Obras no Largo do Arouche não incluem mercado de flores

Elemento central da reforma do largo no centro de São Paulo, o novo prédio para o mercado não tem data para sair do papel Por Folhapress De São Paulo

Enquanto ao seu redor o Arouche começa a mudar, as velhas bancas de flores ficarão lá, iguais. Elemento central da reforma do largo no centro de São Paulo, o novo prédio para o mercado não tem data para sair do papel.

Continua após a publicidade

As obras, iniciadas no último dia 24, contam com R$ 2,3 milhões, captados junto à iniciativa privada pela Câmara de Comércio França-Brasil.

O montante cobre apenas as fases 1 e 2 do projeto, anunciado em 2017, ainda na gestão de João Doria (PSDB) como prefeito, e concebido pelo escritório franco-brasileiro Tryptique.

A marquise que abrigaria as bancas que ali vendem flores desde 1952 – com cobertura que captaria água pluvial para irrigar o largo e células fotovoltaicas que lhe dariam autonomia energética – custaria outro R$ 1,5 milhão.

Continua após a publicidade

Durante a cerimônia de abertura das obras, o prefeito Bruno Covas (PSDB) disse que os recursos continuam sendo buscados.

O novo mercado não é importante somente pelos seus aspectos tecnológicos. Definido como “coração do projeto” pelo arquiteto francês Greg Bousquet, sócio do Tryptique, é a principal ferramenta do plano para mudar o espaço existente.

Enquanto o prédio atual, de alvenaria, volta as costas cegas e gradeadas para o interior da praça, o novo, em estrutura metálica, seria transparente e aberto para todos os lados.

Continua após a publicidade

A solução daria continuidade visual e mais segurança aos passantes, eliminando o efeito de muro da atual construção.

As verbas disponíveis pagarão a nova pavimentação, jardinagem e equipamentos. Essas etapas devem estar concluídas entre outubro e novembro. A esperança de Bousquet é que os recursos para o mercado de flores surjam até lá.

Preservado, o traçado original terá piso de tonalidade distinta da usada nas áreas de circulação novas. Estas foram pensadas para reduzir a velocidade dos veículos, priorizando pedestres.

Continua após a publicidade

Bancos, luminárias e quiosques utilizados são criação do Estúdio Módulo, vencedores em 2016 de um concurso de mobiliário público.

Opção, diz Bousquet feita para minimizar o fato “bizarro, do ponto de vista ético”, de seu escritório ter sido convidado pelo consulado francês, sem concorrência, para o trabalho.

CRÍTICAS

Continua após a publicidade

A dúvida quanto à construção do mercado coroa o caminho atribulado do projeto até agora.

O largo, que se espraia em descida entre as avenidas Vieira de Carvalho e Duque de Caxias, é um dos espaços públicos mais vivos do centro, com comércio, hotéis e restaurantes frequentados dia e noite. É, ainda, um marco notável de convívio e resistência da comunidade LGBT na cidade.

Preocupado com o apagamento dessa presença, o Coletivo Arouchianos ergueu a voz no debate. O termo certo não seria requalificação, mas reforma, diz Helcio Beuclair, fundador e coordenador geral e político do grupo LGBT.

Continua após a publicidade

“A gente não é contra a reforma”, frisa ele; “a parte física do projeto é interessante”. É a parte “intelectual, o marketing, desde a época do Doria, de transformar a região numa ‘pequena Paris'”, o que preocupa o coletivo.

Para Beuclair, quando se fala em requalificar, questiona-se a qualidade daqueles que construíram laços afetivos com o Arouche.

A ideia de afrancesar, diz, “invisibiliza a ocupação histórica” da região por uma população LGBT periférica, “preta, parda, indígena, amarela, migrante e imigrante”.

Continua após a publicidade

Beuclair não nega a percepção de Bousquet de que o “grande atrito” foi com o Arouchianos, enquanto outros grupos da comunidade LGBT foram favoráveis. Para o ativista, de fato a “militância LGBT da elite paulistana, branca e higienizada”, apoia o projeto.

Bousquet diz ter ouvido e entendido as críticas. Na visão do arquiteto, o projeto dará à comunidade LGBT uma territorialidade física que hoje não existe. Marca disso seriam os novos postes com bandeiras de arco-íris, símbolo internacional da diversidade sexual.

“Vou ficar superfeliz se tiver as bandeirinhas, inclusive foi sugestão nossa, imploramos para que fossem colocadas”, diz Beuclair.

Continua após a publicidade

Além disso, estão previstos quatro quiosques no largo, um deles para o movimento LGBT -que, contudo, não foi o único foco de discordâncias quanto ao projeto.

Também houve discussão nos órgãos de patrimônio – o Arouche é tombado em nível municipal, pelo Conpresp, e a preservação é avaliada no âmbito estadual, pelo Condephaat.

Aprovado pelo Conpresp, o projeto não foi discutido pelo ETGC (Escritório Técnico de Gestão Compartilhada), que tem como função debater previamente intervenções em áreas tombadas, para fomentar o entendimento comum entre os órgãos do patrimônio.

Continua após a publicidade

O Condephaat acabou aprovando o projeto em 2018, apesar de três pareceres produzidos no âmbito estadual terem sido contrários às mudanças – dois de arquitetos da UPPH (Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico) e um da representante do Instituto de Arquitetos do Brasil no Condephaat, Sarah Feldman.

Todos questionavam a necessidade de criar novos elementos, como a horta comunitária e o espaço para crianças, criticavam a alteração da forma de canteiros e a implantação de quiosques, que alterariam a percepção do espaço. Mas, principalmente, os pareceres apontavam a fragmentação do largo pelo fato de o projeto se limitar à sua parte superior.

A parte baixa, próxima ao elevado João Goulart, bem como as porções que a ligam ao “alto Arouche” não são contempladas.

Continua após a publicidade

Beuclair ecoa a preocupação. É possível, alerta ele, que a parte alta, já densamente frequentada, sofra depredação com o aumento do público.

Para Bousquet, essa é a crítica mais relevante. Segundo o arquiteto, seu escritório chegou a desenvolver estudos para a porção baixa do largo. Sem recursos para a implantação, porém, ficaram na gaveta.