Eu tinha planejado tudo. Carreira, relacionamento, independência financeira, check-up em dia. Fazia o que se espera de uma mulher organizada e informada, e eu era as duas coisas.
Durante anos senti o que muitas de nós sentimos e aprendemos a não dizer em voz alta. Um cansaço que o fim de semana não resolvia. Um sono que passava, mas não restaurava. O humor oscilando sem motivo aparente. E, com o tempo, uma coisa mais difícil de nomear: uma espécie de névoa, um esquecimento de palavras no meio da frase, uma lentidão que não combinava com a mulher que eu conhecia.
A explicação era sempre a mesma. Estresse. Excesso de trabalho. O normal da mulher moderna.
Ninguém me perguntou: e se o seu corpo estiver entrando em menopausa agora, aos 38 anos?
Os sintomas que não têm nome
Quando se fala de menopausa, fala-se de ondas de calor. É o sinal que a cultura reconhece, o que aparece na piada e na novela. Mas ele quase nunca é o primeiro.
Antes dele chegam outros, e chegam disfarçados. A dor articular que se atribui à idade ou à academia. A ansiedade nova, em uma mulher que nunca foi ansiosa.
O ressecamento e a queda de libido, sobre os quais quase ninguém conversa, nem com a amiga nem com o médico. A dificuldade de concentração, que a mulher interpreta como incompetência e esconde no trabalho. A perda de força, que ela chama de preguiça.
Cada um desses sinais, isolado, cabe em uma dezena de diagnósticos. Juntos, contam uma história. E existe um sinal que costuma passar despercebido justamente por ser o mais óbvio: o ciclo menstrual mudando de ritmo.
É sobre o ciclo que menos se pergunta. Ele encurta, alonga, some por dois meses e volta, e a mulher registra isso como um detalhe administrativo da própria vida. Ninguém a ensinou que aquele detalhe é o dado clínico mais importante que ela tem.
Mais comum do que se ensinou
A perda da função ovariana antes dos 40 anos tem nome: insuficiência ovariana prematura. Durante décadas, a estimativa aceita foi de que atingia cerca de 1% das mulheres. Duas metanálises publicadas na revista Climacteric, em 2019 e em 2023, sugerem números maiores, entre 3,5% e 3,7%.
São estimativas com variação importante entre os estudos, e é honesto dizê-lo. Mas a direção é clara: a condição é bem menos rara do que se ensinou a uma geração inteira de profissionais. E, para uma mulher de 38 anos, quase nunca é a primeira hipótese considerada.
Preciso dizer uma coisa que a indústria do bem-estar raramente diz. Dormir bem, comer bem, mover-se e cuidar do estresse são bons para todas nós, e continuam bons depois do diagnóstico. Mas não há evidência de que hábito de vida evite a insuficiência ovariana prematura.
Na maioria dos casos, a causa é genética, autoimune ou simplesmente desconhecida. Sugerir o contrário não é informação.
A pergunta é sua
O que mudou minha história não foi um tratamento sofisticado. Foi uma pergunta.
E é essa pergunta que eu gostaria de deixar aqui, porque ela não custa nada e não depende de ninguém. Na próxima consulta, com o profissional que for, diga: meu ciclo mudou, e eu quero investigar isso.
Se a resposta for estresse, insista. Se você usa contraceptivo hormonal, mencione — ele pode mascarar completamente o que está acontecendo, e muitas mulheres só descobrem quando param de tomá-lo.
Se for necessário investigar, existe um exame de sangue comum, disponível na rede pública, que responde a maior parte da dúvida.
Por que construí o que não existia
Quando finalmente entendi o que estava acontecendo comigo, procurei o lugar onde uma mulher nessa situação deveria ser cuidada. Um lugar em que o ginecologista, o nutricionista, o educador físico e o psicólogo conversassem entre si, olhando para o mesmo corpo. Um lugar em que a informação fosse científica sem ser incompreensível.
Não encontrei. E, procurando, esbarrei em uma coisa que me pareceu absurda.
A tecnologia aplicada à saúde da mulher — os aplicativos, os dados, os investimentos, a indústria inteira que se construiu na última década — foi desenhada em torno da mulher que menstrua e da mulher que engravida.
Quando o ciclo termina, ela some. Como se a saúde de trinta e cinco milhões de brasileiras tivesse acabado junto com a menstruação.
Foi por isso que fundei a NutrAlive. E é por isso que chamo esse território de menotech: ciência, dado e cuidado multidisciplinar aplicados especificamente à segunda metade da vida da mulher. Não nasceu de uma oportunidade de mercado. Nasceu de uma consulta que eu nunca consegui marcar.
Escrevo essa coluna como quem levou anos para conseguir formular a pergunta e que hoje passa os dias tentando fazer com que outras mulheres a formulem mais cedo.
Ninguém me perguntou. Mas eu posso perguntar a você. É assim que quero começar esta conversa: como está o seu ciclo?
