foi do candidato. Foi da jornalista. Perguntado duas vezes se apoia a retirada da identificação das munições usadas pelas forças de segurança, Flávio atravessou duas vezes. Renata encerrou: “Entendi que eu fiquei sem resposta”. A mesma coisa aconteceu quando ela perguntou se ele cogita nomear o pai para um cargo. Ele respondeu que o pai nunca manifestou interesse e que poderia consultá-lo informalmente. Ela insistiu: “Mas o senhor cogita nomeá-lo?”.

Aqui está o limite técnico da ponte, e ele é o espelho do limite da concessão controlada. Escrevi que a estratégia de Lula funciona até o eleitor responder “eu compreendi, apenas não achei suficiente”. A de Flávio funciona até quem pergunta responder “entendi que fiquei sem resposta”. A ponte funciona uma vez. Na segunda, vira desvio. Na terceira, vira o assunto. Quando a entrevistadora nomeia o vazio em voz alta, o telespectador não precisa mais perceber sozinho que a pergunta ficou sem resposta: alguém disse por ele. Em debate competitivo, isso tem regra: argumento não respondido conta para o outro lado.

Houve ainda um terceiro limite, mais raro: por duas vezes, Renata interrompeu o candidato para dizer que acusações contra Lula não tinham comprovação e que a entrevista seguiria fatos documentados, investigações oficiais e apurações da própria emissora. Quando a ponte é construída sobre um dado que a entrevistadora recusa, ela cai com o dado.

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Flávio também concedeu: 6×1 e mandato único

Flávio fez duas concessões, e as duas foram controladas. A primeira foi a 6×1: votou a favor do que combateu por meses e inseriu a mudança na própria narrativa, a da liberdade do trabalhador, em vez de adotar a narrativa adversária. A segunda foi mais sofisticada: a promessa de um único mandato. Parte do eleitorado associa o sobrenome que ele carrega ao risco de permanência no poder. Em vez de negar esse medo, ele cedeu a ele antes da pergunta e o transformou em compromisso. É a concessão que desarma a crítica entregando a ela, voluntariamente, uma parte do que ela poderia usar. Exatamente o que descrevi na entrevista de Lula. A diferença está no alvo: Lula concedeu sobre o passado do governo; Flávio concedeu sobre o futuro do próprio poder.

Duas audiências: quem assiste à íntegra e quem vê o corte

A estratégia tem uma lógica, e a lógica é a audiência dupla. Existe quem assiste aos 40 minutos na Globo e existe quem vai ver, no dia seguinte, um corte de 30 segundos no celular. A nove dias de um segundo turno em que sobram poucos indecisos, apostar na segunda audiência é uma decisão racional: a entrevista vira matéria-prima de mobilização. Para esse público, a resposta não precisa responder à pergunta; precisa conter a frase. Ajuste fiscal de R$ 200 bilhões. Guerra às facções. Mandato único. Lula citado em boa parte das respostas, inclusive nas que não eram sobre Lula. A palavra “motoboy” anotada na palma da mão, segundo o que circulou depois da entrevista, é o retrato disso: a mensagem estava decidida antes da pergunta. Chame de ensaio ou de disciplina. É o que todo consultor de comunicação política ensina, e Lula fez o mesmo com “a responsabilidade é minha”.

Para o corte, a ponte é perfeita: entrega a frase pronta, sem o contexto da pergunta. Para a íntegra, ela cobra: quem viu a sequência inteira viu a pergunta ficar no ar. A mesma resposta que fortalece uma audiência enfraquece a outra. Não existe estratégia de comunicação sem trade-off, e esse foi o trade-off da noite.

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A entrevista de Flávio na Globo funcionou? O limite da técnica

Como na análise sobre Lula, não vou transformar técnica em resultado. Quem já vota em Flávio pode ter visto firmeza e um candidato que não se deixa pautar pela Globo. Quem não vota pode ter visto alguém que não responde. Quem está indeciso viu as duas coisas e vai decidir com o repertório que já tinha. É assim que a comunicação política funciona: a mesma frase atravessa filtros diferentes antes de chegar a cada pessoa.

O que a análise consegue dizer é isto: a concessão controlada de Lula e a ponte de Flávio são respostas opostas ao mesmo problema, o de não entregar o enquadramento ao entrevistador. Lula cedeu um pedaço para disputar o resto. Flávio recusou o enquadramento, disputou o assunto inteiro e cedeu onde escolheu ceder. Nenhuma das duas é gratuita. A primeira paga em credibilidade na íntegra e cobra em entrega: se o eleitor achou pouco, a concessão não salva. A segunda paga em cortes e mobilização e cobra na íntegra: se o eleitor viu a pergunta ficar no ar, a mensagem não chega.


Micarla Lins é estrategista de comunicação, posicionamento e influência, fundadora e CEO da Lins and Co. Campeã de oratória e debates, TEDx Speaker e palestrante internacional, é também jornalista, apresentadora e colunista da Gazeta de São Paulo. Nas eleições de 2026, entrevistou candidatos à Presidência no programa De Olho no Poder. Mais análises sobre comunicação e poder no Substack.