Alesp aprova projeto que permite cesárea sem indicação no SUS

De autoria da deputada Janaína Paschoal (PSL), o projeto teve 58 votos a favor e 20 contrários. A proposta seguirá para sanção ou veto do governador João Doria Por Folhapress De São Paulo

A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou nesta quarta (14) um projeto de lei que garante à gestante a opção pela cesárea no SUS, na hora do parto e sem indicação clínica, a partir da 39ª semana de gestação.

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De autoria da deputada Janaína Paschoal (PSL), o projeto teve 58 votos a favor e 20 contrários. A proposta seguirá para sanção ou veto do governador João Doria (PSDB).

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O deputado estadual Campos Machado (PTB) disse que recorrerá ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para tentar derrubar o projeto. Para ele, a proposta é um “incentivo desenfreado e irresponsável às cesáreas”.

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Já a deputada Damaris Moura (PHS) defendeu a medida. “Eu estive convicta a respeito desse projeto desde que foi proposto. Nunca hesitei e naturalmente eu penso que estamos bem nutridos de estatísticas e temos números e casos que agem em favor da aprovação”, disse.

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Durante sua tramitação na Assembleia, a proposta dividiu entidades médicas. A Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo) diz que o projeto não tem base em evidências científicas e que pode estimular taxas indiscriminadas de cesáreas, que trazem riscos à mulher e ao bebê.

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Já o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) defende o projeto de Paschoal, alegando que se opõe à “vilanização” dos partos cesarianos.

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Diz que há eventos adversos decorrentes da demora em se realizar cesariana e por complicações da insistência pelos partos vaginais.

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O Brasil é o segundo país com maior taxa de cesáreas no mundo, só perdendo para a República Dominicana (56%). Dos partos feitos no SUS, 40% ocorrem por meio de cirurgias. Na rede privada, o índice chega a 84%.

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Para Simone Diniz, médica e professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, a aprovação do projeto de Paschoal vai na contramão de todas as evidências científicas mundiais existentes sobre segurança de mães e bebês.

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Mas, na sua opinião, todo o apoio que a proposta recebeu reflete a falta de acesso de mulheres brasileiras a um parto mais respeitoso.

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“Para muitas mulheres, ou se tem parto normal com uma assistência obstétrica agressiva ou a cesariana. Nesse contexto, a opção cirúrgica parece mais segura do ponto de vista físico e emocional.”

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Segundo Diniz, sem mudar a agressividade do manejo do parto, a cesárea vai continuar sendo uma opção atraente.

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“O país só vai superar isso quando chegarmos ao nível dos países desenvolvidos, com as enfermeiras obstetrizes fazendo os partos de baixo risco, deixando para os médicos aqueles com complicações clínicas e obstétricas.”

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A violência obstétrica sofrida pelas gestantes no SUS é o principal argumento usado pela deputada na defesa do projeto.

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“O que está ocorrendo com as mulheres mais pobres neste país é inadmissível. Com 40 semanas de gestação, os bebês estão prontos para nascer. Mandam mulheres nessas condições voltarem para suas casas, uma série de vezes de ônibus, esperando a hora de o bebê nascer”, afirma.

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Ela diz que, por conta da demora e da insistência no parto normal, os bebês sofrem “anóxia [falta de oxigênio], ficando sequelados para o resto da vida, em virtude da chamada paralisia cerebral”.

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Não há dados sobre as taxas de paralisia cerebral no estado de São Paulo ou estudos que determinem se essa ocorrência é maior ou menor em hospitais públicos ou privados paulistas, segundo a Sogesp.

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“Não há evidência na literatura médica de que o parto normal esteja associado a um maior risco de paralisia cerebral. Ao contrário, há dados que comprovam que o aumento nas taxas de cesariana não muda a ocorrência de paralisia cerebral”, diz a ginecologista e professora da USP Rossana Pulcineli Vieira Francisco, presidente da entidade.

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Vários estudos apontam que somente 10% dos casos de paralisia cerebral estão relacionados a eventos durante o parto. Os demais (90%) têm causas genéticas ou estão associados a alterações durante o pré-natal ou após o nascimento do bebê.

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“Sem dados concretos, tomar decisões, projeto de lei sobre um evento extremamente grave, mas pouco frequente e de causa multifatorial é muito temeroso e de certa forma irresponsável com a saúde pública”, afirma.

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Para ela, uma das prováveis consequências do projeto, caso sancionado por Doria, será o aumento indiscriminado nas taxas de cesárea nos hospitais públicos paulistas.

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“Esse fato também não foi analisado de forma adequada, inclusive com planejamento sobre seu impacto em relação às complicações da cesariana como maior risco de hemorragia e infecção.”

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Segundo Rossana Francisco, o aumento de cesarianas está associado a complicações obstétricas que levam a hemorragias, que são hoje uma das principais causas de mortalidade materna no país.

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*Por Cláudia Collucci, da Folhapress