Ninguém me perguntou

Menopausa precoce pode começar antes dos 40 anos. Conheça os primeiros sintomas, entenda a insuficiência ovariana e saiba quando investigar.

Mudança no ciclo menstrual pode ser um dos primeiros sinais da menopausa precoce e merece investigação médica. Foto: Freepik

Mudança no ciclo menstrual pode ser um dos primeiros sinais da menopausa precoce e merece investigação médica. Foto: Freepik

Eu tinha planejado tudo. Carreira, relacionamento, independência financeira, check-up em dia. Fazia o que se espera de uma mulher organizada e informada, e eu era as duas coisas.

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Durante anos senti o que muitas de nós sentimos e aprendemos a não dizer em voz alta. Um cansaço que o fim de semana não resolvia. Um sono que passava, mas não restaurava. O humor oscilando sem motivo aparente. E, com o tempo, uma coisa mais difícil de nomear: uma espécie de névoa, um esquecimento de palavras no meio da frase, uma lentidão que não combinava com a mulher que eu conhecia.

A explicação era sempre a mesma. Estresse. Excesso de trabalho. O normal da mulher moderna.

Ninguém me perguntou: e se o seu corpo estiver entrando em menopausa agora, aos 38 anos?

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Os sintomas que não têm nome

Quando se fala de menopausa, fala-se de ondas de calor. É o sinal que a cultura reconhece, o que aparece na piada e na novela. Mas ele quase nunca é o primeiro.

Antes dele chegam outros, e chegam disfarçados. A dor articular que se atribui à idade ou à academia. A ansiedade nova, em uma mulher que nunca foi ansiosa.

O ressecamento e a queda de libido, sobre os quais quase ninguém conversa, nem com a amiga nem com o médico. A dificuldade de concentração, que a mulher interpreta como incompetência e esconde no trabalho. A perda de força, que ela chama de preguiça.

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Cada um desses sinais, isolado, cabe em uma dezena de diagnósticos. Juntos, contam uma história. E existe um sinal que costuma passar despercebido justamente por ser o mais óbvio: o ciclo menstrual mudando de ritmo.

É sobre o ciclo que menos se pergunta. Ele encurta, alonga, some por dois meses e volta, e a mulher registra isso como um detalhe administrativo da própria vida. Ninguém a ensinou que aquele detalhe é o dado clínico mais importante que ela tem.

Mais comum do que se ensinou

A perda da função ovariana antes dos 40 anos tem nome: insuficiência ovariana prematura. Durante décadas, a estimativa aceita foi de que atingia cerca de 1% das mulheres. Duas metanálises publicadas na revista Climacteric, em 2019 e em 2023, sugerem números maiores, entre 3,5% e 3,7%.

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São estimativas com variação importante entre os estudos, e é honesto dizê-lo. Mas a direção é clara: a condição é bem menos rara do que se ensinou a uma geração inteira de profissionais. E, para uma mulher de 38 anos, quase nunca é a primeira hipótese considerada.

Preciso dizer uma coisa que a indústria do bem-estar raramente diz. Dormir bem, comer bem, mover-se e cuidar do estresse são bons para todas nós, e continuam bons depois do diagnóstico. Mas não há evidência de que hábito de vida evite a insuficiência ovariana prematura.

Na maioria dos casos, a causa é genética, autoimune ou simplesmente desconhecida. Sugerir o contrário não é informação.

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A pergunta é sua

O que mudou minha história não foi um tratamento sofisticado. Foi uma pergunta.

E é essa pergunta que eu gostaria de deixar aqui, porque ela não custa nada e não depende de ninguém. Na próxima consulta, com o profissional que for, diga: meu ciclo mudou, e eu quero investigar isso.

Se a resposta for estresse, insista. Se você usa contraceptivo hormonal, mencione — ele pode mascarar completamente o que está acontecendo, e muitas mulheres só descobrem quando param de tomá-lo.

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Se for necessário investigar, existe um exame de sangue comum, disponível na rede pública, que responde a maior parte da dúvida.

Por que construí o que não existia

Quando finalmente entendi o que estava acontecendo comigo, procurei o lugar onde uma mulher nessa situação deveria ser cuidada. Um lugar em que o ginecologista, o nutricionista, o educador físico e o psicólogo conversassem entre si, olhando para o mesmo corpo. Um lugar em que a informação fosse científica sem ser incompreensível.

Não encontrei. E, procurando, esbarrei em uma coisa que me pareceu absurda.

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A tecnologia aplicada à saúde da mulher — os aplicativos, os dados, os investimentos, a indústria inteira que se construiu na última década — foi desenhada em torno da mulher que menstrua e da mulher que engravida.

Quando o ciclo termina, ela some. Como se a saúde de trinta e cinco milhões de brasileiras tivesse acabado junto com a menstruação.

Foi por isso que fundei a NutrAlive. E é por isso que chamo esse território de menotech: ciência, dado e cuidado multidisciplinar aplicados especificamente à segunda metade da vida da mulher. Não nasceu de uma oportunidade de mercado. Nasceu de uma consulta que eu nunca consegui marcar.

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Escrevo essa coluna como quem levou anos para conseguir formular a pergunta e que hoje passa os dias tentando fazer com que outras mulheres a formulem mais cedo.

Ninguém me perguntou. Mas eu posso perguntar a você. É assim que quero começar esta conversa: como está o seu ciclo?