O Hospital Sorocabana, na Lapa, zona oeste de São Paulo, está com as portas fechadas desde 2010, quando a Associação Beneficente dos Hospitais Sorocabana (ABHS) encerrou as atividades da instituição por dificuldades financeiras. De lá para cá, houve promessas dos prefeitos Fernando Haddad (PT) e João Doria (PSDB), além de planos do atual prefeito Bruno Covas (também do PSDB), para a sua reativação. Mas, por ora, pouco saiu do papel.
Desde 1955, quando foi inaugurado, o hospital era a referência dos moradores da região. Em seu ano final de funcionamento, 20 mil pessoas eram atendidas mensalmente no local pelo Sistema Público de Saúde (SUS), que contava com 156 leitos, maternidade, neonatal, traumatologia e UTI adulta. Os equipamentos passaram a acumular poeira. O prédio abriga atualmente uma unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) e uma do Hora Certa. São oferecidos exames, consultas e cirurgias simples.
O terreno pertence ao governo do estado de São Paulo, que concedeu sua posse em 2012 à prefeitura de São Paulo pelo período de 20 anos. Em agosto deste ano, o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo leiloou o prédio para pagar dívidas trabalhistas da ABHS. Uma juíza do trabalho, porém, suspendeu o leilão pouco tempo depois.
Hoje, parte dos moradores da Lapa e região luta para reativar o hospital. É o caso da professora Lucia Sromov, 73 anos, que participa do Comitê de Defesa do Hospital Sorocabana. Ela fala com entusiasmo sobre a importância da instituição. “Noventa por cento das pessoas que nasceram ou morreram na região da Lapa tiveram sua história relacionada ao Sorocabana”, afirma.
Skromov viveu os últimos 48 anos no bairro vizinho da Vila Ipojuca. Ela já passou por consultas, cirurgias e até pelo pré e pós-natal de sua filha (entre 1975 e 1976) na instituição. Era tudo gratuito e, em suas palavras, de muito boa qualidade.
“Frequentei o hospital a vida inteira, e também muita gente da Lapa, Vila Romana, Pirituba. Era um hospital bem cuidado. A minha história com o Sorocabana é estreita. Eu conhecia todas as pessoas que trabalhavam lá. Tinha conversas e amizades duradouras com os funcionários”, relembra.
De acordo com ela, a decadência do hospital começou, principalmente, após a valorização imobiliária no bairro a partir da década de 1990, o que teria tornado o local rentável para a iniciativa privada. Em relação à prefeitura, diz não ver com confiança o destino que a atual gestão pode dar ao Sorocabana. “Até hoje Bruno Covas não se pronunciou [sobre o futuro do hospital]. Como saberemos qual é a linha do prefeito em termos de programações e projetos?”
A gestão Covas, contudo, diz que pretende dar uma solução definitiva para o hospital, o que pode ocorrer já em 2019. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirma que “possui Termo de Permissão de Uso para o imóvel, porém aguarda a regularização jurídica do terreno e demais bens. A pasta segue em tratativas com todas as partes envolvidas (governo do Estado, entidades privadas e conselho gestores) a fim de uma solução definitiva de utilização do prédio em questão”.
100% SUS
De acordo com o jornalista Manuel Lume, morador da Vila Anglo Brasileira e que também faz parte do Comitê de Defesa do Hospital Sorocabana, as últimas gestões municipais falharam em trazer uma solução ao hospital.
Ele explica que Haddad não levou à frente um plano de reativação e a gestão Doria apresentou um plano de concessão do prédio a um hospital particular, mantendo 60% do atendimento pelo SUS. A ideia de privatizar uma parte não agradou.
“Nós nos organizamos para exigir a reabertura do hospital totalmente público e 100% de atendimento pelo SUS”, explica Lume.
O jornalista conta que a importância do Hospital Sorocabana para a região é imensurável. “Durante os seus mais de 50 anos de existência, foi o hospital de referência de toda a zona oeste. Servia para desafogar o Hospital das Clínicas. Grande parte dos moradores da Lapa nasceu ali. Sempre recorríamos ao hospital. E queremos voltar a recorrer”, diz.
