É terça-feira, 26 de março, meio-dia. No largo General Osório, no centro de São Paulo, uma fila de cerca de 90 pessoas aguarda debaixo de sol forte por um prato de comida. São moradores de rua e usuários de droga que perambulam pela cracolândia – a menos de 400 metros dali.
Com uma churrasqueira e uma mesa montadas na praça, uma equipe serve os pratos com arroz carreteiro, vinagrete, farofa, linguiça, bacon, bananinha suína (corte nobre) e bife de chorizo. Sob o calor de 30º C, eles ainda irão ganhar um copo de água e um pirulito de sobremesa.
A boca-livre é resultado da ação da youtuber Larissa Morales, dona de um canal de vídeos sobre churrasco. É um respiro na rotina de quem vive para coletar recicláveis, não tem residência fixa e transita pelo degradado quadrilátero marcado pelo tráfico e consumo de drogas.
Muitos desanimam ao ver a linha de pessoas. “Pega uma pra mim”, diz um catador de material para reciclagem que passa pela praça. “Tem que pegar a fila”, ouve como resposta. “Depois eu pego então”, diz, e sai andando.
Enquanto os pratos são servidos aos primeiros enfileirados, pequenos desentendimentos se desenrolam no entorno.
“Aí coroa! Não vai tumultuar não!”, grita um homem para outro mais velho, que como quem não quer nada, encostou alguns lugares à frente.
“Tem uns que vendem [o prato] ali”, critica outro, sugerindo que a doação já estava sendo utilizada como comércio.
Sentado ao lado da fila, um homem com cerca de 35 anos, cego de um olho, com uma perna machucada e um sorriso perene observa a movimentação, alheio. Perguntado se não vai comer, murmura algo ininteligível, sem fazer contato visual e sem deixar de sorrir. Depois de alguns minutos, se levanta e se posta ao lado dos primeiros lugares da fila, na parte de fora do cordão.
Quando se vê, já está dentro, recebendo um prato. Sai caminhando alegre, para comer em outro lugar. “Pegou, hein? Só na manha!”, diz o taxista C.S., cujo ponto é na praça.
Como quem comemora uma pequena vitória, o homem cumprimenta o taxista com um soquinho, e, sorrindo, segue seu caminho, sem dizer palavra.
A região da cracolândia é historicamente alvo de conflitos. Em contraste com a arquitetura suntuosa da Sala São Paulo, palco de concertos de música clássica, uma feira das drogas toma a área desde meados da década de 1990. Confrontos entre as forças de segurança e a população local são constantes, assim como as reclamações de abuso policial.
O fluxo, como é chamada a aglomeração de usuários, é flutuante, e costuma mudar de lugar quando o governo de ocasião faz alguma operação para tentar desarticular o tráfico. Apesar disso, nunca deixa a região.
Após megaoperação policial em maio de 2017, o fluxo deixou um trecho da alameda Dino Bueno e se instalou na esquina entre a alameda Cleveland e a rua Helvétia, a uma quadra do local anterior.
À época, o então prefeito João Doria (PSDB), hoje governador do estado, disse que a cracolândia tinha acabado.
Mais do que um problema de segurança pública, a questão de saúde pública – dependentes químicos – se mostrou como a raiz do problema, e algo mais difícil de se resolver.
“É um povo sofrido, porque o vício é duro, né?”, diz o taxista, há 13 anos trabalhando no local.
Segundo sua percepção, a cracolândia só aumentou desde então, mesmo após a operação de 2017, ação conjunta do governo Geraldo Alckmin (PSDB) com a prefeitura.
“Morador de rua aumentou na cidade inteira, mas aqui a gente nota mais, aumentou muito”, garante o taxista.
COMEMORAÇÃO
O churrasco para essa população foi uma ideia da youtuber para comemorar o número de inscritos em seu canal, Larica na Brasa. Quando alcançou 50 mil seguidores, no ano passado, Larissa – que tem o canal desde fevereiro de 2017 – decidiu fazer um churrasco de graça como ação social e abriu uma votação para decidir se seria em um orfanato, um asilo ou para moradores de rua.
Venceu a terceira opção, e o primeiro churrasco foi organizado no mesmo largo, em dezembro.
“A gente amou e decidiu fazer de novo”, conta Larissa, que estima ter servido 400 pratos nesta terça. A proposta, segundo ela, é que a ação agora seja trimestral e ocorra em diferentes locais. Já há tratativas para a realização em bairros da periferia.
Questionado se o churrasco estava bom, A.J.D., 51, mal consegue responder. “Rapaz!”, diz. “Ave Maria. Tá muito boa demais.”
O baiano, que dorme em um centro de atendimento da prefeitura na região, comeu também o churrasco de dezembro e dessa vez até ajudou a descarregar as carnes quando a equipe chegou, por volta das 10h.
Trabalharam junto com Larissa outros nove voluntários, amigos e seguidores de seu canal. O custo, segundo ela, é baixo. As carnes foram todas doadas de parceiros – “É carne mais cara até”, diz a churrasqueira, que no vídeo de apresentação de seu canal promete dicas sobre partes bovinas consideradas menos nobres -, e os demais gastos foram divididos entre a equipe.
C.L., assistente social que atua na área há seis anos, diz que a ação serve também como um escape para essa população. Sem remuneração, ela realiza atividades aos sábados no local para os usuários, com oficinas, bazar e conversas.
“Eles já sabem [do compromisso] e até me cobram. É um momento de tirar os usuários do fluxo para fazer outra atividade”, diz.
Por volta das 13h30, meia hora antes do previsto, os 50 kg de carne acabam. A equipe faz o anúncio e recebe uma salva de palmas. A fila então se dispersa. Alguns vão dormir embaixo das árvores da própria praça, outros vão procurar sucata para vender, outro grupo volta para a esquina da Cleveland com a Helvétia. A cracolândia não acabou.