Com pé 54, morador de albergue vive saga em busca de sapato

Com 2,12 m de altura, Reger calça número 54 Por Folhapress

Uma meia grossa cobre metade do tênis que calça o pé direito de Reger Rodrigues Rinaldi. A gambiarra é para tapar a parte frontal, que se abriu quase inteira, em um rasgo que chega até metade da sola. O outro pé ainda resiste, mas também não está lá essas coisas: as laterais estão se abrindo, e a sensação é de que o calçado pode estourar a qualquer momento.

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É mais um capítulo na saga por um sapato vivida por Reger, 31. Com 2,12 m de altura, ele calça número 54, que não é vendido nem em lojas especializadas em tamanhos grandes –em geral, as opções terminam no 48.
Morador de um albergue em São Paulo, Reger ganhou o tênis atual de um doador que o trouxe dos Estados Unidos. O número, porém, é um abaixo do dele, e o calçado resistiu por poucos meses até rasgar.

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“Foi por um milagre que ele entrou no meu pé. Nenhum outro tinha servido. Além de ser numeração especial, meu pé ainda é largo”, lamenta ele. “Estou com um sapato número 50 ali guardado que quase me matou. Meu pé ficou torto.”

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Antes de ganhar o tênis americano, ele usava um chinelo tamanho 45, tão menor que seu número que lhe gerou dores no joelho e na coluna.

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Reger conta que aos 16 anos já tinha essa altura e esse tamanho de pé –36 cm de comprimento, 10 cm a mais que um pé tamanho 40. Filho de pai com 1,90 m e de uma mãe com 1,87 m, ele não foi diagnosticado com nenhum problema hormonal, como acontece com pessoas que têm gigantismo, por exemplo.

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Ele diz que já usou calçados feitos sob medida graças a uma forma adaptada por um sapateiro de uma cidade do interior. “O cara tinha uma forma 50, que ele preencheu com um material para ficar do meu tamanho. Mas esse sapateiro morreu e eu acabei perdendo a forma.”

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Segundo o RankBrasil, que registra recordes nacionais, o homem mais alto do país é o paraibano Joélisson Fernandes da Silva, conhecido como Ninão, que mede 2,37 m e tem pés com numeração 60.

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Reger, que está em situação de rua há dois anos, relata ter tido uma infância difícil. Nascido em Ribeirão Preto, viveu dos 12 aos 23 anos de hotel em hotel com seu pai, foragido da justiça por não pagar pensão alimentícia. “Perdi escola, minha infância, várias oportunidades. Poderia ter jogado basquete, mas não tinha como porque a gente não parava em nenhum lugar.”

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Após viver em albergues no interior e na cidade de São Paulo, ele foi morar em um barraco na chamada favela do Cimento, na região leste da capital. Chegou à cidade usando o último sapato sob medida que sobrou em seu armário. “O couro dele estava despedaçando. Logo depois, desmanchou.”

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Em março deste ano, na véspera de ser cumprido um mandado de reintegração de posse, a favela foi destruída por um incêndio. Reger foi então para o albergue onde vive hoje, dormindo encolhido no colchão de 1,80 m de um beliche.

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“Não é fácil para uma pessoa que tinha liberdade viver em albergue. Eu cozinhava, tinha minhas coisas organizadas. Quase entrei em depressão”, conta.

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Acostumado a chamar a atenção por onde passa, Reger diz que ouve muitos comentários na rua. “Eu brinco que eu tinha que ser rico para contratar uma pessoa só para responder às perguntas. Tem sempre alguém que grita: ‘olha o tamanho daquele cara!’. É constrangedor”, diz.

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Outra dificuldade que enfrentou devido ao tamanho foi não poder tirar carteira de motorista, pois não cabe nos carros. Mas ele afirma que o que mais o chateia atualmente é a falta do calçado.

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“Já me chamaram para trabalhar de segurança e não posso ir. Sei cozinhar, fui dono de pizzaria e lanchonete, faço extrato de eucalipto e quero voltar a sobreviver do meu produto. Mas, por não ter sapato, minha vida parou.”

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“É extremamente difícil achar um pé desse tamanho”, diz Eduardo Wüst, coordenador do Laboratório de Ensaios em Biomecânica do IBTeC (Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos). Segundo ele, a maioria da população masculina do Brasil calça tamanhos 40, 41 e 42, e as fábricas concentram sua produção nessas numerações.

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Usar um sapato menor do que o pé pode causar pequenas lesões a curto prazo e problemas traumatológicos e ortopédicos a médio prazo, diz Wüst. “´É preciso haver um pequeno espaço interno no calçado para que o pé possa se movimentar. Essa movimentação a cada passo que a gente dá é muito importante porque auxilia na distribuição da carga e no amortecimento do impacto ao caminhar”, explica.

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Voluntários do albergue estão se mobilizando para comprar uma forma nova sob medida para Reger, mas ela custa quase R$ 1.000 e as doações só chegaram a R$ 150.

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Segundo ele, o modelo ideal para o seu caso seria um tênis, que possa amortecer o impacto de seus 165 kg nas articulações e lhe permitir praticar exercícios de fortalecimento. “Não vou me importar com o tempo que perdi”, diz. “Se eu conseguir um calçado, eu consigo me erguer de novo.”