“Tremembé era um ‘hotel’ – entre aspas – se comparado aos demais presídios do País”. A declaração foi dada pelo jornalista e ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP), Acir Filló, em entrevista exclusiva à Gazeta.
Preso por corrupção em 2017, ele cumpriu parte da pena na Penitenciária II de Tremembé, onde escreveu o livro “Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”, com relatos de detentos conhecidos nacionalmente, como Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Lindemberg Alves, Mizael Bispo e Roger Abdelmassih.
Para ele, a comparação se deve a dois fatores. O primeiro é que a violência frequentemente retratada pela mídia sobre o sistema prisional não refletia a realidade vivida na unidade.
O segundo é que os presos de Tremembé contavam com mais comodidades e acesso a um número maior de iniciativas de ressocialização.
A seguir, veja como era a rotina dentro da penitenciária e por que Tremembé se tornou o presídio mais conhecido do Brasil.
Como nasceu o ‘presídio dos famosos’
A Penitenciária “Dr. José Augusto César Salgado”, mais conhecida como Penitenciária II de Tremembé, tornou-se famosa por abrigar presos envolvidos em crimes de grande repercussão, além de ex-policiais e outros detentos considerados vulneráveis dentro do sistema prisional.
Essa característica foi oficializada em 2002, quando o então governador Geraldo Alckmin publicou o Decreto nº 46.618, determinando que presos sujeitos a represálias em outras unidades fossem transferidos para Tremembé.
A medida buscava proteger esses detentos da morte e da violência, especialmente de facções criminosas.
Superlotação do presídio é inexistente
Segundo Acir Filló – que acaba de lançar o livro “O Coveiro de São Paulo – Eu matei mais de mil pessoas”, inspirado em um dos detentos com quem conviveu na prisão – a realidade da P2 de Tremembé é muito diferente da imagem retratada em filmes, séries e reportagens sobre o sistema prisional brasileiro.
“Nos presídios do Brasil afora, são 40, 45 homens na mesma cela. Em Tremembé, são dois sujeitos em cada cela. Lá também tem todas as atividades culturais, laborais e esportivas”, afirmou.
De acordo com o Relatório de segundo semestre de 2025 da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), São Paulo possui capacidade para cerca de 156 mil presos, mas abriga aproximadamente 221 mil detentos, um déficit de quase 64 mil vagas.
A P2 de Tremembé, porém, está na contramão da superlotação. Segundo os dados mais recentes da Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP), a unidade tem capacidade para 584 presos, mas abriga apenas 337 detentos.
Outras ‘comodidades’ dos presos
A penitenciária também possui oficinas de trabalho, hortas, biblioteca, igreja, além de promover atividades culturais e esportivas. A participação em algumas dessas iniciativas pode resultar na remição da pena, mediante autorização da Justiça.
Na avaliação de Acir Filló, a unidade é um “modelo extraordinário de ressocialização”, por oferecer oportunidades que ajudam a reduzir a reincidência criminal.
“Os criminosos têm que pagar pelos seus crimes, eu compreendo isso. Mas esses sujeitos que estão presos vão sair, porque não tem prisão perpétua no Brasil. Queremos que eles saiam melhores ou piores do que entraram?”, refletiu o autor.
Apesar das condições consideradas mais favoráveis, a penitenciária segue as mesmas regras disciplinares e os mesmos protocolos de execução penal adotados pela SAP em outras unidades.
Mudanças no ‘presídio dos famosos’
Embora seja conhecida como o “presídio dos famosos”, a Penitenciária II de Tremembé passa por uma reestruturação.
Entre o fim de 2025 e o início de 2026, detentos conhecidos, como Robinho, Thiago Brennand, Ronnie Lessa, Fernando Sastre, Walter Delgatti Neto e Roger Abdelmassih, foram transferidos para outras unidades prisionais, principalmente para a Penitenciária II de Potim, também no interior paulista.
No mesmo período, Tremembé também passou a receber apenas presos do regime semiaberto.
As mudanças começaram a acontecer logo após o lançamento da série Tremembé, da Prime Vídeo, em outubro de 2025.
A produção retrata a rotina de criminosos conhecidos, além de conflitos internos, alianças e disputas de poder na penitenciária.






