“Faltam dois minutos para começar o cinema, hein? Hora de pegar a pipoca”, anunciou um pipoqueiro às margens do lago do Parque do Ibirapuera, na zona sul da Capital, na quarta-feira (19), antes do início da primeira sessão da noite do espetáculo de luzes do Natal da Fonte do Parque do Ibirapuera. Centenas de pessoas já se acumulavam no gramado para assistir à apresentação que ocorre três vezes por dia (às 20h30, 21h e 21h30) até 6 de janeiro, com duração de 20 minutos cada.
Uma das famílias presentes era a do professor de química Roy Victor, nascido na Bolívia, que tinha garantido um lugar no gramado ao lado da irmã, da mãe e da avó. Em português impecável por viver em São Paulo há anos, explicou ter ido ao local para alegrar a avó, que vive em La Paz e está em férias na cidade.
“Há uma avenida em La Paz chamada El Prado, como se fosse a Paulista, que tem decoração natalina, mas mais simples. Nada é parecido com essa do Ibirapuera”, contou o professor.
Já é o quarto ano que Victor acompanha o show de fontes do parque. Lamentou-se que na única que vez que levou a avó, há dois anos, a apresentação foi cancelada. Agora, torcia para dar tudo certo. “Esse espetáculo é maravilhoso. Tenho certeza que a minha avó vai adorar”, afirmou.
O cenário ficava ainda mais bonito com a presença imponente da árvore de Natal oficial da cidade, que fica a poucos metros de onde ocorre o espetáculo de luzes. A estrutura tem 43 metros de altura e mais de 250 de enfeites entre lâmpadas e cristais, além de uma enorme estrela no topo. As pessoas se esforçavam para enquadrar uma foto em que coubessem as águas e a árvore natalina ao fundo – quase sempre sem sucesso.
Para aquecer os presentes antes do início da sessão, os alto-falantes começaram a tocar canções como “Boas Festas”, de Assis Valente, o maior clássico natalino do País. Uma música que costuma ser cantada como símbolo de otimismo, mas que, na verdade, foi composta quando Assis Valente sentia um enorme sentimento de solidão e amargura na noite de Natal de 1932. Esse estado de espírito está registrado na letra: “Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem”.
Com o início do espetáculo, às 20h30 em ponto, o povo não se importou com a letra triste de Assis Valente e o entusiasmo era geral com cada pirueta que as águas coloridas davam no ar. Outras músicas emocionaram o público, como “Thank God It’s Christmas”, do Queen, e “Sino de Belém”, em versão parecida ao pagode, que fez muitas mães sambarem com os filhos pequenos ao colo.
Quase duas milhões de lâmpadas instaladas em 180 árvores foram acendidas ao fim do espetáculo. As pessoas começaram a caminhar pelo gramado, boquiabertas, e a se abraçar. Espírito só interrompido por uma pergunta de um senhor de bigode: “É a música da Simone?”. Na verdade os alto-falantes tocavam “Happy Christmas”, de John Lennon, para a qual Simone fez uma versão. A maioria resolveu cantar a letra em português mesmo: “Então é Natal / E o que você fez? / O ano termina / E nasce outra vez…”
DOIS LADOS
A percepção em relação ao espetáculo muda bastante dependendo de que lado do lago se assiste. Na margem de fora é possível ver as imagens refletidas nas águas das fontes; na de dentro, se fica ao lado das árvores iluminadas pelas duas milhões de lâmpadas. Sabendo disso, a decoradora de interiores Cristina Giron e a jornalista Adriana Giron, mãe e filha, que já tinham assistido ao primeiro espetáculo do lado de fora, entravam no parque para a próxima sessão.
Cristina falou de forma entusiasmada sobre suas impressões: “Uma beleza, emocionante, indescritível. O melhor que já vi”. Já a filha mostrou ainda mais admiração. “Está no nível de países asiáticos, cada vez mais bem feito”. Ela, que é venezuelana e vive no Brasil há 20 anos, também aproveitou para falar sobre a admiração que sente pelo povo brasileiro.
“Fico tão feliz de ver o Brasil fazer coisas cada vez melhores, como esse espetáculo. O povo brasileiro é maravilhoso, não existe outro igual no mundo – e olha que já viajei bastante. Gosto da alegria de vocês, do jeitinho e da leveza. Povo igual não há”, desmanchou-se a venezuelana radicada no País.
Já outra presente, Vania Galli, que é brasileira mas mora na França, disse que o ponto alto do espetáculo foram as canções executadas. “Lembrou as músicas da minha infância”. Ela estava ao lado da família, com destaque para dona Angelina, de 93 anos, que mora em São Paulo. “O show foi maravilhoso, gostei muito. Mas gostei ainda mais que a minha família voltou ao Brasil para passar o Natal comigo”, disse a matriarca.
A Fonte do Parque Ibirapuera é um dos poucos lugares públicos da Capital onde o Natal está sendo celebrado. Neste ano, a avenida Paulista traz poucos elementos que lembram as festividades de fim do ano. O cenário de crise econômica fez poucas empresas patrocinarem as festas na capital paulista. O Natal na Fonte do Parque Ibirapuera é patrocinado pela Elo em parceria com o Ministério da Cultura.
Roy Victor fez questão de levar a avó que vive em La Paz: “Tenho certeza que ela vai adorar”
(Foto: Henrique Barreto/Futurapress)