Autor de ‘Diário de Tremembé’ lança livro sobre justiceiro que atuava em SP

Obra 'O Coveiro de São Paulo – Eu matei mais de mil pessoas' foi escrita durante a passagem de Acir Filló pela Penitenciária II de Tremembé

Além de 'O Coveiro de São Paulo', Acir Filló é autor de 'Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos', que originou a série da Prime Video (Foto: Divulgação)

Além de 'O Coveiro de São Paulo', Acir Filló é autor de 'Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos', que originou a série da Prime Video (Foto: Divulgação)

O jornalista e ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP), Acir Filló, autor de “Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”, que originou a série da Prime Video, acaba de lançar mais um livro inspirado em um dos detentos com quem conviveu por dois anos na Penitenciária II de Tremembé, no interior de São Paulo.

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Desta vez, a obra, intitulada “O Coveiro de São Paulo – Eu matei mais de mil pessoas”, disponível na Amazon, narra a trajetória de Herculano, um justiceiro que afirma ter cometido diversos assassinatos na Grande São Paulo ao longo de mais de 20 anos.

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“Todos os jornalistas sabem que, quando entrevistamos, nós entramos na vida dos personagens. E quando eu ouvi os relatos, aquilo me chocou muito. Foi estarrecedor, principalmente quando ele revelou a infância dele”, contou Acir.

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O lançamento do livro ocorreu no dia 5 de maio, na Livraria Drummond, em São Paulo.

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A Gazeta entrevistou Acir Filló para conhecer os bastidores da produção da obra e entender como foi entrevistar aquele que o jornalista considera “o maior justiceiro da história do Brasil”. Confira os detalhes a seguir.

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Primeiro contato do autor com o personagem

Apesar de dar título ao livro, Herculano não era coveiro de profissão. A alcunha funciona como uma metáfora para definir alguém que, segundo seus próprios relatos, enterrou inúmeras vítimas que matou com as próprias mãos.

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O homem trabalhava como segurança e, após ser condenado por um dos assassinatos, foi preso na Penitenciária II de Tremembé, onde conheceu Acir Filló.

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“Ele me procurou em Tremembé, quando percebeu que eu estava escrevendo um livro sobre os personagens famosos daquele lugar” conta ele.

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“Eu já estava entrevistando Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Lindemberg Alves, Mizael Bispo, Roger Abdelmassih, essa turma toda. E esse sujeito me procurava, me pedia pra escrever a história dele”, afirma.

Acir conta que, na época, estava concentrado na produção de Diário de Tremembé. Após concluir a obra, decidiu ouvir a história de Herculano.

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“E chamei ele pra uma conversa que me estarreceu, mas fiquei com o pé atrás e decidi fazer uma pequena investigação através de alguns amigos jornalistas, para saber o que aquilo tinha de verdade. Para o meu espanto, era tudo real. Aí eu falei: agora que acabei o livro de Tremembé, vou escrever a história desse cara”.

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Justiceiro teria nascido com a ausência do Estado

Segundo Acir, Herculano teve uma infância marcada por traumas e pela convivência constante com a violência, inclusive dentro de casa.

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Para o autor, o abandono das periferias pelo poder público e a falta de respostas eficazes à criminalidade ajudam a explicar o surgimento de personagens como Herculano, além de outros nomes que repercutiram na imprensa como Chico Pé-de-Pato, Pedrinho Matador e o ex-policial militar Cabo Bruno.

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“Se nós tivéssemos um sistema de justiça que funcionasse, os justiceiros não existiriam”, afirma Acir.

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“O próprio Herculano falou para mim: ‘eu só existo porque o Estado não faz a sua parte como segurança pública’. É uma questão também social. Eu costumo dizer que a miséria, a pobreza, não justifica a violência, mas contribui substancialmente”.

O primeiro assassinato de Herculano ocorreu quando ele tinha 16 anos. Segundo o relato, o crime foi motivado pela vingança contra um homem que o havia agredido aos 12 anos.

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A partir desse episódio, ele passou a perseguir e matar pessoas que considerava criminosas, entre elas agressores, pedófilos, estupradores e feminicidas.

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“Então, ele não nasceu justiceiro, ele não nasceu vingativo. Ele foi fabricado por uma sociedade pobre, violenta e abandonada pelo Estado”, opina o escritor da obra.

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‘Justiceiros também são criminosos’

Embora considere que a atuação do Estado tenha contribuído para a formação de Herculano, Acir lembra que o fato de alguém agir como justiceiro não elimina sua condição de criminoso.

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“Esse desejo de fazer justiça com as próprias mãos ele já tinha no seu âmago. Os justiceiros, sejam eles quais forem, também são criminosos. Eles não são super-heróis, porque a justiça tem que ser feita pelo poder judiciário”, afirma.

O autor diz ainda que não se baseou apenas nos relatos de Herculano para escrever o livro. Os casos narrados foram checados por meio de pesquisas de colegas jornalistas enquanto ele estava preso.

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“Eu acionei alguns amigos repórteres, como Miguel Leite. Conforme Herculano me relatava, eu acionava meus contatos para verificar se realmente naquela data ocorreu tal crime, em tal circunstância”.

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Autor de ‘Diário de Tremembé’

Acir Filló é autor de“Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”, livro em que relata histórias e bastidores envolvendo detentos conhecidos nacionalmente, como Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Gil Rugai, Lindemberg Alves e o ex-médico Roger Abdelmassih.

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Ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP), Acir foi transferido para a Penitenciária II de Tremembé em maio de 2017, após ser condenado a quase 20 anos por corrupção, crime do qual se considera inocente.

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Diário de Tremembé foi lançado oficialmente em junho de 2019. Dois meses depois, porém, a Justiça de São Paulo determinou a suspensão da circulação e da venda da obra.

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A decisão atendeu a pedidos de detentos citados no livro, que contestaram a veracidade de parte dos relatos e alegaram o uso não autorizado dos seus relatos.